Governo não vê que ‘cultura gera renda e emprego’, diz cineasta

Governo não vê que ‘cultura gera renda e emprego’, diz cineasta

Sonia Racy

06 de junho de 2016 | 00h45

FOTO MARCOS RAMOS

FOTO MARCOS RAMOS

Luiz Carlos Barreto, que lança na quinta-feira o filme
Vampiro 40° , diz que visão oficial da produção
cultural é ‘subprovinciana’, mas elogia novo
ministro por ‘despartidarizar o MinC’

Desde jovem, vivendo nos anos 40 em Fortaleza, Luiz Carlos Barreto curtia filmes de terror, sempre às sextas-feiras, no Cine Majestic. O tempo passou, a vida do cineasta confundiu-se com a história do cinema brasileiro, e só agora, aos 88 anos, ele enfim produz um filme do gênero – Vampiro 40 Graus, que chega às telas nesta quinta-feira. E, no ritmo intenso de quem acumulou mais de 70 produções – Vidas Secas, Dona Flor, Augusto Matraga, O Que É Isso Companheiro, Menino do Rio, etc, etc… – seu tempo já é tomado por um novo trabalho. João, uma história inspirada na vida do pianista e regente João Carlos Martins, chega às telas no primeiro semestre de 2017.

Político por instinto, esquerdista histórico mas também muito pragmático, Barretão critica duramente, nesta entrevista a Gabriel Manzano, a ideia inicial do governo Temer de fechar o Ministério da Cultura. Para ele, é “uma demonstração da má ou nenhuma compreensão histórica dos governantes em relação à produção de bens culturais”. Uma visão “subprovinciana” de quem ignora que “a indústria do entretenimento movimenta no planeta US$ 1,7 trilhão  — valor que, no Brasil, chega aos US$ 60 bilhões, gerando mais de um milhão de empregos.”

Ao mesmo tempo, ele saúda o novo ministro da Cultura, Marcelo Calero, “que na posse já demonstrou independência política, desatrelando o Minc da política partidária e fundando um outro PCB, o Partido da Cultura Brasileira”. A imagem é uma brincadeira com a sigla do antigo Partido Comunista Brasileiro, ao qual Barreto se ligou desde jovem – o que não o impediu de manter sempre boas relações com a área cultural de todos os governos nas últimas três décadas. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O que o levou, a esta altura da vida e da carreira, a produzir um filme de terror? Curiosidade ou percepção de um novo mercado?
O terror é um gênero clássico do cinema mundial. Bela Lugosi marcou minha adolescência em Fortaleza nos anos 40. Por isso, quando o Marcelo Santiago e o Fausto Fawcett trouxeram o projeto desse Vampiro 40, decidimos – minha mulher Lucy, minha filha Paula e eu – encampar a ideia. Inicialmente produzimos uma minissérie que emplacou três temporadas no Canal Brasil. No longa, turbinamos a produção com um visual e direção de arte sofisticados.

O que pretende o vampiro Vlak dizer ao público?
Ele é um espírito inquieto, que não se acomoda com a própria situação de domínio sobre a cidade. É uma síntese do inconformismo e questiona o próprio poder. Arranca de sua boca o canino, símbolo da força de um vampiro. Com isso, quis o que o poder sempre devia fazer: uma autocrítica.

Como vê hoje o mercado de cinema do País? TV aberta e a cabo ajudam ou atrapalham?
Com a convergência tecnológica, esse mercado cresceu e se diversificou, com TV por assinatura, o VOD, o DVD, internet e ampliação de salas – de 1.800 há dez anos para 3.000 hoje. Entretanto, o mercado não voltou a remunerar os produtos como ocorria nos anos 60 a 90, quando 30% a 35% da renda bruta da bilheteria ficavam com o produtor.

Para quanto caiu?
Hoje, da renda bruta cabem ao produtor 10% 15%, mas só nos grandes sucessos, acima dos 2 milhões de espectadores. Nos EUA, a lei garante ao produtor de 40% a 55% da renda bruta da bilheteria. No Brasil, além de uma repartição injusta, convivemos com uma evasão fraudulenta de receita das salas, estimada em até 30%.

Como isso pode ser mudado?
Falta uma regulação e fiscalização do mercado, que a Ancine, até hoje, em mais de 15 anos de existência, não se preocupou em fazer. No mercado de TV por assinatura, ou aberta, o produtor independente não passa de um prestador de serviço. Os produtos não geram lucro.

O que falta para o cinema nacional se consolidar no exterior?
A performance do nosso cinema lá fora sempre foi de alto nível. Desde o cinema novo os filmes – em Cannes, Berlim, Veneza… – despertam enorme interesse de público e de crítica. Veja os recentes, Que Horas Ela Volta?, da Ana Muylaert, e Aquarius, de Kleber Mendonça. O que não temos, e é indispensável, é um mecanismo de comercialização no mercado externo. Aliás, o que falta é um esforço para internacionalizar a produção cultural brasileira: música, audiovisual, literatura, artes plásticas, moda, design…

Qual seu balanço do episódio de fecha-abre do Ministério da Cultura? Acredita que o novo ministro fará um bom trabalho?
Essa crise foi mais uma demonstração da má, ou nenhuma, compreensão histórica de parte dos governantes em relação à produção de bens culturais no País. Há uma visão subprovinciana. A atividade cultural é tratada e percebida como um ornamento, um enfeite, no contexto do poder e da sociedade que percebem os artistas como pessoas divertidas, exóticas ou vagabundas. Não se dão conta de que produzir conteúdo artístico e cultural gera renda e emprego de alta qualidade. A fruição de bens e produtos culturais eleva o conhecimento e gera uma das maiores cifras de negócios do planeta. Um estudo da PriceWaterHouse revela que, de 2001 a 2010, a indústria do entretenimento saltou de US$1,2 trilhão para US$ 1,7 trilhão.

A quanto chega isso no Brasil?
A US$ 60 bilhões, e gerando mais de um milhão de empregos diretos e indiretos. Se o governo interino tivesse mantido a extinção do MinC teria cometido um verdadeiro crime de responsabilidade. Mas o MinC está de pé, e à frente dele um jovem de 33 anos que na posse mostrou independência política, desatrelando o Minc da política partidária e fundando um outro PCB – o Partido da Cultura Brasileira…

Há uma crítica, já antiga, de que o MinC está cheio “boquinhas”, de gente que pouco faz pela cultura, com um sistema que dá recursos a nomes já consagrados e deixa museus e bibliotecas abandonados. É isso mesmo?
Esse papo é fruto da desinformação. As produções culturais não são custeadas por verbas orçamentárias do MinC. Os projetos são apenas liberados para captar recursos via renúncia fiscal das empresas.

A Lei Rouanet é considerada insatisfatória, pelos critérios de seleção dos projetos autorizados a captar recursos.
Não posso falar muito, pois nossos projetos, da LC Barreto e Filmes Equador, são direcionados à Lei do Audiovisual. Mas uma observação que não posso deixar de fazer: a atual Lei Rouanet é uma cópia piorada da Lei Sarney, modificada no governo Collor.

A Ancine já deu apoio a muitos projetos seus e de sua família, e foi igualmente criticada pelo sr. por seu modo de atuar. O que acha da agência hoje?
Fiz parte do grupo que no governo FHC elaborou um plano para o cinema e o audiovisual e a Ancine é resultante disso. Inicialmente deveria ser uma agência de regulação e fiscalização do setor, mas com o tempo acrescentou-se o fomento. Este se tornou sua atividade principal, ficando a regulação do mercado em segundo plano. O balanço é positivo. Acho que deve-se priorizar a regulação e fiscalização do mercado. O fator mais negativo tem sido o excesso de burocracia, mas isso é um problema do Estado brasileiro e a Ancine é um órgão de Estado.

O sr. tinha um plano, há tempos, de fazer uma série sobre a vida de José Dirceu. A ideia ainda está de pé?
Esse projeto, O Homem Invisível, foi abandonado em 2007 por sugestão do próprio Dirceu: ele gostou mas entendeu que poderia parecer cabotinismo. Substituímos a ideia por um documentário sobre a luta estudantil em São Paulo, em que ele teve atuação como líder estudantil. Esse projeto continua em nosso esquema de produção, para 2017/18, no formato de cinco episódios para canais por assinatura.

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