Governo de SP arrecada R$ 60 milhões para fábrica do Butantan que produzirá vacina contra covid-19

Governo de SP arrecada R$ 60 milhões para fábrica do Butantan que produzirá vacina contra covid-19

Sonia Racy

27 de julho de 2020 | 00h40

DIMAS COVAS – FOTO: INSTITUTO BUTANTAN

Dimas Covas tem trabalhado até 14h por dia por conta da covid-19 e conta que seu ritmo só vai aumentar na busca pela “receita” da vacina a ser formulada pela Butantan-Sinovac. “Estamos muito próximos de conseguir”, informa o diretor do Instituto Butantan. De onde vem o otimismo? “Da nossa tecnologia avançada”, diz Covas. Uma das fábricas do Butantan, em SP, está sendo adaptada para a última etapa, a produção da vacina anticovid. A previsão é fabricar 60 milhões de doses já no início de 2021. “É o suficiente para vacinar todos os brasileiros que necessitarem”. Os termos do acordo sobre direitos da vacina, entre o instituto e a farmacêutica chinesa, são sigilosos.

Para bancar obras de adaptação da fábrica do Butantan específica para tal vacina em SP – ao custo total de R$120 milhões – o Estado abriu um canal online para doações. E pelo que se apurou, já conseguiram levantar… metade desse montante. Indagado, Covas não confirma o valor já arrecadado.

O hematologista acredita que “resultados satisfatórios” dos testes em curso com a CoronaVac – a vacina da chinesa Sinovac Biotech – aparecerão em outubro. “No começo de 2021, teremos condições de iniciar a aplicação dessa vacina em massa”, prevê o médico, nesta entrevista à repórter Cecília Ramos.

Otimismo à parte, Covas – integrante do Centro de Contingência da Covid-19 do Estado – alerta que seguiremos muito tempo ainda de quarentena, descartando “volta ao normal” este ano. “Vamos usar máscara até 2021”. Segundo ele, “ainda vai morrer muita gente” e o País deveria se unir, em lugar de politizar o vírus. “Isso causa uma divisão deletéria”. Também frisa que, até agora, o Butantan não foi procurado pelo governo federal para tratar da ‘corrida’ do Instituto pela vacina. Aqui vão os principais trechos da conversa.

O senhor está bem animado quanto a vacina no Brasil. De onde vem seu otimismo?
Das 20 vacinas em desenvolvimento no mundo, só três estão na fase de testagem da população: Butantan-Sinovac, Oxford-AstraZeneca, e Moderna, dos EUA. A nossa é baseada em tecnologia avançada, tradicional e usada há muitos anos no mundo. É a mesma tecnologia usada pela Sinovac, nossa parceira antiga.

A testagem no Brasil com a CoronaVac começou na última terça-feira (21) em SP, com parte dos 9 mil voluntários (serão seis estados). Quando veremos resultados?
Na minha expectativa, acredito que devem estar todos vacinados até o final de setembro. A partir de outubro, poderão apresentar resultados satisfatórios da vacinação. As análises estatísticas são acompanhadas por uma instituição internacional. E quando for demonstrado que a vacina protegeu as pessoas, seguimos para fase de registro na Anvisa. Aprovada, poderá ser usada pela população.

Há previsão de vacinação em massa no Brasil, quando?
No começo do ano que vem já teremos condições de usar essa vacina em massa. Estão previstas 60 milhões de doses. Acho que o Brasil – e a China, claro – pode ser um dos primeiros países do mundo a ter a vacina para a população, com a Butantan-Sinovac.

Nenhum estado do Norte ou Nordeste foi incluído para receber a CoronaVac, por quê?
É que já passaram por grande onda epidêmica. Muitos estados já estão com a onda em decréscimo, e no Sul e Sudeste o movimento está em ascensão e isso facilita o teste de eficácia. É onde onda está mais quente.

O Butantan é um dos grandes produtores mundiais de vacina. Essa capacidade é um diferencial para os brasileiros?
Não há duvida. A vacina contra covid-19 mais avançada é a nossa. E agora o Instituto Butantan está investindo na adaptação de uma de suas fábricas para a produção em SP. É um prédio de 11 mil metros quadrados que está em obras e vai custar R$ 120 milhões. O que quero dizer é o seguinte: nós temos todas as panelas, fogão pronto, agora só precisamos da receita. Os componentes já temos.

Quais serão os critérios, quando chegar a hora da vacinação?
Essa epidemia vai até novembro, dezembro deste ano. Até lá, teremos uma grande porcentagem da população infectada, que desenvolve imunidade natural. Sobra um porcentual de não infectados e aí estão as prioridades: idosos, pessoas com comorbidades, profissionais de saúde e de segurança pública. São os mesmos critérios da vacinação da gripe.

A vacina vai garantir imunização definitiva?
Essa é uma pergunta que ninguém sabe responder. O estudo clínico em andamento é que poderá vir a responder a essa sua pergunta.

O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, falou em aquisição de quarta opção da vacina, incluindo a da Pfizer, pelo governo brasileiro, mas não cita a do Butantan. O que tem de concreto nisso?
O governo federal não entrou em contato com o Butantan em nenhum momento. Não fomos procurados pelo Ministério da Saúde. E pelo Diário Oficial, não conheço nenhum documento assinado pelo ministério materializando essas intenções.

Segundo o TCU, o Ministério da Saúde gastou menos de 1/3 da verba reservada ao combate à covid-19. O senhor, que acompanhou outras epidemias, como compara este momento em que assistimos ao uso político do vírus com outros momentos da nossa história?
Me surpreende. Tivemos grandes ondas epidêmicas da dengue e em nenhum momento houve esta divisão que ocorre hoje. Ela é deletéria e leva à alta mortalidade. Isso (a politização) gera instabilidade, desinformação. Esses memes… (de bolsonaristas ora taxando de ‘vírus chinês’ ora de ‘vacina chinesa’)… Nós estamos perdendo mais de 1 mil pessoas por dia. Estamos falando de vidas.

Poderia ter havido financiamento maior na pandemia pelo governo federal?
Poderia ter uma prioridade muito maior no orçamento. Os estados deveriam ter mais apoio. Sobretudo os municípios do interior, onde o SUS é mais fraco. É lá que a batalha mais virulenta está acontecendo.

O Brasil tem cloroquina sobrando em estoque, produzida pelo Exército por decisão de Bolsonaro. Como avalia?
Nós temos falta de material pra entubar os pacientes no País. Deveríamos estar discutindo questões maiores. Não dá pra brincar com soluções mágicas que não existem.

Pelas projeções, SP deve continuar com índice alto de mortalidade até o ano que vem. A que se deve e o que pode ser feito?
Nosso objetivo permanente no Plano São Paulo é diminuir a mortalidade dessa doença. Pra isso, precisamos diminuir a taxa de contágio. E só vamos diminuir se as pessoas se conscientizarem de que o vírus não pode circular. Ou seja, nós precisamos manter o isolamento social e obedecer às medidas, uso de máscara, etc.

Como equilibrar a pressão política e econômica?
Temos que conseguir, mas primeiramente as pessoas precisam entender que são elas que transmitem o vírus e que elas serão as vítimas. Portanto, defendo a quarentena. Não vencemos a pandemia ainda.

As pessoas estão errando na compreensão do plano de reabertura?
Exatamente. Tem que compatibilizar? Tem. Mas sabendo que o vírus não desapareceu, que está no nosso meio. Se a gente der uma bobeada, ele volta com força. A flexibilização de setores da economia é para que o País não sucumba à outra epidemia, a da miséria.

Chegamos ao quarto mês, como avalia este momento?
Essa medida de isolamento social (divulgada diariamente no Estado) não tem saído do patamar dos 40%. Muitas pessoas que não precisam circular, devem ficar em casa. Nós não vamos retornar ao normal antes do começo de 2021.

Como vê a discussão de liberdade individual, em meio a uma pandemia, com gente se recusando a usar máscara?
A minha liberdade acaba onde começa a liberdade do outro. O uso da máscara não é uma questão de liberdade individual, é uma medida de proteção social, de higiene, de saúde pública. Vamos usar máscara até 2021.

SP está reabrindo teatro, cinema… É hora ou dava pra esperar?
Olha, todas essas previsões estão dentro de regras muito bem definidas. O que não pode é fazer de forma aleatória. Existe regra e protocolo pra prever situação de menor risco. Se não levar em conta isso, aí vira o que a gente viu no Rio.

Hospitais em SP reduziram alas de covid-19, o de campanha do Pacaembu foi desmobilizado, que sinal isso passa?
Sinal de que o pior que poderia ter acontecido não aconteceu. Não tivemos aqui o que italianos e nova iorquinos tiveram, com gente morrendo na rua. Evitamos o pior, graças a Deus. Mas é o seguinte: não acabou ainda, temos que continuar nessa luta, porque senão o pior pode voltar. Até aqui, mostra que o Estado está tomando medidas efetivas e se a gente caprichar um pouco mais nessas medidas a epidemia começa a cair.

Onde poderia caprichar mais?
Se a gente relaxar mais nas medidas, a epidemia pode voltar, pode ter a segunda onda. Então é continuar fazendo tudo com critérios científicos (na reabertura). Analisar a cada dia, porque a situação muda muito rápido.

O senhor faz parte do grupo de risco, com 63 anos, e é da linha de frente. Teve covid-19?
Fiz mais de dez testes, deu tudo negativo. Uso máscara, faço distanciamento social, mesmo quando estou em público, em entrevistas, me protejo e protejo as pessoas.

Como está sua quarentena?
Trabalho 12h a 14h por dia, no Butantan e no Palácio dos Bandeirantes. Tô focado em acelerar pra que tenhamos essa vacina logo logo.

Diante de tudo o que o senhor já viu, a covid-19 é a coisa mais brutal que enfrentamos?
Sim. Essa é a maior crise que já vivemos nos dois últimos séculos. Crise social, econômica e da saúde. E só vamos superar se a gente der as mãos. Não adianta ficar dividido pra enfrentar essa epidemia que ainda vai tirar muitas vidas até o começo do ano que vem.

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