“Gosto de fazer e de aprender coisas”

“Gosto de fazer e de aprender coisas”

Redação

29 de setembro de 2008 | 08h11

Um dos muitos herdeiros do Grupo Votorantim, Ricardo Ermírio de Moraes faz movimento-solo no setor de bebidas


Paulo Giandalia/AE

Descendente de industrial não significa necessariamente outro produto industrial. Mas, no caso de Ricardo Ermírio de Moraes, o empreendedorismo está no sangue. Depois de anos de experiência no Grupo Votorantim, ele passou pela Citrosuco, maior exportadora de sucos do Brasil, e pela própria Citrovita, criada pelos Ermírio de Moraes.

Grupo Votorantim profissionalizado, o engenheiro não se contentou em apenas acompanhar os negócios da família. E partiu para montar negócio inédito: caipirinha de frutas. A One nasceu do zero, com base na origem da matéria-prima. Primeiro, as frutas; depois, o álcool. A pesquisa encomendada revelou uma curiosidade, que acabou resultando na troca da cachaça comum pela vodca importada e pelo desenvolvimento de uma cachaça tridestilada. Descobriram que a caipirinha é bebida feminina, mas a mulher não gosta de estar com gosto de cachaça na boca.
Aqui, trechos de sua entrevista.

Com a profissionalização do Grupo Votorantim, muitos acionistas partiram para vôo-solo. O que você levou na bagagem? Sou da geração que teve o privilégio de conviver intimamente com a segunda geração da família e de ter participado da fase de desenvolvimento do grupo que o levou à plenitude atual. E esse convívio foi muito rico. Recordo, com saudades, de muita gente como o dr. José, excelente professor e parceiro, sempre torcendo por todos nós. Já o dr. Antônio é até hoje um grande instigador de processos. Sempre apaixonado pelo chão de fábrica. Além, claro, do meu pai: apoiador de todas as horas.

Quem nasce em um grupo industrial necessariamente tem de gostar de indústria? É do DNA? Não sei, mas eu, particularmente, sempre gostei da indústria, me sinto bem nesse ambiente desde moço. Foi uma coisa natural, meu pai nunca me pressionou.

Como você começou? Na minha época de Faap, comecei a me envolver em projetos do grupo na área de energia. Nosso consumo era muito alto, os preços tinham subido muito e tínhamos comprado uma caldeira. Achei que aquele negócio ia demandar muita lenha e tentei achar outra solução, envolvendo ácido sulfúrico e uma nova fábrica para produzir esse ácido. Eu estava no 3º ano de engenharia e fazia estágio em uma das nossa fábricas. Apresentei o projeto, briguei e consegui.

Vocês todos trabalharam muito tempo no grupo, como foi? Todos que trabalham na Votorantim participam de reunião mensal em que se dá satisfação sobre cada área, conferindo se está de acordo com o direcionamento do grupo como um todo. A segunda geração sempre foi pragmática: nos mandaram buscar uma forma de nos relacionarmos. Não diziam que a coisa tinha que ser feita assim ou assado. Pediam soluções. E, acredito que tivemos sorte e competência para organizar isso.

Como foi a transição para a profissionalização? Já vínhamos de um processo racional, nos preparando para migrar, deixando uma estrutura que funcionasse. Não adianta fazer uma profissionalização ampla se você não está preparado para isso. Tem que formar, treinar gente. A família sempre teve um envolvimento muito próximo com os negócios. O conhecimento que adquirimos com os anos e a rapidez na tomada de decisões era nosso diferencial. E não queríamos perdê-lo. O modelo adotado foi conseqüência disso. Há sempre um representante da família ligado a cada área de negócios e um conselho executivo em que existe uma dinâmica com os executivos.

Mas vocês não contrataram a McKinsey para tocar o processo? Houve um trabalho de reestruturação e a consultoria foi importante. Mas sabíamos muito bem o que queríamos. O exercício de convívio ao longo de tantos anos nos deu a visão e o conhecimento exato das necessidades, à luz daquela realidade.

Você poderia limitar-se a acompanhar a Votorantim. Por que inventou a caipirinha One? Gosto de fazer e de aprender coisas. Mas sei que, para disputar uma posição, para não ser engolido pela concorrência, é preciso ter um diferencial muito forte. A idéia da One surgiu a partir de um cliente nosso na área de suco, que não tinha encontrado um produto com essas características no mercado. Conhecendo um pouco do nosso trabalho, ele me procurou. Pensei no assunto, comecei a pesquisar e realmente não tinha nada igual, nem aqui, nem lá fora. Havia um potencial para começar a trabalhar.

Origem empresarial, commodities, por que esse segmento premium, Classe AA? Foi mesmo a oportunidade. Meu principal investimento hoje são as Pequenas Centrais Hidrelétricas. Já tinha trabalhado com suco de laranja, que começou como um grande desafio e hoje é um negócio de sucesso. Liderei, na Citrosuco, a criação do suco fresco no Brasil, desenvolvendo o primeiro sistema de exportação de suco de laranja fresco a granel.

Como você se dimensionou? Meu custo fixo não podia ser alto porque, para ter segurança de que vou sobreviver e crescer, tinha de trabalhar com pequena escala. Ao mesmo tempo, tinha de poder crescer rápido se o mercado assim demandasse. A primeira coisa que fiz foi qualificar bem meus fornecedores para manter a qualidade na hora de cumprir contratos.

Você já fez a marca pensando no mercado externo? O projeto nasceu para exportação, mas claro que pensamos no mercado brasileiro. Fizemos pesquisas tanto aqui como na Alemanha.

Na Alemanha, você fala em caipirinha e eles sabem o que é? Lá fora se fala muito “caipi”, mais fácil de dizer.

É possível, hoje, ter uma boa idéia que dê certo sem um business plan? Uma idéia em si não vale nada. Uma boa idéia é só uma boa idéia. Entre ter uma idéia e um negócio, existem quilômetros. Estamos há três anos levantando dados, marketing, processos, pesquisas de mercado, viagens.

Sua intenção é crescer e crescer e depois vender? O sonho de todo empresário é ter essa geração de valor. Mas tenho um desafio grande. Hoje, menos de 3% das iniciativas dão certo. Tenho de me esforçar muito para chegar lá.

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