Glória Pires e Betty Prado investem em negócio sustentável

Glória Pires e Betty Prado investem em negócio sustentável

Sonia Racy

05 de agosto de 2019 | 00h50

 

BETTY PRADO E GLORIA PIRES EM SUA LOJA. FOTO IARA MORSELLI/ESTADÃO

Atriz-empresária e a amiga Betty Prado criam
loja onde só entram ‘marcas sustentáveis’
e que revelam até a história do produto à venda

Multitarefas, Gloria Pires parece ter fôlego infinito. Atua, produz filmes, mora entre Rio e Paris, administra quatro filhos e agora abriu loja sustentável na rua Oscar Freire, em São Paulo. Ao lado de Betty Prado (à direita, na foto), uma de suas sócias, contou a Sonia Racy e Sofia Patsch o porquê dessa nova aventura, a Bemglô. “Combina com o que vivi com meus pais, hippies, desde a infância”, compara a atriz, que tomou essa decisão depois de cinco anos administrando o e-commerce de mesmo nome. Simultaneamente, ante seu retorno à televisão e filme em andamento – remake da novela Éramos Seis, da Globo e protagonista do longa A Suspeita –, Gloria reflete: “Comecei com quatro anos de idade e várias vezes pensei em parar. Mas nunca parei. Não deve ser a hora”, conclui. Aqui vão os melhores momentos da longa conversa na loja.

Como resolveu se tornar empresária do varejo?
Eu não pretendia virar empresária. Isso nunca passou pela minha cabeça, mas a coisa foi acontecendo. E olho sempre para minha profissão e a questão da aposentadoria sempre me cutuca. Me pergunto: Tá na hora? Ainda tenho prazer de fazer o que faço? Ainda sinto borboletas? Tenho o fogo artístico? Acordo com vontade de decorar texto? Cumprir regras? Sou muito cumpridora, tenho certa facilidade em seguir as regras, realizar. E toco a vida em frente.

Determinada e focada?
Boa de serviço, eu diria (risos). Do mesmo jeito que nunca pensei em virar empresária, nunca consegui levar a sério essa coisa de me aposentar. Estou fazendo 55 anos de carreira, sou também produtora, com o Orlando (Morais, seu marido). Nosso primeiro trabalho foi o documentário OrlaMundo, vencedor de prêmio do cinema independente em Los Angeles. Trata-se de trabalho sobre a música. Ele começou a fazer quando nos mudamos para Paris. É o segundo trabalho que ele está fazendo com a nossa produtora, a Audaz. Esse a gente não finalizou. Mas falta só um dia de filmagem!

Você atua nele?
Atuo também, além de participar da produção. Contamos a história de uma policial que está se aposentando porque sofre de Alzheimer. Abordamos essas questões a partir do universo feminino.

Há quem diga que para ser boa atriz não pode ter uma personalidade muito forte. Concorda?
Quem falou isso? Acho que ser atriz não tem a ver com a personalidade e sim com a capacidade de empatia, de se colocar no lugar do outro. Para isso, é necessário ter disponibilidade. Abraçar com generosidade o papel para receber uma outra vida durante alguns meses. Você vira outra pessoa.

Isso é generosidade ou abrir espaço?
Você vivencia isso, né? Pegar o desafio com responsabilidade, com educação. No caso do Alzheimer, lembrar que há pessoas da vida real naquela situação. Porque quando você julga, na hora em que você faz um personagem, se tem algum tipo de julgamento quanto àquelas ações e reações, você já coloca um filtro nisso, incluindo seu julgamento. É uma responsabilidade.

Acha que a habilidade de atuar é hereditária?
O que me fez entrar nisso foi a relação do meu pai com o próprio trabalho dele de ator. Uma batalha árdua. Tive que vencer minha timidez. Olha que loucura, conseguir lidar – porque, na verdade, você não vence a timidez, você consegue lidar com ela. A nossa casa hoje, o lar que eu formei, é um lar de artistas. Meu marido é um músico que é poeta, é compositor, tem ouvido absoluto e toca o dia todo. As crianças cresceram nesse universo, nossa casa sempre foi um lugar superaberto, onde cada um sempre pôde se manifestar.

Ninguém quis ser engenheiro?
O Bento queria ser empresário mas ele é muito artista. Achava que a Ana seria médica, ela canta. A relação então não é o DNA e sim o ambiente.

Você já tinha um e-commerce, por que resolveu montar loja física? Quem são seus parceiros?
Nós duas (Gloria e Betty), Orlando Morais e Nelson Carneiro. Nos conhecemos há uma vida e já tínhamos feito outros trabalhos juntos. O Orlando, além de artista, tem a cabeça de empresário violentíssima, a Betty fica na curadoria, que é um negócio que ela ama, ela adora esse garimpo, né? E o Nelson é parceiríssimo.

Vocês só trabalham com marcas nacionais?
Sim, tudo é 100% nacional mas com uma pegada up cycling, sustentável.

Que é a pegada atual da moda, né? Marcas responsáveis. Resuma um pouco do conceito que aplicaram na marca.
O Orlando tinha a ideia de fazer uma marca associada a mim, ao meu nome, à minha pessoa artística. Quando a gente chamou a Betty, ela trouxe todo esse know-how de internet, já estava mexendo com isso. O e-commerce foi uma coisa que acabou sendo lógica. Tenho uma maneira de viver que privilegia cada vez mais a vida sustentável, produtos naturais, comidas orgânicas. Sempre fui aquela que achava uma técnica mais natural para os problemas. Alguém dizia, por exemplo: “Ai, tô com dor na coluna”, e eu já dava o telefone de um acupunturista.

Sempre foi assim? Ou teve uma hora na vida em que resolveu prestar atenção a isso?
Gloria: Meus pais foram crianças e adolescentes do pós-guerra, eram hippies. Sempre me passaram a ideia de que a gente é o que a gente come. Nossa alimentação era macrobiótica. Não como carne desde os 12 anos. Todo dia meu pai fazia ioga, ele acordava às 6 horas da manhã, fazia as posturas dele. Sempre fui meio esotérica, sabe, no sentido de acreditar que nós somos energia.
Betty: Eu também sempre tive essa pegada. Aí, há cinco anos, a gente teve a ideia de fazer um e-commerce com conteúdo, algo muito inovador na época. Todo mundo falou que estávamos loucos. E aí a gente teve que criar uma plataforma que pudesse juntar esse conteúdo todo de vida, de experiências e tal. Compartilhar aquilo em que acreditamos com produtos que tivessem essa mesma linha de pensamento, fossem a tradução de tudo isso.

Sabem quem é que compra os produtos de vocês?
Betty: Quando começamos, há cinco anos, falávamos sobre sustentabilidade, procedência, up cycling e tal, mas as pessoas não entendiam muito.

Davam muitas explicações?
Gloria: Começamos com story telling. Um e-commerce que contava histórias. Desde contar quem faz cada produto, o material utilizado, se é de descarte, de onde vem. Então, por exemplo: uma bolsa que era um malote bancário, que se transformou em bolsa através do trabalho das artesãs do grupo da favela da Maré.

Como fazem para localizar esses produtos?
Gloria: Pessoas foram surgindo, alguém falava da gente, líamos uma coisinha num canto de página, navegávamos na internet. Hoje, as pessoas chegam, mas no início a gente tinha uma dificuldade imensa.
Betty: Temos um canal que chama produtosdobem@benglo.com para quem se interessar em apresentar sua marca e produto. Começamos com a Rede Asta, que é a nossa grande parceira. Ela emprega mais de 2 mil artesãs, resgatou técnicas ancestrais de norte, sul, leste e oeste do Brasil.
Gloria: Temos também a Artesol (ONG criada por dona Ruth Cardoso). O Banco do Brasil, em lugar de descartar os malotes, doa para a instituição, que os transforma. Eles mapeiam artesãs do Brasil inteiro.
Betty: A Artis, que por meio de técnicas ancestrais conhecidas dos seringueiros e dos índios, desenvolveu uma fórmula que transforma a borracha em sandálias estilo havaianas sem poluir o ambiente. Tem até bagaço do açaí junto com a borracha.

Como isso funciona economicamente?
Gloria: É uma dúvida que eu tenho também. A gente sabe que esses produtos, lá na fonte, são bem baratos. Fui pro Maranhão e comprei muita coisa de palha que em São Paulo é caríssima. Tem Estado com artesanato fortíssimo, mas nem sempre essas pessoas recebem um valor justo pelo trabalho. A proposta da Bemglô é dar visibilidade a esses grupos ou estruturas.
Betty: É o comércio justo.
Gloria: E também a economia circular e criativa.

Fizeram algum projeto financeiro antes?
Betty: Sim, totalmente furado, porque a gente não sabia. Mas temos consciência de que para fazer sentido o projeto precisa ser sustentável, essa é a alma do negócio.

Vocês compram produtos ou é consignação?
Gloria: Começamos no e-commerce comprando, depois partimos pro consignado e hoje evoluímos para o market place. Para que o modelo de negócio seja justo é importante que não haja bitributação. Somos um espaço físico onde as marcas fazem parte do sistema. Usam o espaço, nós vendemos e quem emite nota são elas. Cobramos uma porcentagem.

Pretendem abrir outras lojas, ou franquias?
Gloria: Não sei se será possível fazer franquia, mas a gente pensa em aumentar essa rede. Gostamos de chamar isso de “nossa rede do bem”.

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