‘Freamos a locomotiva sem derrubar vagão’, conta o empresário Alexandre Birman

‘Freamos a locomotiva sem derrubar vagão’, conta o empresário Alexandre Birman

Sonia Racy

12 de abril de 2021 | 00h50

Alexandre Birman. Foto: Luciana Prezia/Estadão

A Arezzo escolheu a cidade Campo Bom, no Rio Grande do Sul, onde fica a sua sede, para fechar uma parceria com a prefeitura. “Nenhum dos mais de 70 mil habitantes do município passou ou passará fome”, assegura Alexandre Birman. O CEO do grupo montou, desde o início da pandemia, distribuição de cestas básicas para todos moradores do município.

Tomar essa atitude, pelo jeito, foi mais fácil do que antever o fim da infecção por covid-19 e a retomada da economia como um todo. A incerteza fez com que a Arezzo decidisse trabalhar, este ano, com… dois orçamentos distintos, um montado para o primeiro semestre, e outro, para o segundo. “É um dia depois do outro”, aponta, explicando que a empresa foi forçada a acelerar a transformação digital e treinar todas suas vendedoras para o online. “Deu muito certo até agora. Entretanto, temos de nos manter focados no negócio e ajudar no que for preciso, a começar pelas pessoas que nos cercam.”

Adepto de quatro religiões (umbanda, judaísmo, espiritismo e catolicismo), ele afirma que são momentos como este que estamos vivendo que definem o verdadeiro conceito de fé. “É nesse sincretismo, nesse blend que eu e a minha família nos apoiamos para vencer os desafios.” A seguir, os melhores momentos da entrevista.

Como a Arezzo reagiu a este primeiro ano de pandemia?

Apesar da nossa envergadura, da dimensão que temos, nossa empresa é familiar. É o que a gente chama, no jargão popular, de empresa de dono. E esse sentimento não é só meu, mas de toda a nossa equipe. Conseguimos superar a crise dos últimos 12 meses graças à nossa cultura, que é a base de tudo. Em abril de 2020, eu falei que a Arezzo não se preparou antes para enfrentar a crise, mas que havia sido forjada em uma crise contínua. Afinal, somos uma empresa que atua no segmento de moda e vamos completar 50 anos em 2022. Ou seja, fomos criados numa crise e temos cicatrizes adquiridas ao longo dessas cinco décadas que nos prepararam para qualquer adversidade.

Questão de filosofia familiar?

Exato. Meu pai sempre teve uma filosofia bastante humilde. Ele falava: “Olha, a gente tem de trabalhar para não quebrar”. A premissa dele foi sempre essa, porque acreditava que, se não quebrou, é porque deu certo. Foi assim que levamos esses 50 anos, sempre de forma muito conservadora. A Arezzo é uma empresa cujo maior valor são as marcas, os produtos. Criamos um centro de desenvolvimento, um dos maiores do ramo de calçados em todo o mundo, no Vale dos Sinos (RS), na cidade de Campo Bom. E temos dois grandes elos nessa cadeia produtiva: nossos fornecedores e nossos franqueados. A missão da Arezzo é preservar a saúde financeira dessas duas pontas. Por isso sempre falamos que as fábricas têm de produzir todo dia, e as lojas têm de vender todo dia.

E, de repente, tudo parou.

No dia 20 de março de 2020, as fábricas pararam de produzir e as lojas pararam de vender. E muita gente parou de sair de casa. Costumo dizer que estávamos dirigindo uma locomotiva com 800 vagões (as 750 lojas mais as 50 fábricas quase exclusivas) a 300 km por hora e que, de uma hora para a outra, tivemos de freá-la. E qual o desafio? Fazer isso sem derrubar nenhum vagão, e muito menos a locomotiva. Freamos a locomotiva sem derrubar vagão.

Qual foi a primeira preocupação da Arezzo quando a crise se instalou?

Cuidar da nossa equipe, cuidar da saúde dos nossos colaboradores e preservar a cadeia de valor, acelerando as vendas digitais e redesenhando nosso ciclo de lançamento de coleções. Trabalhamos com moda, criamos produtos discricionários. Não é como arroz ou feijão. As pessoas não precisam de um sapato, de uma bolsa nova. Redesenhamos o perfil dos nossos produtos pra aumentar o desejo de compras, principalmente na linha de home wear.

Para ficar em casa?

Exatamente. No começo de maio de 2020, a nova linha já estava nas lojas. O gráfico de vendas da empresa, de maio a dezembro, é um gráfico bem empinado, graças a Deus. Dezembro do ano passado vendeu o mesmo que dezembro de 2019.

Como você está enxergando o futuro? Dá para fazer planejamento?

Dá para planejar o futuro das próximas 24 horas. É o famoso “um dia depois do outro”, cada dia é uma batalha. Toda empresa, todo mundo, tem de começar o ano com um orçamento. E o orçamento é uma bússola, você tem de ser fiel a ele. Quando começamos a construir o orçamento de 2021 (em novembro do ano passado), já havíamos comprado a Reserva e estávamos em um patamar de vendas muito satisfatório. Então, nos perguntamos: “E se houver uma segunda onda da covid?”. Dividimos o orçamento em dois, coisa que a gente nunca havia feito antes. No dia 7 de março deste ano, 60% das nossas lojas estavam fechadas por causa da segunda onda do vírus. Colocamos o plano B em ação, centrado em integração de canais e vendas digitais. Os dados do contágio são muito tristes, e nossa perspectiva é que a maioria das lojas permanecerá fechada até, pelo menos, o final de abril.

E depois?

Tudo vai depender se realmente voltaremos a uma certa normalidade no começo de maio. Tem o Dia das Mães, que é um segundo Natal para o varejo, a gente fala que é o “Natal do primeiro semestre”. Será o grande parâmetro para o segundo trimestre. Falando como cidadão, acho que essa onda de lockdown está correta, os governantes estão certos. É uma pena termos chegado até aqui, essa situação podia ter sido evitada, mas, neste momento, é algo que precisa ser feito. Mas se as lojas permanecerem fechadas também em maio, vamos ter de colocar em prática o nosso plano C, que não posso comentar em detalhes. E iremos até o plano Z, se for preciso.

Acha que as empresas menos flexíveis vão quebrar?

A palavra-chave é adaptação, se adaptar ao cenário. É preciso ser muito flexível, rápido, ágil. É para quem gosta de montanha-russa, e das boas, daquelas que dão looping, vão de ré, caem pros lados, 2021 vai ser emocionante.

O que mudou na sua vida, na sua rotina como CEO, empresário e triatleta?

Graças ao bom Deus, ninguém da minha família pegou covid. A gente se cuidou muito em casa. Algumas coisas mudaram como, por exemplo, o meu treino, em média de 15 horas por semana. Agora ele está indoor, com auxílio de bicicleta estática e diversos aplicativos que simulam a realidade. Minhas filhas passam e falam “Pai, que graça tem ficar duas horas pedalando sem sair do lugar?”. Então, o treinamento indoor é uma grande realidade, a gente teve de se adaptar. Foi um ano de muitos desafios para todos nós. Além de todo o drama da covid, perdi um filho recém-nascido, vítima da Síndrome da Morte Súbita Infantil. São acontecimentos que fazem a gente ficar ainda mais forte e ter cada vez mais fé.

Você é religioso?

Religião, para mim, é a crença. Você tem de encontrar algo que não está necessariamente ali diante de seus olhos, que a Ciência não explica e acreditar que há uma força maior por trás. Sou politeísta, nasci em uma família espírita, que também tem uma relação muito grande com a umbanda. Meu avô, por parte paterna, era judeu, então, tenho uma grande afinidade com o judaísmo, mas também gosto da Igreja Católica. É um blend, um sincretismo que me faz muito bem. Recebo ajuda de rabino e de mãe de santo. Vou a centro espírita e também gosto de assistir missa e fazer orações. Acho que a casa de Deus não é só a igreja, mas todos os lugares em que a gente está presente. Aqui em casa a gente junta tudo isso e acredita.

E suas filhas, você cria em qual religião?

No espiritismo.

O que diria para as pessoas neste momento tão delicado da pandemia?

Primeiro, cuidem-se. E cuidem de quem está ao redor com muito zelo. Ajudar as pessoas neste momento é fundamental. Claro que não dá para ajudar o mundo inteiro, mas é sempre possível fazer sua parte.

Dê um exemplo.

Na cidade de Campo Bom, onde fica a nossa sede, firmei um compromisso com o prefeito: nenhum dos 70 mil habitantes vai passar fome. A gente tem um programa de cestas básicas desde o início da pandemia e podemos dar conta disso. É questão de consciência, de olhar para quem está próximo. Em segundo lugar, ter foco, mas um foco absurdo, no negócio.

Empresário tem que se preocupar mais com a política, participar?

O empresariado tem, sim, de cuidar das questões políticas, tem de apoiar, mas não pode esquecer que também tem de cuidar dos seus funcionários, dos empregos que gera. Temos de lutar para manter um índice de empregabilidade razoável no País e atravessar os próximos 18 meses, que vão ser muito difíceis.

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