‘Foram nove meses de pesadelo’, diz mulher de Carlos Ghosn

‘Foram nove meses de pesadelo’, diz mulher de Carlos Ghosn

Sonia Racy

14 de janeiro de 2020 | 00h45

CAROLE GHOSN. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

 

 

Aliviada, dizendo-se “exultante” ao fim da cinematográfica e bem-sucedida fuga do marido, Carole Ghosn faz para a coluna, de Beirute, um balanço pessoal: o executivo Carlos Ghosn “não fugiu da justiça, fugiu da injustiça japonesa”. E daqui para a frente, acrescentou nesta entrevista – a primeira que deu, por telefone, após o episódio –, “muita gente que for convidada para empregos no Japão vai pensar duas vezes antes de aceitar o convite, pois o que aconteceu com o Carlos poderá acontecer para qualquer um”.

A fuga do brasileiro e ex-presidente da Renault-Nissan, no dia 31, deixou também conotações políticas. Pois há dois nomes circulando no Líbano que poderiam ser candidatos a liderar a saída do profundo desastre econômico que se instalou naquele país: o do próprio Carlos Ghosn e o do neto do ex-presidente Emile Edde, Carlos Edde. Segundo Carole, seu marido se dispõe a ajudar o país, mas não entrará na política.

Carlos Edde diz o mesmo. “Posso ajudar de fora”, contou ele à coluna, frisando que abandonou em definitivo a liderança da Frente Nacional Católica e que hoje só se dedica aos próprios afazeres. Ao falar da injustiça contra Carlos, Carole acrescenta: “Infelizmente o Japão tem esse lado negro, assim como a União Soviética tinha e a Coreia do Norte ainda tem”. Para ela, pessoalmente, a experiência pode ser definida como “nove meses de total pesadelo”. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Acha que Carlos vai manter os planos de entrar para a política?
Não, acho que Carlos não vai se envolver com política. Ele está disposto a dar conselhos e consultorias, usando sua experiência, para quem quiser no campo da economia.

Carlos já declarou que o governo do Brasil não fez nada para ajudá-lo.
Sim, de fato não fizeram nada. É uma pena.

Como se sente fora do Japão?
Exultante. É um milagre, achei que não seria possível. Estava em Nova York, viajei de volta a Tóquio para passar o Natal e só consegui falar com o Carlos no dia 24 de dezembro, durante uma hora – e ainda assim na presença de advogado. Foi meu presente de Natal e foi também a última vez que falei com ele. Por noves meses, só conversamos duas vezes. A Justiça japonesa sequer me deixou passar o dia de Natal com ele na nossa casa.

Qual a alegação do Judiciário do Japão para impedi-la de vê-lo?
Disseram que ele poderia me induzir a manipular provas, influenciar as testemunhas. Mas os filhos dele podiam vê-lo, as irmãs, os primos, e na opinião dos japoneses eu era a única que poderia manipular as provas se estivesse perto dele? Por que isso? Seria eu o único parente ou pessoa no mundo mal-intencionada? Absurdo.

Qual a explicação que deram ao seu advogado?
Não deram. Me disseram que até para os parâmetros japoneses essa barreira era completamente inconstitucional.

Como você saiu do Japão?
Testemunhei por quatro horas, no dia 11 de abril de 2019. A Justiça disse que eu poderia ir embora, que não havia nada contra a minha pessoa. Carlos estava detido e os advogados me pediram para testemunhar – e que, se eu não fizesse isso, o Carlos continuaria na prisão. Fui com esperança e a certeza que meu marido é inocente. Mesmo assim, não o soltaram.

Onde você foi viver quando saiu do Japão?
Fui viver em Nova York. Fui a Beirute no verão, depois voltei para NY e retornei a Beirute para passar o Natal com meus filhos.

Você tem casa em Nova York e no Líbano?
Sim, mas nós estamos no Líbano e vamos ficar aqui.

Como estão seus filhos?
Nós dois não temos filhos. Eu tenho filhos do meu primeiro casamento e ele também. Estamos todos aliviados, vivemos nove meses de total pesadelo. Agora estamos voltando à vida de novo.

Estão todos em Beirute?
Só Carlos e eu. As crianças estão nos Estados Unidos trabalhando ou indo à escola.

Vocês conseguem sair de casa, encontrar amigos, ver pessoas? Ou esbarram em jornalistas fora da porta?
A gente não sai muito. Tem jornalistas japoneses que ficam desde o começo até altas horas na porta…

Está usando segurança?
Sim, nós contratamos gente para nossa segurança.

Como você está planejando sua vida depois de tudo o que aconteceu? Como vê o futuro?
Estamos planejando ficar em Beirute. Tenho mandato de prisão emitido pelo Japão. Mas não há extradição entre Japão e Líbano.

O governo do Japão bloqueou contas bancárias de vocês lá?
Ainda não sabemos, mas ouvimos falar que a primeira coisa que vão fazer é isso, bloquear a conta dele. Eles são cruéis, ele está se sentindo muito humilhado.

Você sentiu animosidade no Japão?
Não das pessoas, mas quando os procuradores foram em casa prendê-lo nos trataram ambos de forma muito humilhante. O sistema deles é feito para quebrar pessoas. E deixar uma pessoa quebrada não é fazer justiça. Só queria dizer mais uma coisa. Quando as pessoas dizem que Carlos fugiu, ele não fugiu da justiça, ele fugiu da injustiça japonesa. Infelizmente o Japão tem esse lado negro, assim como a União Soviética tinha e a Coreia do Norte tem. Mas as pessoas não sabem nada a respeito. Agora, com a história do Carlos, as pessoas pensarão duas vezes antes de aceitar emprego no Japão, pois o que aconteceu com Carlos pode acontecer a qualquer um.

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