Foco na Síria

Sonia Racy

20 Abril 2011 | 23h00

Rafik Schami nasceu em Damasco, Síria, e vive na Alemanha desde 1971. O escritor, mais conhecido por seu romance O Obscuro do Amor, comentou por e-mail os últimos acontecimentos de seu país natal.

Qual é sua opinião sobre a chamada “Primavera Árabe”?

Acredito que entrará para a História. Nunca houve uma revolução vitoriosa pacífica contra ditadores altamente armados. Estes civis corajosos lutam contra forças aéreas, mercenários, matadores profissionais, e ditadores como Kadafi numa luta heroica. Para mim, é um milagre isso tudo.

E sua expectativa em relação ao destino da Síria?

A Síria é um problema difícil. Assad e seu clã têm serviços secretos que são competentes em guerras civis. São tão refinados que sequer tentam libertar as colinas de Golan (ocupadas por Israel desde 1967). Entretanto, querem libertar tanto a Palestina -com o Hamas, a pior facção- quanto o Líbano -com a ainda pior, Hezbollah. Trabalham de mãos dadas com a CIA e com os rebeldes do Iraque, fazem aliança com a Arábia Saudita contra o Bahrein, e acham positivo o massacre dos sauditas.

O que dificulta a situação lá?

Os revolucionários precisam não só vencer um regime extremamente articulado, como resolver um grande problema: o regime é dominado por uma minoria religiosa (10%), os alauítas. No entanto, tenho confiança que os sírios vão conseguir. A população síria sempre foi mais civilizada que seus governantes. Especialistas alertam para a subida de governos radicais islâmicos no lugar das ditaduras.

 Acredita nessa possibilidade?

Este argumento de que caso uma ditadura árabe desapareça os islâmicos virão foi muito propagada pelos próprios ditadores. Os islamistas não têm nenhuma chance real na Síria. São impopulares porque sempre estiveram ligados à história da Arábia Saudita. Não têm programa para os problemas modernos. Querem o Califado da Idade Média. Sem dinheiro, os islamistas são ridículos. Só o dinheiro dos sauditas e a tecnologia da CIA têm tornado Bin Laden o que ele é. Mas o perigo existe, claro. Principalmente se o Ocidente não apoiar o desenvolvimento democrático.

Por anos, parte do Ocidente apoiou ditaduras nos países árabes. O que pensa disso?

É uma vergonha para as democracias ocidentais que tiveram conhecimento de depósitos de bilhões de dinheiro roubado em seus bancos. Mais de US$ 150 bilhões para Kadafi, US$ 80 bilhões para Mubarak. US$ 70 bilhões para o clã Assad e cerca de US$ 10 bilhões do Saleh iemenita. Só a família saudita tem nos EUA mais de US$ 500 bilhões, e na Suíça, outros US$ 300 bilhões. Dá para imaginar isso? É dinheiro da máfia.

Como avalia a intervenção desses países na Líbia?

O Ocidente hesitou longamente. Já era quase tardio quando Kadafi decidiu que o centro da revolução, Benghazi, deveria vir abaixo. Seus soldados marcharam com as armas mais modernas que tinham contra a cidade. Ele queria dar o exemplo. Depois veio a ajuda, graças a Deus, e dessa vez de forma inteligente. Não interferem em terra. Ela protege os civis e deixa Kadafi para o seu povo. Isso é muito esperto. No seu livro O Obscuro do Amor o protagonista também se engaja contra um regime autoritário.

Há esperança para o futuro dos países árabes?

Sim. Esta área é uma civilização muito antiga. Foram 8 milhões de egípcios a se manifestar em quatro cidades, sem um único incidente. A esperança é justificada, porque o petróleo traz milhões, e faz desta área um paraíso que precisa de recursos humanos e tecnologia do exterior. A paz com Israel será possível porque os acordos com os ditadores não resultavam em paz, apenas em cessar-fogo. Israel também aprenderá um modo de resolver o conflito de um século com a Palestina. Preservando o direito absoluto dos Estados à existência pacífica.

MARILIA NEUSTEIN