Flor literária

Flor literária

Sonia Racy

17 de outubro de 2013 | 01h10

Foto: Paulo Giandalia/Estadão

Vanessa da Mata estreia como escritora e lança, dia 18 de novembro, seu primeiro romance: A Filha das Flores. A cantora já havia se arriscado na aventura de outros dois livros, mas acabou desistindo no meio do caminho, por não achar que estavam contando a história que ela gostaria. Agora, depois de um ano e meio de mergulho no seu universo literário, celebra o sonho que tinha desde menina: virar escritora.

Em conversa com a coluna, Vanessa conta as dores e as delícias desse processo.

No livro, o universo da natureza é muito presente. Assim como em seus cenários e músicas. É algo natural para você falar da natureza?

Apesar do sobrenome “da mata” ser tão óbvio e caricato – na verdade, é italiano –, acho muito justo. Sempre fui muito sensível à natureza, acho que eu a percebo. Sou filha de uma mulher cuja família é totalmente ligada às ervas medicinais, à força feminina. Sinceramente, só consigo ver o mundo por esse lado. Porque tudo na natureza tem um significado.

Como foi o processo?

Em alguns momentos, me senti escravizada. Não conseguia ter a história nas minhas mãos. Tive medo de não conseguir terminar. Também não sabia o que ia acontecer no meio do percurso. Estava inserida nessa história, quase sem respirar. E houve muitos momentos em que eu não queria estar dentro da história (risos). Vivi as raivas do mesmo modo como as personagens viveram. Também usei muito minhas vivências de interior. Descobri que escrever um romance não é só enxergar as coisas concretas, mas olhar nos olhos de alguém e tentar descobrir o que ele está dizendo, apesar de nunca saber.

As personagens do seu romance têm uma força criativa muito grande, de imaginação e vivência. Você trouxe alguns aspectos das suas composições?

Separei bem. Acho totalmente diferente. Ao mesmo tempo, creio que o talento de escrever uma letra é o mesmo de compor uma música. Conversei com o (angolano José Eduardo) Agualusa sobre isso, e ele me disse que muito escritor tem raiva de músico que escreve, mas é muito mais natural um letrista escrever um livro do que um escritor tentar fazer uma letra.

Seu livro é bem feminino. Acha que existe literatura feminina?

Quando se classifica como “de mulher” ou “de homem”, acho que já se coloca em uma gaveta separada e, às vezes, acaba se considerando algo menor. Um livro de poesia é tido como feminino porque a própria mulher é a poesia. É muito ligado ao feminino, mas Mia Couto, Guimarães Rosa e Manoel de Barros têm uma escrita muito poética.

No livro você escreveu que o “romance é uma mentira bonita feminina, adornada com um longo vestido esvoaçante”. Você se considera romântica?

Acho que todo mundo é romântico, de diferentes formas. Mesmo quem não quer admitir sabe que está procurando um amor, sempre. Mesmo que seja um amor extrapolado, falido. É a maneira de procurar. Dependemos de carinho. O livro tem uma visão muito pautada na vida da Giza (protagonista), personagem que preserva uma esperança dentro dela. Apesar de ter tido uma vida dolorida, uma história de abandono, de ter sido negligenciada a infância inteira…

Quais foram seus maiores medos enquanto escrevia?

Tinha medo de que não ficasse bom. Ao mesmo tempo, ser escritora era um sonho de criança. Se não ficasse bom, eu não publicaria. Sou bem ambiciosa nesse sentido, me preparei para isso. Tive uma angústia de querer escrever. Acho que é o que todo escritor sente. Foram várias crises (risos). /MARILIA NEUSTEIN

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