‘Fiz com delicadeza, sem exposição condenável’, diz Julián Fuks sobre autoficção

‘Fiz com delicadeza, sem exposição condenável’, diz Julián Fuks sobre autoficção

Sonia Racy

21 de junho de 2021 | 00h50

Foto: Julián Fuks. Foto: Denise Andrade/Estadão

Celebrado na autoficção, Julián Fuks toca em suas obras em temas delicados como adoção do irmão, a doença do pai, o exílio da família que se mudou da Argentina para o Brasil por causa da ditadura militar. A experiência pessoal, porém, é utilizada para discutir temas mais amplos e propor um pacto de ambiguidade com o leitor dos romances A Resistência e A Ocupação.

A princípio, houve receio da família quando soube que ele avançaria sobre a intimidade dos mais próximos nas obras. “Meus pais são psicanalistas, se viam expostos não só no campo pessoal, mas também profissionalmente. Aquilo poderia afetar. Mas eu confiava que o tipo de literatura que faria, a partir daqueles assuntos, ainda que fosse a mais sincera e franca que eu pudesse alcançar, guardaria a delicadeza necessária para que não se tornasse uma exposição condenável”.

Considera seus livros como pós-ficção, indo além da autobiografia, se aproximando da filosofia, da historiografia, do discurso político. Na prática, suas obras provocam reflexões sobre a elaboração familiar, a importância do passado para o indivíduo e para o País, o agir político em busca de incidência na realidade. Diz que o “desastre” da pandemia de covid-19 pode, a partir do trauma, fazer a sociedade refletir e transformar o que ela tem de terrível. Refere-se à quarentena como um ‘inxílio’. “É o exilar-se para dentro de casa, nos confins da sua própria morada. Toda narrativa sobre exílio traz dor, carrega saudade, desejo de estar de volta no espaço em que se dava uma rotina, uma existência mais cotidiana, mais banal”, afirma.

Fuks nasceu no Brasil, cresceu no Pacaembu e estudou no colégio Santa Cruz. Na graduação, fez a Escola de Comunicação e Artes da USP e foi jornalista. Na carreira literária, mantém essas influências e age em alguma medida como repórter de si mesmo.

Aos 40 anos, é pai de duas crianças e tem seis livros publicados. A fama maior veio em 2016, quando venceu o Jabuti e o prêmio literário José Saramago com A Resistência, mas tem publicações desde 2004. Recentemente, se tornou doutor em Teoria Literária pela USP e está lançando Romance: História de uma Ideia, pela Companhia das Letras – um ensaio sobre o gênero “mais influente e dominante dos últimos séculos”, diz. A seguir, os melhores trechos da entrevista com a repórter Paula Bonelli, feita por videoconferência.

Como é criar histórias numa situação de pandemia?

O desafio que tem se apresentado para todo ficcionista é a extravagância absoluta do real, de um momento para o outro a realidade se fez muito mais estranha do que de costume. Há uma incerteza, uma situação quase de suspensão do futuro, uma impossibilidade de imaginação dos próximos meses, que dirá dos próximos anos, que acaba tornando muito mais difícil o exercício calmo e paciente da produção de uma obra literária. Quando algo imenso como uma pandemia atravessa o nosso tempo, se faz tão presente, cada um que está escrevendo o seu livro começa a duvidar da pertinência daquilo que tem a dizer, se ainda guarda certa força diante de uma realidade tão aberrante.

Considera-se no centro da sua escrita?

Faz alguns anos que tenho aderido fortemente à lógica da autoficção, produzindo obras literárias muito fundadas na minha experiência pessoal, num processo que já passou por diversas etapas, tentando preservar aquilo que me parece potente e funcional na autoficção, uma voz que se faz mais crível, um pacto renovado com o leitor, ambíguo, em que ele o tempo todo se pergunta se aquilo é real ou ficcional, e isso altera uma relação que vinha envelhecida, talvez carente de certa intensidade, de alma. E sinto que isso eu tento preservar tentando escrever a partir desta minha voz de um sujeito que é um pouco, um alter ego meu que me acompanha já há alguns romances, mas num processo expansivo, tentando falar sobre algo a mais, para além de mim mesmo.

Em A Ocupação, abordou a doença do seu pai…

Sim, é um romance em três núcleos narrativos: um deles é a ocupação de moradores sem-teto no centro de São Paulo e uma luta feita por gente de todos os matizes, origens, de refugiados de vários lugares, uma luta por inclusão e presença no mundo, que se faz cada vez mais ruinoso e torturado. A outra é a ocupação do corpo do meu pai pela doença, e assim uma reflexão contínua sobre a iminência da morte e como isso se instaura como trauma e como elaboração familiar, e um corpo ocupado de uma mulher grávida, que também dá outra dimensão bem pessoal pra essa noção de ocupação.

E como isso repercute na sua família, quando há exposição da intimidade?

Eu não sou partidário da literatura como fim em si, disposta a estraçalhar com todo o resto em nome da preservação e da liberdade. Então há uma proposta de tratamento delicado, não se trata também da construção de uma narrativa autorizada. Em vários sentidos aquilo incomodava, podia ser desconfortável, a princípio seria mais desejável que eu não escrevesse a respeito, para os meus pais, para o meu irmão. Mas com conversa, delicadeza, acabou sendo algo que eles mesmos julgaram pertinente e proveitoso com o tempo. Meus pais são psicanalistas, se viam expostos não só no campo pessoal, e profissionalmente aquilo poderia afetar. Mas eu confiava que o tipo de literatura que eu faria, a partir daqueles assuntos, ainda que fosse a mais sincera e franca que eu pudesse alcançar, guardaria a delicadeza necessária para que não se tornasse uma exposição condenável.

E o seu novo livro?

O Romance: A História de uma Ideia é um ensaio que recupera essa trajetória do marco narrativo do gênero. A ascensão no século XVIII, um apogeu no século XIX, uma queda na primeira metade do século XX e uma ascensão posterior. O romance é sobretudo marcado por instabilidade, indeterminação, permeado por disputas, rupturas. É uma revisão histórica do papel do gênero literário mais influente, mais dominante dos últimos séculos, e pensar o que se reflete ali da nossa cultura.

Não há barreiras entre ficção e realidade na sua literatura.

Não se trata de imitar a realidade, de representar o mais fielmente possível mas de abarcar, colocar a mão na realidade e levar pra dentro do livro. É o que tem acontecido no fenômeno autoficcional, mas me parece muito mais vasto e que eu prefiro chamar de pós-ficção, num contexto em que a ficção se faz problemática, arbitrária, o romance se aproxima não só da autobiografia, mas também do ensaio, da filosofia, da historiografia, do discurso político. Esse lugar em que o romance se abre para novas linguagens com um radicalismo maior do que em qualquer outro momento da sua história, é uma das coisas que me parece mais vívida e ricas do momento literário que a gente tem acompanhado.

O leitor tem direito de saber o que é verdade na obra?

A graça tem estado justamente em não distinguir, em turvar esses limites, em não tornar viável uma distinção absoluta. A gente já sabe que ficção e realidade não se separam em nenhuma instância, em nenhum contexto. Então, o que a literatura faz é trazer à tona essa provocação e construir assim uma nova relação com o leitor, que se vê instigado diante daquilo que encontra. O pacto ambíguo que essas obras criam, diferente do pacto ficcional tradicional, em que o autor finge que está contando uma verdade e o leitor finge que acredita, aqui isso se rompe em nome de uma série de instabilidades, hesitações, aproximações e afastamentos, que tornam o trânsito do leitor com o livro muito mais rico e fluido. Não faria sentido o estabelecimento de um limite ético em que o autor não poderia enganar o seu leitor. A literatura sempre escapou à busca literal de uma veracidade.

Você é fruto de um exílio?

Sim, nasci durante o exílio dos meus pais, agora se isso fazia de mim uma criança exilada, se isso faz do exílio um aspecto da vida que eu deveria compreender e conceber intimamente, individualmente, isso nunca ficou claro pra mim. A Resistência é também um livro de reflexão sobre essa questão: o filho de um exilado é um exilado? Ter nascido durante o exílio dos meus pais faz de mim um sujeito privado de uma pátria, que seria minha? Essas questões identitárias, se levadas às últimas consequências, nunca trazem afirmações assertivas, certezas, sempre nos levam a mais interrogações, indagações, e o aprofundamento da própria reflexão.

A pandemia é um novo exílio no seu ver?

É, há quem descreva a quarentena como o ‘inxílio’. É o exilar-se para dentro de casa, nos confins da sua própria morada. Toda narrativa sobre exílio traz essa dor, carrega essa saudade também, esse desejo de estar de volta no espaço em que se dava uma rotina, uma existência mais cotidiana, banal e isso é algo que na quarentena se perdeu. A intimidade com as ruas, com os restaurantes, com as praças. Na prática muito se cindiu e isso cria um vazio.

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