‘Fico chocada com essa necessidade de usar a violência para se expressar’

‘Fico chocada com essa necessidade de usar a violência para se expressar’

Sonia Racy

10 de novembro de 2014 | 01h00

Foto: Nana Moraes

Lotando o Teatro Faap com a peça Incêndios, a atriz, que se considera otimista, está satisfeita por provocar uma reflexão sobre a atual agressividade da sociedade.

Quando Marieta Severo leu, há alguns anos, a peça Incêndios pela primeira vez, já estava com vontade de viver uma grande história em cena – que não fosse fragmentada ou um monólogo. “Na época em que o texto chegou para mim, foi como se eu já tivesse um terreno interno pronto para recebê-lo”, relata a atriz, que recebeu a coluna no camarim da peça, em cartaz no Teatro Faap.

O texto do libanês Wajdi Mouawad – um drama sobre conflitos humanos em meio a uma guerra civil no Oriente Médio e a busca de uma família pela sua história – também chamou a atenção de Marieta por tratar da violência: “Tocar nesse assunto, falar disso é muito importante também”.

Indagada sobre a onda de radicalismos atuais, a atriz – que não tem conta no Facebook – repudiou as manifestações agressivas na internet. “Acho que é um território muito pouco civilizado.” E lembrou as conquistas de sua geração: “Às vezes, a gente dá três passos para frente e, de repente, vem uma onda muito conservadora, como a que a gente está agora, e são dois passos para trás. As mudanças são lentas”.

A seguir, os melhores trechos da entrevista, em que a atriz fala sobre a peça, comportamento e o que considera as maiores realizações de sua vida: a família e o Teatro Poeira.

O que mais chamou a sua atenção ao ler Incêndios pela primeira vez?

Várias coisas. Esse texto reúne muitas qualidades. É engraçado pensar nisso, porque esse processo é bonito e muito misterioso. Quando a peça chegou para mim, foi como se eu já tivesse um terreno interno pronto para recebê-la. Esse terreno era a vontade de viver uma história grande em cena, sem que fosse um monólogo. Além disso, o texto tem uma grande e belíssima poética. E uma dramática e contundente história a ser contada, com uma carpintaria, com uma dramaturgia muito contemporânea.

Esse encontro misterioso com um texto já tinha acontecido outras vezes?

Sim. Quando fiz No Natal a Gente Vem te Buscar, do Naum Alves de Souza, eu pensava, na época, que queria falar de família – e, de repente, me chegou aquele texto. É bonito quando o acaso te leva para um caminho que, mal ou bem, está dentro de você.

Essa é uma peça provocativa e que, ao mesmo tempo, as pessoas compreendem.

Sim. Às vezes, me vejo indo ao teatro e saindo de lá com a sensação de que aquela experiência se esgota ali – eu não carrego comigo. Gosto quando uma peça me deixa com coisas que vou descobrindo, que ficam em mim – questões, emoções, sensações, ligações. E essa peça faz isso de maneira clara. Jamais gostei de teatro que dá ao espectador a sensação de que aquilo não é para ele. Gosto de peças que o público entenda, que mexam com ele.

Fica muito claro, na peça, o tema da violência. Você queria falar disso?

Queria. E acho que não é preciso ter vivido uma guerra civil explícita, como na peça, para colocar a violência que a gente vive no mesmo grau – nossa guerra de irmão matando irmão, um número de mortos maior do que em algumas guerras civis. Vivemos uma situação de violência muito grande. Então, é importante tocar nesse assunto, falar disso.

Você nota isso nos discursos também? Esse é um discurso agressivo, violento.

É impressionante a violência latente nas pessoas. Elas andam falando muito das eleições, mas isso não se manifesta apenas aí. Quando é que você ia a um jogo de futebol com medo de morrer, de levar uma porrada? Não existia isso. Então, acho que são questões que estão aí na sociedade.

Isso te choca?

Profundamente. Me choca essa necessidade da violência para se expressar, esse desprezo pelo outro. Eu sou muito pacifista. Não consigo nem ver luta de boxe. Só de falar me dá… arrepio. Eu detesto.

Você pesquisou mulheres do Oriente Médio para fazer a peça?

Sempre brinco que o pouco que sei na vida é por causa dos personagens que interpretei. Eles foram me abrindo portas. Claro que eu fui ler sobre o Oriente Médio. Tivemos aulas sobre vários aspectos da cultura árabe, que é muito poética, com muitas metáforas, simbologias. Tentei entender um pouco, porque…

É complexo.

Muito. Ô regiãozinha complexa. (risos) No entanto, minha referência interna mais forte foi minha própria geração, que viveu uma situação de ditadura, de violência, de irmão matando irmão. Dedico o meu trabalho a Zuzu Angel. Eu a conheci, acompanhei – não intimamente, porque não era minha amiga –, mas ela ia à nossa casa. Eu conheci o Stuart (Angel, filho de Zuzu, militante político que desapareceu durante a ditadura). Enfim, tinha uma admiração por aquela mulher batalhadora, que foi atrás da história do filho dela. Fui pegar todas as referências.

Por falar nisso, você já disse, uma vez, que toda mulher é um pouco Mulher Maravilha.

Continuo achando. Acho que as causas feministas continuam vivas. Às vezes, tentam diminuir as batalhas que ainda precisam existir. Em muitos lugares, muitos empregos, a mulher ainda ganha menos que o homem, não tem o auxílio que precisa para trabalhar. Isso é uma conquista de muitos anos. Na minha geração, na década de 60, as mulheres queimaram o sutiã na rua. As pessoas não sabem o que era a época, o que significava. Precisava, sim. Nunca fui pra rua queimar sutiã, mas acompanhava, batia palma e procurava estar sintonizada com as causas feministas.

E você é mãe de três mulheres.

Sou, ainda bem. Sempre quis ter filha menina. (risos) Quando nasceu a primeira, falei: “Oba, já tenho uma”.

Ainda existe muito machismo na sua opinião?

Muito. As conquistas são lentas. Às vezes, a gente dá três passos para frente e, de repente, vem uma onda muito conservadora, como a que a gente está vivendo agora, e são dois passos para trás. [/ENTREVISTA]Estamos no meio de uma onda perigosa.

Perigosa como?

Meus filhos brincam que eu sempre digo que, na minha geração, a gente falava que tudo era “experimental”: a escola, as relações. E era mesmo. Uma busca do novo, de romper padrões. Então, agora já na minha faixa dos 60, paro e falo: “Meu Deus do céu, não estou acreditando que a gente ainda está nessa discussão”.

Que discussão?

Várias. Em relação ao casamento, por exemplo. Mulheres se casam com mulheres e homens se casam com homens. Está tudo bem, podem berrar aí à vontade, porque isso já é um fato. As novas famílias já estão aí. Agora, é claro que existem movimentos conservadores e reacionários que vão se manifestar. E a sociedade é feita de forças opostas mesmo. Temos de harmonizar isso, temos de tentar compreender.

Você acha que os extremismos, em todas as áreas, estão mais fortes hoje em dia?

Existe essa coisa da internet, né? Não tenho Facebook, nunca entrei, não vou entrar. É um mundo que não me atrai. Sei que é fascinante, mas, ao mesmo tempo que possibilita comunicações, possibilita ódios, anonimato. As pessoas falam o que querem sem a menor responsabilidade sobre aquilo. Acho que é um território muito pouco civilizado.

Você é otimista?

Muito. Ah, eu sou muito. Não sou idiota, tenho um senso de realidade muito grande. Entretanto, não sou nem um pouco saudosista. Acho que os tempos em que estamos vivendo são os melhores. É mentira que era melhor antes. Não vem com essa conversa, porque não era. Não era, não. Acho que o Brasil nunca esteve tão bem como está agora, com as coisas todas, com as conquistas todas que a gente teve. Problemas, dificuldades, sempre existirão, sempre. Mas eu olho para o meu País com um olhar muito positivo, muito feliz, mesmo.

Como você consegue se manter tão reservada em tempos de exposição total?

É moleza. É só você escolher o que vai fazer, onde você vai. Quando eu tenho um trabalho, sou tão exibida! (risos) Fora isso, não tenho interesse nenhum. Tirar foto com as pessoas, pra mim, é uma manifestação de carinho. É o meu aplauso. No entanto, não vou a lugares se não quero ser fotografada. Tem gente que acredita nesse tipo de exposição. Pra mim, isso não diz nada. Aliás, no geral, para a minha geração. Essa coisa da selfie, sua família, do seu filho, do seu não-filho ainda, do seu marido, não me interessa em nada. E também essa mitificação, esse “star system tupiniquim” que eu não acho a menor graça.

Você já afirmou que ser jovem, para a sua geração, não era um valor em si e que, se pudesse, colocaria botox “no cérebro”.

É. Porque é aí que mora o perigo. A ruga é chata, é verdade. Mas minha grande preocupação é o envelhecimento interior, não o exterior.

Muitas mulheres não pensam assim, principalmente na televisão, você não acha?

É ruim ter de lutar contra a sua idade. Esse culto à juventude impôs esse padrão do não- envelhecimento. Eu tenho 67 anos. O público me acompanha desde O Sheik de Agadir, quando eu tinha 18, 19 anos. Vão achar o quê? Que estou com 42? Não pode. Claro que cuido do meu corpo, faço ginástica todo dia, não tenho tendência a engordar, graças a Deus, e não admito estar em cena com um corpo que eu não domine.

Como é criar com o Aderbal? Vocês têm uma parceria de namoro e profissão juntos.

Eu gosto muito do tempo nas relações. Aliás, gosto do tempo da minha vida, do que isso me trouxe. Tenho uma amiga a respeito da qual costumo dizer: “Nossa, somos amigas há 40 anos”. Então, ter esse tempo de trabalho com o Aderbal, o fato de a gente se conhecer, de eu não precisar provar nada, de ele conhecer meus defeitos, minhas limitações… é muito bom.

Ter intimidade.

Sim. Porque o primeiro nível é sempre o nível social, o nível das máscaras. Começar um trabalho sem isso facilita.

O que o Teatro Poeira representa para você?

O Poeira é um grande encanto, a grande realização da minha vida – fora a minha família, que é minha maior realização. O Poeira e o Poeirinha vêm em seguida, com toda a certeza. É algo muito além de tudo o que eu fiz em cena, muito além de tudo o que eu produzi para o teatro, porque ultrapassa as nossas vidas de atrizes. Fica além disso, das nossas trajetórias – porque é um lugar de utilidade pública. Fico muito feliz de saber que tenho um lugar que contribui para a cultura. O Poeira bota uma “poeirinha” que seja na cultura teatral do Rio de Janeiro.

Você mencionou a família e tem fama de ser uma mãe e uma avó muito presente. É verdade? A família é uma coisa que te dá prazer?

Enorme. A única coisa ruim de fazer temporada aqui em São Paulo é que eu perco meus almoços de domingo. A gente reúne a família todo fim de semana para comer um cozido, uma galinha ao molho pardo, um churrasco. Já é praxe. Como eu moro em casa, tenho casinha de boneca, pula-pula para as crianças. É um momento de muito prazer.

Como proprietária de um teatro, o que acha que poderia melhorar na cultura?

Tem sempre muita coisa que pode melhorar. Primeiro, a própria relação com a Lei Rouanet, que precisa ser aprimorada. Mas eu preferia falar das coisas que funcionam. Tem coisas tão boas: as leis culturais, os CEUs, as próprias manifestações das periferias. A cultura chegou para todo mundo. Ocupou o seu lugar. /MARILIA NEUSTEIN

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