Festival espanhol vem buscar filmes no Brasil

Sonia Racy

26 de dezembro de 2015 | 03h07

Foto: Divulgação

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Cinema brasileiro “era muito isolado” e agora está “mais voltado para festivais internacionais e tem mais propostas pessoais”, diz diretor do Festival de Cinema de San Sebastián
 
Em visita ao Brasil, o diretor do Festival de Cinema de San Sebastián, José Luis Rebordinos, passou rapidamente por São Paulo para conversar com diretores e produtores brasileiros no MIS, em evento do Programa Cinema do Brasil. Durante a rápida visita, o diretor do País Basco assistiu também a filmes nacionais em busca de novos títulos e nomes – o evento que comanda tem premiações especiais focadas em novos diretores e no cinema latino-americano. Quer levar novidades para a próxima edição do evento espanhol em 2016.
 
Depois de ter feito, nos últimos 15 anos, parte do comitê de seleção, há 5 o basco Rebordinos assumiu a direção do festival. E seu desafio, segundo conta, é dar atenção ao público e, ao mesmo tempo, propiciar um espaço fértil para que produtores e diretores de cinema consigam fazer bons negócios com a indústria cinematográfica em cafés da manhã, almoços e reuniões – tudo intermediado pela equipe do evento. Abaixo, os principais trechos da conversa.
 
Vê diferença entre o cinema brasileiro atual e o do passado?
O cinema brasileiro era muito isolado do resto do mundo. Nos últimos anos, percebo que ele está mais variado ou, pelo menos, chegam aos festivais mais filmes diferentes. Vejo obras mais autorais. Antes eram conhecidas as obras mais comerciais, as comédias. Agora, podemos notar que a produção brasileira está muito mais voltada para festivais internacionais e tem mais propostas pessoais.
 
A que se deve, em sua avaliação, essa mudança?
Não conheço bem o que está acontecendo no País, mas sinto que existe uma política para fazer com que o cinema brasileiro chegue ao exterior. Passei três dias conversando com os produtores e percebi que eles querem buscar parcerias, primeiro com países da América Latina e, depois, com os da Europa. Não apenas para ter mais dinheiro, mas também para trocar experiências e ter parceiros diferentes que possam ajudar a desenvolver os projetos.
 
Na Europa isso já é comum?
Sim, já há muitos filmes com coprodução de seis, sete países. O que conseguem com isso? Minimizar o risco de sair ruim e dispor de um pouco mais de dinheiro para financiá-los. Nos tempos de crise, na Europa, o pessoal está aderindo à coprodução para arriscar menos. Na América Latina isso já vem acontecendo na Argentina, onde cerca de 80% dos longas que assisto são parceria com Espanha ou França. 
 
Como vê o novo fenômeno de as pessoas irem menos ao cinema e de assistirem a mais filmes em casa?
Estamos em uma mudança de época. Os jovens veem mais filmes do que nunca, mas não nas salas de cinema. Veem no tablet e no computador. É uma experiência diferente, mas temos que nos acostumar: os tempos estão mudando. Acredito que continuará havendo salas, mas o consumo majoritário de imagem e de som será em casa. Teremos telas gigantes nas residências. Eu gosto de ver filme no cinema, mas entendo que os tempos mudam e os jovens têm outras formas de entender as coisas.
 
Como o festival de San Sebastián lida com essas mudanças?
Estamos tentando rejuvenescê-lo. Os jovens se aproximam do cinema de outra maneira. Então temos que mudar também a nossa equipe. Tenho duas diretoras, uma com 42 anos, a outra com 31. E acabamos de contratar uma pessoa para o comitê de seleção com 24 anos. Tentamos incorporar à equipe gente jovem porque isso nos permite ver melhor o que está passando no audiovisual.
 
Crises econômicas afetam o cinema do país? Como foi no caso espanhol?
Afetam muito. O curioso é que, apesar de o cinema estar passando por uma situação pior, com diretores e atores parados, provavelmente vivemos os melhores anos do cinema espanhol dos últimos 40 anos. Há menos filmes, mas o número de salas é alto e os espectadores veem mais filme espanhol do que nunca. É difícil explicar o porquê já que é o pior momento econômico, mas o cinema está aguentando muito bem.
 
A criatividade vem das situações difíceis?
Com criatividade se fazem muitas coisas. Mas com criatividade e dinheiro se faz mais. /MARINA GAMA CUBAS

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