“Não existe ainda remédio contra o coronavírus”, atesta David Uip

Sonia Racy

14 de março de 2020 | 00h29

David Uip. Foto: Estadão

Coordenador do Centro de Contingência formado para limitar a disseminação do coronavírus em São Paulo, David Uip tem percorrido o Estado para esclarecer questões sobre o COVID-19. Ele pode ter reincidência na mesma pessoa? “Não. Só se for outro tipo de coronavírus. O 19 é só um de muitos coronavírus que existem. Este surgiu, por causa de uma mutação, na China”, explica o infectologista. Vai levar muito tempo até que se descubra um antídoto específico para este vírus? “O mundo está trabalhando nesse sentido e a OMS tem contribuído muito mas é muito otimismo esperar resultado comprovado rápido”, explica o ex-secretário da saúde paulista, lembrando que o Brasil já enfrentou epidemias mais mortais, como o H1N1, dengue e sarampo. “O maior problema deste vírus é sua rápida disseminação e a falta de medicação especifica. Não existe remédio ainda para o coronavírus”, pondera. Uip acredita que o pico da contaminação no País pode se dar entre abril e maio. Veja trechos da conversa:

O que o senhor tem a dizer para quem está em casa, tendo febre, tosse e espirrando. Corre para o pronto-socorro?
Não, tem que ficar em casa bem quieto, repousando, boa nutrição, boa hidratação. Quando passarem os sintomas você volta pra tua vida normal. Sem farmácia e sem volta ao trabalho.

Mas se for infecção por meio do coronavírus? Se houver diagnostico sobre isso. O que se tem que tomar?
Os medicamentos são os mesmos que você sempre tomou pra gripe. Um anticongestionante, um antitérmico, o que te de faça se sentir melhor. Nada mudou, é mais um processo viral que atinge as vias respiratórias superiores. Precisa ser bem entendido que trata-se de uma infecção viral, que se manifesta de várias formas. 80% das pessoas contaminadas não terão manifestações clínicas ou ainda, as manifestações clínicas vão ser muito amenas. Não vai nem perceber.

Quando é que eu procuro um hospital? A infecção, para quem teve e não percebeu, fica registrada em exame de sangue?
Estamos caminhando para o anticorpo que vai dizer se um dia você teve a infecção. Nesse momento, nós só temos métodos de diagnóstico de doença aguda. Então, se você teve a doença, soube ou não soube, muitas vezes transmitiu, acaba por aí.

Mas quando é que procuro ajuda?
Esse é o grande problema e é o grande alerta. Você teve febre, a febre foi embora e voltou. Permaneceu por mais de 48 horas, está com desconforto respiratório, aumentou o número de respirações – nós respiramos 20 vezes por minuto – e a amplitude da respiração diminui, uma respiração curta e mais frequente, isto é sinal de alerta.

A pessoa tem dificuldade de respirar que ela nunca teve?
Sim, seria uma dificuldade nova. Tem outros sinais que são importantes: as extremidades, pontas dos dedos, orelhas e nariz ficam arroxeadas. Tem um batimento entre as costelas que demonstra que a tua respiração também está difícil. Então, isso tudo, é sinal de que você deve procurar o serviço de saúde. Esses são os casos mais graves: ou é a ação do próprio vírus, ou já há uma infecção bacteriana. Desses pacientes com os sintomas, 5% precisarão ser internados em ambiente de terapia intensiva. Desses 5%, mais ou menos 1% a 2% desses pacientes podem morrer.

Qual a porcentagem final?
A conta é complexa. Isso deu confusão nas últimas horas. São Paulo tem 46 milhões de pessoas. Traçando cenário que pode acontecer ou não, calcula-se de maneira otimista, que 1% desses 46 milhões serão infectados. Mas o número pode ser maior, pode ser 5%, pode ser 10%. Na Itália, o vírus se comportou de maneira diferente que na China. Então, se forem 1%, serão 460 mil paulistas que terão a infecção.

A terapia intensiva acontece por quê?
Principalmente por insuficiência respiratória. Uma outra complicação que nós estamos descobrindo agora é uma inflamação do músculo do coração, a chamada miocardite. Isso é consequência já avançada do vírus.

Agora, se você pega ele no começo, com alguns sintomas, tipo, tosse e febre. As consequências serão quais?
Vai depender de duas situações que são muito bem conhecidas. Uma é a competência do sistema de defesa do ser humano, e o outro é o grau de ‘invasibilidade’ do vírus. Desse balanço, você vai ter uma doença mais grave ou menos grave. Por que é que ela é mais grave nas pessoas com mais de 60 anos? Porque o sistema imunológico é mais frágil. E, além da idade, o indivíduo pode ser um cardiopata, um pulmonar crônico, um diabético descompensado, um indivíduo com câncer em tratamento oncológico.

Pode explicar melhor?
Se o hospedeiro humano, for imunodeprimido por doença ou associado com a idade avançada e tiver um contato mais intenso com o vírus, uma viremia maior, isso pode ser mais sintomático e mais grave. Como não tem o que fazer nesse momento, não há remédio específico contra o coronavírus, o que é que você faz? Você sustenta a vida do paciente. Ele precisa de terapia intensiva, ele vai ter o suporte, via ter o respirador, vai estar monitorado e vai ser tratado como todo e qualquer doente em terapia intensiva.

Não temos um remédio contra o coronavírus porque não deu tempo de desenvolver isso ou porque já se testou vários e não funcionaram?
Nesse momento existem 80 trabalhos no mundo em busca do medicamento, nós teremos os primeiros resultados no final de abril. Há duas vantagens nessa solução: você trata do seu paciente ao mesmo tempo que diminui a viremia, que é o vírus no sangue. Em diminuindo, você diminui a transmissibilidade.

Qual o tamanho do problema da alta transmissão?
Vou te dar números. O que nós estamos entendendo é que um indivíduo contaminado pelo coronavírus contamina três. No caso do sarampo, um contaminado ele contamina 20 e a catapora contamina 13. Por que é inadmissível hoje alguém ter sarampo ou catapora? Porque existe vacina. E as pessoas não se vacinam. No caso do coronavírus, você não detém o poder de prevenção, e de outras doenças, como sarampo e catapora sim.

Tem gente perguntando se tomar vacina contra pneumonia ajuda a combater o coronavírus?
Não. A pneumonia bacteriana é uma das complicações que podem ocorrer em infecções virais, inclusive o coronavírus, então, existem populações de mais risco para pneumonia bacteriana, e nessas populações você vacina. A vacina é eficiente, são dos sorotipos diferentes, sequenciais, e protege contra um tipo de pneumonia. A pneumonia pneumocócica, o pneumococo, é um agente bacteriano frequente nas pneumonias, especialmente em extremos de idade, crianças e pessoas com mais idade.

Pela nossa conversa, é facil deduzir que boa parte das pessoas no mundo vai pegar o coronavírus mas só alguns bem poucos vão contrair a doença. É isso?
Toda doença viral, de transmissão respiratória, é difícil conter.

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