‘Falta destravar o Estado, tirá-lo de cima da gente’

Sonia Racy

11 de setembro de 2017 | 00h50

Cientista político Luiz Felipe D’Avila. FOTO DENISE ANDRADE / ESTADÃO

Apoiado por políticos tucanos, Luiz Felipe d’Avila
se lança candidato à sucessão de Alckmin
por entender 
que é preciso renovação. Para ele, papel
do Estado é servir à população e os 14 anos
de governo 
petista afastaram o Brasil o mundo

Cientista político e criador do Centro de Liderança Pública – organização sem fins lucrativos, que tem como objetivo empoderar líderes públicos –, Luiz Felipe D’Avila se colocou na semana passada como pré-candidato do PSDB a governador do Estado. Autor de oito livros, entre eles os 10 Mandamentos do País que Somos Para o Brasil Que Queremos, também especialista em gestão pública, o tucano decidiu voltar ao PSDB, do qual foi filiado de 1993 até 2010, acreditando que o País precisa de uma renovação política. “Defendo a renovação feita com segurança”, observou em entrevista ao Estado.

Embora o partido já tenha pelo menos quatro nomes interessados na vaga, ele foi o único até agora a se apresentar “oficialmente”. D’Avila não entrou nessa aventura sozinho. A ideia de lançar um nome “novo” e de fora da política tradicional para tentar manter a longa hegemonia tucana no Estado foi do presidente do PSDB, Pedro Tobias.
O projeto tem o aval de pelo menos dois importantes prefeitos tucanos: Duarte Nogueira, de Ribeirão Preto, e Paulo Alexandre Barbosa, de Santos. Esse trio tem algo em comum: seus integrantes são todos estritamente alinhados ao governador Geraldo Alckmin. Isso não significa que o chefe do Executivo paulista já tenha batido o martelo, mas sinaliza que ele começou a pensar no assunto.

Sua volta ao partido, no mês de agosto, se deu após conversas com integrantes do PSDB e consulta aos que considera como principais lideres do partido: FHC, Alckmin, José Serra e João Doria. “Recebi o incentivo de todos” conta o também especialista em políticas públicas, formado pela Harvard Kennedy School. Uma de suas mensagens centrais, para recolocar o País nos eixos: “É preciso destravar o Estado e tirá-lo de cima da gente”. Aqui vão os principais trechos da conversa.

Dentro da confusão política de hoje, em que não temos nem luz nem túnel, como vê o País, com eleições à vista?
O que mudará o destino do Brasil será a aprovação das reformas estruturais do Estado brasileiro – e temos aprovado reformas muito importantes, como a do ensino médio, a PEC do Teto de Gastos e a reforma trabalhista, uma grande vitória de modernização de uma lei antiquada, que prejudicava enormemente a geração de emprego. Temos ainda uma agenda difícil pela frente. Temos que aprovar a reforma previdenciária e a política neste mês, para que as regras possam valer na próxima eleição. Precisamos focar nas reformas e não nos distrairmos muito com crise política.

Como assim, distração?
A gente sempre fica pensando em pessoas, é a nossa veia personalista, os salvadores da pátria, é como se as pessoas fossem fazer a diferença. Não, a gente tem que se preocupar é com o que nós queremos deixar como herança para as próximas gerações. E nós vamos deixar um Brasil melhor se aprovarmos essas reformas, a previdenciária e a política.

Você fala em nós, a sociedade. E ‘nós’ Congresso? Do que é que os congressistas precisam para se conscientizar e aprovar os projetos de que o Brasil necessita?
Eles têm que se conscientizar de que se continuarem na política antiga, defendendo interesses clientelistas, corporativistas, vão perder as próximas eleições. As pessoas estão de olho em suas atitudes, suas escolhas. Portanto, defender o corporativismo hoje é um suicídio político em 2018. As pessoas têm que se voltar para sociedade e perceber o que ela deseja.

Acha que há real amadurecimento? O eleitor entende o que é a reforma trabalhista, reforma previdenciária e as consequências para sua vida?
O que eles entendem é se vai ser retomado o emprego, retomados a renda e o investimento. Se começar a melhorar, ele entende que o País está ficando melhor. Em outubro de 2018, vão querer saber o seguinte: a minha perspectiva de futuro é melhor? Se for melhor, vamos buscar um candidato reformista, se for pior, vamos cair de novo na vala de um demagogo salvador da pátria, o que seria um desastre para o País.

Já detectou algum demagogo salvador pátria no atual cenário político?
Dois nomes, o Lula e o Ciro Gomes, são dois que acreditam ainda em salvadores da pátria que vão mudar o Brasil, Vão é colocar o Brasil num eixo do retrocesso, e não do Brasil que nós precisamos, que é um País olhando para frente.

Em que categoria você colocaria Jair Bolsonaro?
Como demagogo também, da direita, que também tem a mesma visão. Os extremos se encontram. Compartilham da mesma visão nacionalista da economia, uma visão protecionista, tudo que o Brasil não precisa. O Brasil precisa abrir sua economia, precisa se inserir nas cadeias globais de valor. Nós perdemos mercado, competitividade, porque ficamos longe do mundo. Nesses 14 anos de PT, o Brasil se afastou do mundo. E outras nações passaram. Por quê? Porque se integraram ao mundo e fazer isso é um grande desafio político.

Nesse desafio de se abrir ao mundo, a primeira tentativa pós-64 foi a do governo Fernando Collor. Isso avançou para depois, nos últimos anos, voltar tudo para trás. O que falta ao Brasil? Os partidos deveriam ser conhecidos pelos seus programas, em lugar de ser conhecidos por seus políticos?
O grande problema é que nós acreditamos mais no capitalismo de compadrio do que no verdadeiro capitalismo. Achamos que o Estado tem que beneficiar empresas, setores. Veja a nossa legislação tributária, pegue a alíquota de PIS e COFINS, tem uma alíquota pra cada setor da economia, um protecionismo pra cada um… Nós temos que nos livrar dessa amarra, acreditar na nossa capacidade de competir, produzir e exportar. Temos capital humano, capital físico, criatividade, espírito empreendedor. Falta destravar o Estado, tirar o Estado de cima da gente. Como no Plano Real, lembra?

Acontece que a cada 4 anos, nós trocamos de presidente da República e o Brasil pode ou não tomar outro rumo, diferente do governo anterior. Existe alguma maneira de você amarrar um programa consistente de recuperação econômica que dure 20 anos?
Essa é uma ótima pergunta. A gente tem que separar a agenda de governo de programas do Estado. E programas do Estado implicam no seguinte: nós vamos abrir a economia, nós queremos ser no doing business uma das cinco ou seis economias mais competitivas do planeta em 10 anos. E você tem que ter um projeto, um projeto de longo prazo e que isso é uma corrida de revezamento, um governo pega o bastão, corre mais um trecho e passa ao outro…

Então, a agenda tem que ser combinada com a sociedade?
Está aí o meu otimismo. Nós temos hoje uma geração de jovens engajados em fazer essa transformação, essa mudança, dizendo “quero um Brasil voltado ao mundo”, e isso é a força motora da mudança na política brasileira. Essa turma que começou a ir pra rua em 2013 quer renovação, renovação da política, preparar o Brasil para uma nova era. Eu acredito que essa turma e a pressão constante desses movimentos em cima dos políticos é que vão fazer o Brasil sair do País clientelista para um País voltado para o mundo e para a exportação.

Você mencionou a nova geração. Acredita que ela tem vontade de fazer política, uma profissão hoje tão mal vista?
Vou te dar uma boa notícia. Está cheio de jovem já fazendo política, é que eles não aparecem na imprensa nacional. São pessoas que estão engajadas nas políticas municipais. São prefeitos de pequenos e médios municípios, gente que está disputando nas suas cidades. É interessante que a renovação começa pela cidade porque você acha que na cidade pode fazer a diferença. Eu, que venho formando políticos há quase 10 anos no CLP, vejo essa transformação. Tem gente boa na faixa entre 25 e 35 anos nos pequenos e médios municípios.

Como é que você convence o brasileiro cuja vida melhorou nos primeiros anos dos governos petistas, porque se gastou um dinheiro que o Brasil não tinha e de que agora ele precisa economizar? Como convencer essas pessoas de que as reformas são urgentes e necessárias?
Primeira coisa: as pessoas viveram uma ilusão e hoje elas estão pagando caro. Nós temos 14 milhões de desempregados, pessoas que ascenderam à classe média e voltaram pra uma classe baixa. Elas estão sofrendo, não conseguem emprego e hoje começa dar um medo porque elas talvez não consigam mais nenhum emprego se as coisas continuarem do jeito que estão. E pior, os filhos não conseguirão emprego. Olha só, como é que na sociedade do conhecimento na qual vivemos hoje – que consiste na produção de conhecimento que produz bens – temos 48% dos jovens que não terminam o ensino médio?

Gastamos tudo que a gente tinha, e agora como vamos ter um outro tipo de atitude em relação a isso? Existe essa consciência fiscal? Onde você percebe isso?
Vou pegar um exemplo, o (presidente francês Emmanuel) Macron acabou de vencer uma eleição presidencial e o slogan dele da campanha era muito simples: “Eu vou falar a verdade.” E começou a falar a verdade: “Eu vou cortar os benefícios do setor público, eu vou fazer a reforma da previdência, eu vou diminuir o número de parlamentares…” E ele esta lá, fazendo uma reforma para diminuir o número de parlamentares. Então ele se elegeu falando a verdade. As pessoas no mundo da pós-verdade estão cansadas de ser ludibriadas, enganadas, elas querem escutar a verdade. O problema, eu falo, as pessoas não temem mudanças, as pessoas temem perdas. Se você especifica do que é que nós temos de abrir mão hoje ou perder hoje pra ganhar amanhã, algumas pessoas, eu não estou nem dizendo que são todas, mas elas topam correr esse risco. O que elas não querem é ser enganadas. Então, essa história de que “não, eu vou entrar no poder e resolver as coisas”… Isso não é verdade, as pessoas não acreditam mais. E outra, não prepara as pessoas pra manterem esse espírito infantilizado, que é o do grande personagem, o chefe que resolve todas as coisas. Não é o chefe, somos nós. Nós somos donos do nosso destino. São as nossas escolhas que determinarão o Brasil que nós teremos amanhã.

Você foi um dos primeiros defensores do voto distrital no Brasil. Por quê?
Sei que 70% dos eleitores esquecem em quem votaram para deputado e para vereador nas últimas eleições. Defendo o voto distrital há seis 6 anos. Acredito que esse sistema aproxima o eleitor do seu representante. Com o distrital, o eleitor vai fiscalizar e cobrar muito melhor.

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