‘Falar a verdade corta essa fase da infância’, diz Papai Noel de shopping

‘Falar a verdade corta essa fase da infância’, diz Papai Noel de shopping

Sonia Racy

25 Dezembro 2017 | 00h30

CLÁUDIO ALTRUDA

CLÁUDIO ALTRUDA. FOTO: DANIELA RAMIRO/ESTADÃO

A barba branca é verdadeira, estende-se por cerca de 15 centímetros para além do queixo. Os quilos a mais, também. O contador aposentado Cláudio Altruda, 77, precisa apenas vestir a roupa vermelha característica do Natal para receber crianças como o Papai Noel.

É um “bico” antigo – ele o faz há 26 natais, 18 deles no Shopping Pátio Higienópolis. Ou seja, desde que o local foi inaugurado. “O mercado uma hora fecha para pessoas de idade”, explicou, sobre a decisão de deixar de trabalhar como contador.

Com serenidade, ele vai ganhando a confiança até das crianças mais acanhadas, em um papo que dura vários minutos. “Eu brinco com cada um”, explica à coluna. O primeiro turno do dia, das 10h às 16h, é menos cheio e permite conversar mais com todos.

Um pouco da atenção também vai para os pais. Recentemente, Cláudio ouviu uma mãe se queixar da atitude da professora de escola, que explicou aos alunos que Papai Noel e o Coelhinho da Páscoa não existem.

Ele concorda com a queixa da mãe: “São fases de infância das crianças, a gente tem que respeitar”, argumentou. “Falar que não existe corta essa fase gostosa.” Perguntado se, em sua opinião, a sinceridade da professora estava relacionado a alguma corrente de pensamento, Cláudio não quis polemizar: “Sei lá, ela pode apenas ter acordado no dia com o pé esquerdo.”

Ele próprio já teve que defender a importância da fase de acreditar no Papai Noel a uma menina de 12 anos, ela já ciente de que o bom velhinho é uma ficção.

Contratado por famílias para fazer a entrega de presentes no dia 25, ele se habituou a ir às mesmas casas por alguns anos consecutivos, antes de as crianças deixarem de acreditar. Em uma visita à casa de um menino de sete anos, foi confrontado pela irmã mais velha: “Por que o senhor e a minha mãe me enganaram por todos esses anos?”

O contador confessou à coluna que a cobrança o pegou de surpresa, mas não deixou de contraargumentar. “Linda, você não gostava? Você não apreciou?”

Diante da resposta afirmativa, pediu que a menina não estragasse o contentamento do irmão mais novo. Algumas das crianças levadas para visitá-lo no shopping trazem consigo cartas com a relação dos presentes que gostariam de receber, para depositar em uma caixa de correio natalina, pintada de vermelho. Há também um depósito para chupetas.

Entre os objetos de desejo dos meninos estão carrinhos, pistas de corrida, brinquedos da Patrulha Canina, Lego e jogos de videogame, além de camisetas e chuteiras de times, principalmente de Cristiano Ronaldo, Neymar e Messi. A grande surpresa do ano foi a demanda por livros de ação e aventura.

Já as meninas pedem bonecas – como Lol e Baby Alive –, a mansão da Barbie, o carro da Barbie e massinhas de modelar.

Bicicletas, patins e patinete são objetos de grande desejo de todos, além de um outro pedido que já se tornou clássico: uma viagem para a Disney./PAULA REVERBEL