Facundo Guerra vai abrir casa dedicada ao fetiche na antiga Love Story

Facundo Guerra vai abrir casa dedicada ao fetiche na antiga Love Story

Gilberto Amendola

20 de junho de 2022 | 01h00

Facundo Guerra. Foto: Felipe Rau/Estadão

Facundo Guerra. Foto: Felipe Rau/Estadão

Ainda tem quem se impressione com o fato de um dos principais empreendedores da noite paulistana ser abstêmio. “Eu sempre respondo que esse estranhamento seria parecido com o de achar esquisito um cego entrar na sala São Paulo para ouvir uma orquestra”, disse Facundo Guerra, 48 anos. “Como não bebo álcool, o café é o meu vinho. Eu ritualizo mesmo. Não consigo começar o meu dia sem”, completou.

Atualmente, Guerra está na direção de oito casas. Entre elas, Bar dos Arcos, Cine Joia, Blue Note e a Lions. Agora, ele também se prepara para abrir um novo negócio no local em que antes funcionava a icônica Love Story (conhecida como ‘casa de todas as casas’, a Love representava o fim de noite para profissionais do sexo e seus clientes). Em sua nova encarnação, o espaço, que deve abrir suas portas em outubro, irá se chamar Love Cabaret e terá uma proposta completamente diferente da original. Sai o sexo e entra o fetiche – e um certo clima de teatro de revista.

Em conversa por telefone com a coluna, Guerra explicou porque não quis simplesmente retomar o antigo Love Story. “Eu não teria a manha de fazer aquilo. Eu não queria reabrir a Love Story. A casa falava com os homens de 40 e 50 anos, com os cabeças brancas, e com tendências à direita. Eu não estou afim de fazer projeto para esse público. Não estou falando de business, mas de sensibilidade de mundo. Não quero produzir conteúdo para eles.”

Guerra também falou sobre o momento pós-pandêmico e, principalmente sobre as dificuldades de gestão em tempos de crise econômica e convulsão urbana. “Além do custo-benefício, eu agora falo em risco-benefício”, disse. Leia a entrevista abaixo:

Como nasceu a ideia de reabrir algo no endereço da Love Story?

A Love Story era um ponto emblemático. Sempre cuidei de recuperar pontos históricos que estavam correndo o risco de virar um pet shop ou um supermercado e transmutá-los para os dias atuais.

Ou seja, não é a volta daquela Love Story?

A Love tinha aquela situação em que as meninas não pagavam para entrar porque elas eram o produto. Lá, os cliente negociavam com as meninas para terminar a noite. Tinha uma capa democrática que não era real. A Love Story não seria um ambiente adequado à sensibilidade de hoje.

A ideia, então, nunca foi recuperar aquele clima?

Eu não teria a manha de fazer aquilo. A Love falava com os homens de 40 e 50 anos, cabeças brancas, e tendência à direita. Eu não estou mais afim de fazer projeto para eles. Não estou falando de business, mas de uma sensibilidade de mundo. Não quero produzir conteúdo para essas pessoas.

Então, o que será a nova casa, o Love Cabaret?

A Love tinha o slogan ‘a casa de todas as casas’. A nova casa será ‘a casa de todos os corpos’. Desloquei a Love do campo do sexo para o do desejo. Vamos tratar do fetiche, sem ser uma casa fetichista. Será uma porta para pessoas de classe média, como eu, descobrirem outros mundos. O fetiche não tem a ver com pornografia ou exploração sexual. Quero recuperar tradição de cabaré dos anos 60 e 70. São Paulo já teve 30 cabarés na região do centro – que desapareceram na ditadura.

Mas vivemos tempos mais conservadores também…

Em tempos conservadores existe o contraponto da resistência estética. Bolsonaro foi um choque no começo – até a gente entender como se virar. A resistência ao que ele representa está crescendo agora.

A procura por bares e casas noturnas cresceu com a melhora da pandemia?

Tinha uma demanda represada, muita gente querendo sair. Mas a gora tem a crise, a inflação, pouco dinheiro no bolso. Nas minhas casas, tento empilhar experiências para que a pessoa sinta o valor do custo- beneficio. Agora, eu preciso me esforçar mais para conquistar cada real do meu cliente.

A segurança é um fator…

É difícil convencer a classe média ir para o centro. Eu entendo. O furto de celular, por exemplo, está na mão de organizações criminosas como o PCC. Não está na mão de bandidinho de bicicleta. Depois que você tem o celular roubado, você chora pra quem? Eu entendo o medo, entendo de verdade. Cabe a mim oferecer o tal risco-benefício.

O que é risco-benefício?

Antes eu estava no lugar do custo-benefício, agora falo de risco-benefício. Existe o risco à saúde pela pandemia e o risco de assalto. Como a gente mitiga isso? Com muito trabalho, com segurança, com redução de preço e experiências novas. Assim, o cliente entende que o risco-benefício compensa.

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