Autora inglesa investiga, em livro, os ‘obcecados por ajudar o próximo’

Sonia Racy

23 Abril 2018 | 00h45

LARISSA MACFARQUHAR

LARISSA MACFARQUHAR. FOTO: BRYAN BEDDER/GETTY IMAGES

Em livro recém-lançado, a inglesa Larissa MacFarquhar fala dos que ajudam
por solidariedade e dos que têm ‘grande obsessão’ por ajudar.
E busca entender por que tanta gente acha que esses obcecados são
“gente doente” ou têm motivos ocultos para agir assim.

De tanto observar, ao longo dos anos, a valorização do individualismo, Larissa MacFarquhar resolveu se debruçar sobre o outro lado: a legião dos ‘altruístas radicais’. Em sua pesquisa – que resultou no livro A Vida Pelos Outros – Escolhas Altruístas no Limite da Ética (Companhia das Letras) – a escritora da revista The New Yorker deparou com personagens que, envolvidos em causas humanitárias, não apenas ajudam: eles desenvolvem uma obsessão por fazer o bem. “Procurei entender o que faz alguém se entregar a causas altruístas mais do que a maioria das pessoas”, explica a autora, em entrevista à repórter Marilia Neustein, por telefone, de Londres.

Humanismo e idealismo foram valores que Larissa detectou com frequência ao falar com pessoas que, de maneira contínua, se colocam nos lugares dos outros. “Muitas pessoas têm um senso de ajudar alguém que esteja precisando, mas minha pesquisa vai além. Me debrucei sobre pessoas que buscam ativamente as situações em que possam ajudar os outros. E elas são mais calculistas. Decidem ajudar antes mesmo de saber quem vão beneficiar”, conta.

Indagada sobre se será possível um mundo mais altruísta, a escritora afirmou que sim, mas que é preciso combater o ceticismo. “O sentimento de bem-estar depois de contribuir com alguém é algo muito básico do ser humano”. Abaixo, os principais trechos da entrevista.

Por que decidiu escrever um livro sobre pessoas extremamente altruístas?
Sempre me interessei pela motivação de alguém que milita por valores éticos. Entretanto, eu não conhecia muito a respeito. Me interessei e procurei entender o que faz alguém se entregar a causas altruístas muito mais que a maioria das pessoas. E mais: como essas pessoas mantêm esse tipo de motivação.

Acha que a maioria das pessoas desiste desse tipo de engajamento?
Sim. Uma questão que me deixou intrigada foi: todos sabemos que doar, ajudar e fazer pelos outros nos faz sentir bem e nos faz felizes. Mas poucos de nós pratica isso frequentemente. Isso é muito intrigante, não? Por que será? – eu me perguntei. Mesmo que acreditasse que as pessoas só estão preocupadas com o próprio bem-estar – visão da qual eu discordo – seguindo essa lógica, então, elas fariam mais pelos outros. E comecei a pensar em mim também.

E como foi este processo?
Comecei a pesquisar quem são essas pessoas que assumem compromissos éticos de forma mais intensa e efetiva que os demais. E encontrei esses personagens. O mais curioso foram os comentários que ouvi: que essas pessoas eram doentes, que existia algum “motivo escondido” para serem tão dedicadas a uma causa altruísta… Ou seja, existe um grande ceticismo com relação a pessoas que praticam boas ações. Isso me deixou fascinada. Nem sempre existiu essa desconfiança sobre a bondade. Então, parte da minha pesquisa foi tentar entender porque agora – não sei se no Brasil é a mesma coisa – existe essa atitude cética com relação às pessoas que se dedicam a esse tipo de causa.

O que diferencia seus personagens das pessoas que praticam boas ações diariamente?
No começo do meu livro eu faço a distinção entre as pessoas que praticam boas ações e “os heróis”. Na tradição bíblica, os bons samaritanos são aqueles que resgatam o que está do outro lado da estrada. Isso é muito nobre, mas acredito que seja mais comum. Muitas pessoas têm um senso de ajudar alguém que esteja precisando. Entretanto, minha pesquisa vai além. Me debrucei sobre pessoas que buscam ativamente situações para ajudar os outros. São mais calculistas. Decidem que vão ajudar antes mesmo de saber a quem vão beneficiar.

O que descobriu de importante nessa busca?
Sempre admirei essas pessoas. Mas me impressionou o grau de imaginação que marca a vida delas. Nós usamos muito o nosso racional. Por exemplo: sabemos que refugiados ou pessoas muito pobres precisam de ajuda. Mas necessitamos de fotos e notícias para ter empatia. E depois esquecemos. Os personagens que entrevistei para meu livro não precisam de fotos. Eles imaginam como é estar em uma situação de horror, de desespero, e precisar de ajuda.

Depois de sua experiência, acha que as pessoas que são altruístas sofrem mais por isso?
Sim e não. Não sofrem no sentido de abrir mão de muitas coisas – especialmente de bens materiais. Não usam o dinheiro da mesma forma que nós. Jamais escolheriam suas profissões só pelo sucesso e, de alguma maneira, sabem bem como usar seu tempo. Minha conclusão é que são pessoas que estão bem resolvidas em suas escolhas. Isso é maravilhoso.

E o lado dos que sofrem mais?
É que. como já disse, eles têm uma enorme capacidade de se colocar no lugar do outro. Isso faz com eles vivam infelizes só de imaginar o sofrimento que acomete o mundo. Algo que, para muitos de nós, passa batido. Quanto mais sabem do sofrimento alheio, mais necessidade eles sentem de ajudar.

Na sua opinião, a polarização na sociedade faz com que essas pessoas e suas atitudes estejam em baixa? O que vemos é uma valorização do egoísmo?
Acho que sempre existiram, na sociedade, pessoas egoístas e altruístas. O que muda é se as pessoas altruístas são admiradas ou não. Agora, nos EUA por exemplo, pessoas que se dedicam aos outros não são admiradas. Já na Índia pós-independência isso era muito valorizado. Teve até um líder que conseguiu, de proprietários de terras, que doassem parte delas aos pobres.

Pode explicar melhor esse fenômeno que ocorre nos EUA?
Se hoje alguém tentasse fazer algo parecido, por lá, muito provavelmente seria internado em um hospital psiquiátrico. Porque na vida americana ma pessoa assim não tem prestígio ou autoridade. Outra coisa que mudou é o significado do que é ser uma boa pessoa. Na maioria dos lugares acredita-se que é mais importante alguém se dedicar à família e depois às grandes causas – como se as grandes causas estivessem muito distantes. Por isso poucos entendem gente que se dedica a ajudar necessitados do outro lado do planeta.

Como vê a questão das “boas causas” ou as atitudes de caridade ligadas a religião?
Religiões sempre contribuíram para boas e más ações. Estimulam as pessoas a serem altruístas, mas também a odiar e a ir para guerra. As religiões são bem sucedidas em mostrar a importância de se contribuir para o coletivo. Mas parece que 50% de doações de caridade dos EUA vão para as instituições. É um assunto complicado.

O recente despertar de movimentos da sociedade americana pode contribuir para valorizar o altruísmo?
Acho que movimentos como #meetoo, Black Lives Matter ou os secundaristas que marcham contra as armas são interessantes, mas não os chamaria de altruístas. Eles lutam por causas maiores do que seus interesses pessoais, mas é na direção de promover mudanças sociais. Desastres naturais, por exemplo, acabam atraindo pessoas realmente altruístas – no sentido que eu trabalho no meu livro.

Por que atraem?
Desastres como enchentes ou furacões, que fazem com que muitas pessoas fiquem desassistidas, têm um grande apelo. Crises desse gênero atraem muito a opinião pública e, consequentemente, muito dinheiro. Mas passam. Seria mais interessante se as pessoas conseguissem imaginar, de maneira contínua, como é viver na pobreza.

Acha que o mundo pode ser mais altruísta do que é?
Sim. Não tenho dúvida de que as pessoas podem praticar ações em prol dos outros. Como eu disse, o sentimento de bem-estar depois de contribuir com alguém é algo muito básico do ser humano. A vitória de Trump nas eleições americanas, por exemplo, produziu uma coisa boa: as pessoas que se opõem a ele se tornaram motivadas politicamente. Não existia tanto ativismo dos progressistas no governo Obama. Estava todo mundo preocupado com suas próprias vidas. Agora as pessoas estão indo a passeatas, se envolvendo, se candidatando.

E que tipo de mudança aconteceu na sua vida?
Passei a adotar uma racionalidade sistemática sobre para onde mando meu dinheiro ao fazer doações a organizações. Isso aprendi com meu livro: caridade não combina com racionalidade, mas com emoção. As pessoas gostam de doar e ajudar de forma espontânea. Mas entendi que é importante verificar a eficácia de cada instituição.