‘Eu vivo na última fronteira’

‘Eu vivo na última fronteira’

Redação

01 de janeiro de 2009 | 06h00

Foto por Juan Guerra/AE


Competente, premiada, Beatriz Barbuy põe a astronomia brasileira no mapa

Foi no galho mais alto de uma árvore, no quintal de sua casa, que a menina Beatriz se empoleirou um dia para ver o céu. Mediu as nuvens, a luz da tarde caindo, as primeiras estrelas aparecendo. Gostou tanto do que viu que voltou no outro dia, depois no outro e a rotina se alongou pelos anos afora. Ela sempre lá no alto, assuntando o universo.

Tinha que dar no que deu. Quatro décadas depois, a árvore deu lugar a um telescópio, o céu virou matéria escura. As estrelas, imensos aglomerados de hidrogênio, oxigênio, metais. A menina é a professora de astronomia Beatriz Barbuy, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP, além de vice-presidente da União Astronômica Internacional. E, caso inédito na incipiente pesquisa astronômica do País, duas vezes premiada por instituições internacionais, em 2008, por sua contribuição ao estudo das estrelas.

Disciplinada, quase tímida, sem tirar os olhos do planeta Terra, ela se define: “Fazer astronomia é estar sempre na última fronteira de tudo. Gosto muito e, por mim, vou continuar trabalhando nisso por muito, muito tempo”, disse à coluna, em sua modesta sala de trabalho na USP. Um dos prêmios lhe foi dado pela Illycafé e pela Third World Academy os Sciences, em Trieste, em setembro. Outro, por uma instituição patrocinada pela L’Oréal, em Paris, que ela vai receber em março.

Mas aqui embaixo, no planeta Terra, onde tudo é finito e burocrático e, em viradas do ano, jornalistas a procuram para perguntar sobre horóscopo, sua rotina não mudou. Chega bem de manhã à USP, passa o dia no computador, estudando e trocando emails, ou dando aulas e orientando teses. Em ocasiões combinadas, quando faz pesquisas sobre sua área – ela constrói o que chama de “modelos de populações estelares”, fazendo mapas de gases e metais em estrelas e galáxias – a professora tem acesso a telescópios de fora, principalmente o Gemini, do Chile. Não precisa ir lá: vê as imagens em computador e passa orientações para alguém que, lá no observatório, mexe nos instrumentos.

Quando foi que você começou a gostar de estrelas e ver o céu? Ali pelos 5 ou 6 anos. Eu tinha uma árvore no quintal de casa, nos Jardins. Chegávamos da escola, eu e meus dois irmãos, e de tarde íamos nos acomodar nos galhos. Eu ficava no mais alto, vendo o céu, as nuvens, as estrelas. Isso pode, sim, ter tido influência no que fiz depois.

Daí para a astronomia foi um pulo? Não. Como eu era menina, achava que tinha de fazer humanas. Mas gostava de tudo, adorava matemática e, para fazer astronomia, mergulhei na física. Um dia caiu em minhas mãos um livro que me fascinou e decidiu meu futuro. Chamava-se “Um, Dois, Três, Infinito”, de George Gamow. Era didático, emocionante. Me encantei com o telescópio do Monte Palomar, nos EUA. Era isso que eu buscava.

Havia alguma queda para poesia nesse gosto por estrelas? Não exatamente. É claro que há muita poesia em se admirar uma galáxia distante, mas meu impulso era para o conhecimento. A astronomia é uma aventura fantástica do cérebro. Nela eu me sinto, como todos da área, vivendo na última fronteira de tudo. Quando descobre aquela estrelinha fraquinha, a milhões de anos-luz, mede a distância, a massa, classifica… e parte para outra ainda mais distante.

Mas a rotina de um astrônomo, dizem, é bem terra-a-terra. Fica longas horas em uma sala, fazendo cálculos em computador… Você tem o astrônomo que faz cálculos, de fato. Ele desenvolve a equação, recria toda a estrutura do universo em informação digital. Mas tem o outro, que observa, faz as comparações, imagina, joga pra frente… E a observação, vem ganhando terreno.

É o que você faz? Sim, eu lido com espectroscopia, vejo linhas de abundância de ferro, oxigênio, cal. A gente faz previsões, mede quantidades e volumes, compara com a teoria, vai montando bases para outros avanços.

E aonde isso leva? Ao conhecimento das fronteiras mais distantes – estou falando de corpos a 12 bilhões de anos-luz de nós – ou a avanços concretos de nossa vida, como a revolução das comunicações. Quando alguém se senta numa sala para ver um jogo de futebol ao vivo, lá do outro lado do planeta, ou conversa ao celular com o mundo inteiro não imagina quantos cálculos, quantas órbitas de satélites foram programadas para se transmitir essa imagem ou esse som.

Astrônomo formado precisa de emprego, salário. Como é isso? Não é fácil. A astronomia é uma área que só existe para si mesma. É pequena, o sujeito só tem emprego no governo ou em universidades.Tem gente que faz divulgação, cobra por palestras.

Vivendo entre estrelas e planetas, já lhe perguntaram sobre horóscopo? Sim, vivem perguntando, no cabeleireiro, lugares assim. E dizem que em Aquário, que é o meu signo, dá tudo certo, que é o signo do futuro… Mas tenho horror a tudo isso. Nos anos 90, quando a astronomia “destituiu” Plutão da condição de planeta, os astrólogos ficaram indignados. Divulgaram manifestos, disseram que pra eles não mudava nada…

A revolução na tecnologia mudou muito a sua área? Sim, e como. Computador e internet permitem um acesso enorme ao que fazem os melhores pesquisadores lá fora. A gente troca dados, avança junto. Por exemplo, para a gente fazer pesquisa no telescópio do projeto Gemini, no Chile, não é preciso estar lá. A gente monitora tudo no computador e um operador, lá no observatório, realiza as ações que pedimos. Semanas atrás, no México, uma figura maravilhosa da astronomia, o Martin Rees, afirmou que hoje 95% da astronomia existe graças à tecnologia. Quando se precisa de um telescópio mais potente, todos se juntam para arrumar um jeito de construí-lo. Tem que ser no Pólo Norte? Pois vamos lá fazê-lo. Precisa de US$ 100 milhões? Vamos sair pedindo.

A pesquisa nessa área, no Brasil, é adiantada? Em astronomia não existe ciência de segunda. Ou você faz um trabalho bom ou ele não é publicado em revistas de nível. O Brasil acaba de criar, no Ministério de Ciência e Tecnologia, o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Astrofísica. Sou a vice-presidente dele e lá temos 144 doutores. Mas acho que estamos muito aquém do que devíamos ter como facilidade observacional. Sabemos que o País tem outras urgências.

A propósito dessas urgências: como é, para você, esse conflito entre dar dinheiro para um telescópio ou matar a fome de quem vive na miséria? Ninguém vai ser contra matar a fome. Mas veja, acho que a ciência é a base de tudo. Ela precisa avançar para trazer novas e melhores soluções, mais eficientes e mais baratas para a vida das pessoas.

O que você faz nas horas de folga? Gosta de música, cinema? Gosto muito de música, qualquer gênero, desde que seja boa. De cinema eu gosto mas no Brasil isso ficou muito difícil, prefiro ver filmes em casa. Vou muito ao cinema em Paris, onde tenho amigos astrônomos, que visito com freqüência.

A astronomia vê a Terra como um grãozinho de areia nos confins do ‘universo. O sentimento de insignificância é mais forte no astrônomo? Não acho que a gente seja essa porcaria toda. Acho o cérebro humano uma maravilha. Nunca me passa aquela idéia de “ah, me sinto tão pequenina, desprezível…” A capacidade do ser humano é algo incrível.

Mas o astrônomo mede tudo em milênios de milênios. E sabe que um dia os recursos do planeta vão acabar. Estaremos de partida para outro planeta? Pois é, acabamos de saber que a humanidade está consumindo 30% mais que o limite de reposição do planeta. Claro que é preciso fazer algo a respeito, é gente demais.

Existe vida inteligente fora da Terra? Digo o que dizem outros do ramo. Em nossa galáxia há 100 milhões de estrelas. E fora dele, outras milhões de galáxias. Não é possível que não haja outras vidas. Mas, se houver, estarão tão longe, a bilhões de anos de qualquer comunicação, que é como se não existissem.


Por Gabriel Manzano Filho

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