‘Eu respeito o espaço dos outros’

‘Eu respeito o espaço dos outros’

Redação

14 de dezembro de 2008 | 06h00

Foto: Paulo Giandalia/AE


O homem que traz Madonna ao Brasil não entra em
camarim sem o artista convidar: “Só se ele abrir esse espaço”


Esbarro em Fernando Alterio, às 8 da manhã da terça-feira, saindo da Companhia Atlética, onde ele acaba de treinar. “É agora que você vai me dar a entrevista”, digo. Afinal, desde que foi anunciada a vinda de Madonna o empresário vive espremido entre um compromisso e outro.

O plano inicial da Time4Fun, controlada por Alterio – tendo a Gávea Investimentos, de Armínio Fraga, como sócia – era fazer seis shows com a estrela no Rio, São Paulo, Buenos Aires e Santiago. Eles se transformaram em onze, ante a demanda. “Ela foi muito maior do que esperávamos. Tanto que, no início, tivemos problemas com os acessos simultâneos totalmente fora dos padrões. Nunca imaginamos esse volume. Foi uma barbaridade”, conta o executivo, com ar cansado. Depois de Madonna, o quê? “Segredo”. Tamanho da T4F hoje? “Em 2008, vamos chegar a um faturamento de R$ 600 milhões e mil empregados”.

Madonna estréia hoje no Brasil, no Maracanã. E na quinta em São Paulo, no Morumbi. Aqui vão os principais trechos da conversa:

A negociação para trazer a Madonna foi difícil? Durou em torno de nove meses. O primeiro passo, neste caso e no de outros artistas internacionais de porte, é você convencer que nosso mercado merece ser incluído na turnê. Hoje, a América Latina disputa com Austrália, Nova Zelândia, Ásia e Leste europeu. EUA e Europa estão sempre incluídos. Portanto, a primeira disputa não é tanto para convencer os produtores da turnê, que no caso da Madonna é a Live Nation, a incluir o show na America Latina.

Mas não é rentável atender todos esses mercados? As turnês custam uma fortuna. Os produtores buscam fazer o maior número de shows no menor tempo possível.

Como vocês convenceram a Live Nation? Na realidade, com o nosso dólar a R$ 1,60, tivemos condições de ser muito agressivos nas propostas. Agora, com o real desvalorizado em relação às moedas da Ásia em algo como 37%, perdemos parte do nosso poder de compra. Espero que temporariamente.

A T4fun, então, vai ter prejuízo com esse show? Quando se faz algo desse tipo, antes de sair com os ingressos à venda você tem que ter pago 100% do show. Portanto, pagamos com o dólar antigo. O que eu posso dizer é que hoje, para fazer uma turnê, eu não conseguiria pagar o mesmo que paguei em junho.

Quanto vocês pagaram? Não podemos falar, há uma cláusula de confidencialidade no contrato.

Quanto custou a produção? Ela é dividida entre produção da turnê e produção local. Isso varia muito de uma turnê para outra.
Nessas megaturnês, com Madonna, U2, Paul McCartney, o artista traz palco, som, luz, efeitos, praticamente tudo. Além disso, entra o faturamento da turnê, a sinalização do que se consegue de patrocínio e de bilheteria. E então, os termos de relação entre o promotor internacional e o produtor local.

A Madonna participa da produção? Nós não temos contato com ela, a negociação é toda feita com os produtores. Mas ela é muito detalhista. Cuida desde o figurino até a parte técnica. Por exemplo, ensaia à exaustão. São 650 horas de ensaio.

Um artista talentoso, mas que não tenha uma visão de produto, sobrevive? Na realidade, não é ele, e sim o promotor, o manager do artista, que deve ter essa visão. O artista não tem estrutura própria para viabilizar a produção. A Live Nation opera em todos os países da Europa. Na America Latina, tem um contrato de exclusividade com a Time4Fun.

As pessoas imaginam o showbiz como um ramo lúdico. Isso mudou? Completamente. Essa coisa de ser lúdico, dono de casa de show, é lenda. No meu caso, evito ao máximo ir ao camarim falar com o artista. Quando um artista faz um show em uma casa minha, o camarim é sua casa. Portanto, mesmo que eu seja o maior tiete, eu não invado. Só vou se for convidado. Eu respeito o espaço dos outros.

Quando você entrou nesse ramo, as coisas eram assim? Entrei no ramo também pelo glamour. Mas depois de alguns anos esse glamour passa ser o seu dia a dia. Você tem que se disciplinar para não se montar algo economicamente inviável. Até alguns anos atrás, os produtores iam muito pela vaidade pessoal: “Eu trouxe os Rolling Stones para o Brasil…” Eu não tenho vaidade nenhuma. Quero trazer o melhor do entretenimento para o País, criar ações para os patrocinadores lincados a esses conteúdos. A vaidade fica de lado.

No Brasil, esse profissionalismo funciona? Claro que sim. Montamos um time extremamente profissional, bem como na Argentina e no Chile. Realizamos, no ano passado, algo ao redor de 3 mil apresentações. Temos colaboração internacional e um escritório em Miami para ficar mais perto das negociações.

Hoje, um Tim Maia seria contratado? Cada vez mais, sim. Tim Maia seria contratado pelo virtuosismo dele como cantor. E sempre foi viável. Fiz vários shows com ele.

Mas ele não faltou em nenhum? Faltou em um, por problema de saúde.

É lenda, então, o que se diz dele? Comigo ele sempre teve um comportamento correto, era um grande vendedor de ingressos, um fenômeno.

O artista tem uma sensibilidade maior. Ele não precisa de alguém para pegar na mão dele? Justamente por isso acho que o promotor não deve ir ao camarim. O artista tem que estar concentrado, conversando com os músicos dele. O promotor tem que falar com o empresário do artistas, nossos técnicos com os técnicos dele. Se ele me chamar, vou com prazer. Mas só se ele abrir esse espaço.

Hoje em dia o empresário de entretenimento não vive mais na noite? Essa confusão sempre existiu. Achavam que era algo tipo dono de boate. Na verdade, sempre fomos empresários que “acontecem” à noite mas que trabalham de dia. Eu sempre fui focado na gestão do negócio, no patrocínio. Começo às 8 da manhã e trabalho, muitas vezes, até as 22 horas. Além de assistir às estréias. No caso da Madonna, fui a Buenos Aires e estou indo a Santiago.

Se você tivesse que começar de novo, escolheria outro ramo? Não. Porque fui muito bem sucedido neste.

Qual é a diferença entre um empresário de entretenimento e de um fabricante de máquina de lavar roupa? Depende. Se você gosta de música, shows, cultura é muito bom trabalhar com esse tipo de produto. Você está lidando com gente, sensível, talentosa. Toca um negocio onde lida com seres humanos muito especiais. É uma dupla atribuição – lado businness e o lado humano do negócio.

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