‘Estou mais interessado em fazer séries de televisão do que cinema’

‘Estou mais interessado em fazer séries de televisão do que cinema’

Direto da Fonte

02 de fevereiro de 2015 | 01h00

Foto: Marcos Arcoverde/Estadão

Na direção geral de Felizes Para Sempre, Fernando Meirelles conta como está cada vez mais interessante produzir conteúdo, com audiência garantida, para a telinha.

Um dos principais nomes do cinema brasileiro, Fernando Meirelles está mais entusiasmado em dirigir séries para a televisão do que longas-metragens. Entre as muitas razões, ele cita a tecnologia da TV – que mudou e, hoje, permite ao diretor uma margem maior de criação cinematográfica –, a dramaturgia que está melhorando e o fato de que, na telinha, a audiência é garantida: “Os filmes de que gosto ou quero fazer são um fracasso de bilheteria. E todos os filmes que são um sucesso não aguento ver. Acho que virei um animal estranho dentro do cinema”, afirma o sócio da O2.

A mais recente empreitada de Meirelles na TV é a série Felizes para Sempre, da qual é diretor geral, dividindo os episódios com Paulo Morelli e Luciano Moura. Os personagens e a trama do folhetim – no ar pela Globo – dominaram as redes sociais na última semana, chegando a figurar em 4º lugar no trending topics mundial do Twitter.

Mas não é só com o cinema que Meirelles anda desanimado. A política também cansou um pouco o diretor – que apoiou Marina Silva nas últimas duas eleições. “O Brasil votou no mesmo; me desanimei até de bater em político”, desabafa.

Nas horas vagas, ele se dedica a plantar árvores. Perto de sua casa – como havia feito na véspera desta entrevista – e em fazendas nas quais põe em prática seu hobby. Árvores são o que ele chama de “minha paixão”. A propósito, a questão do meio ambiente e a crise hídrica também serão temas de filme a ser lançado em março pela O2, do qual ele é produtor. Título? A Lei da Água.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como aconteceu a série Felizes para Sempre?

A O2 tem um acordo de coprodução com a Globo – nós propomos projetos e eles compram ou não. Assim fizemos Antônia, Som e Fúria e Cidade dos Homens. Desta vez foi diferente, eles mandaram o roteiro me convidando para dirigir e produzir na O2. Li o texto, me surpreendi, porque é um gênero do qual nunca tinha tratado. Mas gostei muito da trama, dos personagens, dos diálogos e resolvi experimentar. Só tinha uma condição pra topar.

Qual?

No roteiro original, a história se passava em Niterói e no Rio, mas eu não queria fazer lá. Atualmente, com tantas obras, está muito difícil circular pelo Rio de Janeiro. Além do que, o Rio é tão usado em novelas que é quase impossível surpreender. Se você vai a Ipanema fazer aquele Morro Dois Irmãos, por exemplo, você olha na calçada e já tem até o furinho com o lugar certo para colocar o tripé. Enfim, sugeri fazer em Brasília. O Euclydes (Marinho, autor da série) não quis, mas fui muito teimoso. Ele acabou concordando.

O modelo de direção conjunta funcionou a contento?

Na O2 nós somos 14 diretores. Então, em praticamente todos os projetos – exceto os longas – formamos turmas para dirigir. O bom disso é que, como cada um tem uma expertise, você acaba pegando contribuições valiosas. Nesse caso, o Paulo Morelli, meu sócio, que conhece muito dramaturgia e trabalha com roteiro o dia inteiro, deu uma enorme ajuda para fazermos os cortes e os acertos que precisávamos fazer, já que os roteiros estavam longos. Claro que tudo que fizemos foi revisado e aprovado pelo Euclydes depois.

Alguma coisa das filmagens o impressionou?

Teve um troço meio mágico, que foi o encontro desse elenco e equipe. Isso não é muito comum. A gente montou um time inteiro e não tinha o tradicional “mala”, sabe? (risos). Houve uma química muito grande entre todos. Ficou todo mundo isolado em Brasília, saía todo mundo pra jantar junto… Enfim, sabe quando você sai de férias com um grupo de amigos? Aconteceu essa magia aí. Assim, até hoje o grupo do WhatsApp está ativo.

Isso acaba se refletindo no resultado final?

Acho que sim. Estavam todos tão envolvidos, que isso acabou facilitando as cenas mais difíceis. Tem muitas cenas de sexo – porque é o tema, né? O desejo, a paixão… E, muitas vezes, é difícil para o ator. Acho que essa proximidade ajudou. Tudo era feito com brincadeira, no jantar fazia-se piada sobre um ou outro constrangimento no set, e isso ajudou muito. Aliás, fazer esse tipo de cena também é difícil para o diretor. É sempre um pouco constrangedor. Mas, por causa dessa relação, ficou leve.

Gosta de fazer série? No que é diferente de fazer um longa?

Para falar a verdade, atualmente estou gostando mais de fazer série do que longa. Primeiro, porque os filmes de que eu gosto ou quero fazer são um fracasso de bilheteria. E a maioria dos filmes que vão bem de público não aguento ver até o final. Não só filmes brasileiros, estrangeiros também. Ou seja, acho que virei um animal estranho dentro do cinema, meu gosto parece que não se adapta mais à bilheteria, apesar de nem ser tão radical assim.

Por quê?

Trabalhar dois, três anos, para fazer o que você gosta e chegar lá na ponta e ser um fracasso é desanimador. Já com as séries estou cada vez mais entusiasmado. Não só por saber que vai ser assistida, mas também pela dramaturgia. Atualmente, todo filme que vou assistir se parece com algum outro que eu já vi antes. Não sei se fiquei velho e já vi muito filme. Já a série tem uma coisa interessante: por ser muito longa, permite maneiras mais complexas de estrutura de roteiro, personagens mais aprofundados, tramas mais complexas.

Isso ocorre na direção?

Sim. Em um longa, você consegue desenvolver três personagens, porque não dá tempo. Na série, você pode ter 12. E como os formatos possíveis não foram tão percorridos ainda, tem muita coisa a ser inventada. Ou seja, estou muito mais interessado em fazer séries para a TV do que longas.

Você assiste às séries estrangeiras? Acha que os profissionais estão mais interessados em fazer TV também lá fora?

Assisto. As séries existem há 30 anos. O que mudou foi a tecnologia. Na televisão de baixa definição, você tinha de se apoiar nos diálogos, usar mais close, não podia fazer um plano geral longo. Agora, as câmeras usadas para fazer TV são exatamente as mesmas do cinema, é possível confiar e apostar nas imagens para contar sua história. Esta série que fazemos agora é um exemplo.

Por isso essa migração do mercado do cinema para a TV?

Creio que sim. Com a qualidade boa de imagem e de som, ficou interessante fazer televisão. Agora que, tecnicamente, estão próximos, é como se o longa-metragem tivesse virado um conto, que se lê numa sentada, e a série tivesse virado um romance. Sem nenhum demérito para o conto, claro. Estão aí o Machado de Assis ou o Guimarães Rosa para confirmar.

O que acha do decreto que estabelece a “Cota de Tela”, em que salas de cinema terão de exibir filmes nacionais?

Importantíssimo. Cinema e TV são formas de expressão da nossa cultura. Temos de ter a nossa identidade. Não podemos ser solapados pelo que vem de fora. No começo, todos os canais reclamaram da cota para a TV, evidentemente, porque tiveram de investir para produzir. Agora está todo mundo feliz, porque os programas brasileiros dão ótima audiência no cabo. E para o mercado foi uma maravilha. Hoje, um moleque sai da escola de cinema e, se tiver algum talento, está empregado. O mercado está muito aquecido e tenho certeza de que o Brasil vai ter um cinema muito mais forte em uns 10 anos.

Falando em bilheteria, o que você acha da “comedialização” do cinema brasileiro?

A comédia tem uma função. Eu não sou um fã, mas acho importante, porque é o que leva o público a ver filme brasileiro. E, na verdade, as comédias não estão disputando espaço com o drama brasileiro. Estão disputando espaço com os super-heróis americanos. Ao menos nessas comédias o espectador vai ver atores locais, a piada local, o jeito local. Essas comédias são importantes para o mercado, fortalecem as distribuidoras brasileiras. Têm esse mérito.

E o seu projeto de filmar Grande Sertão: Veredas? 

Esse projeto está engavetado. Continuo com a vontade, mas é um desses casos em que não vale a pena fazer. Pelo tamanho da produção e do esforço, tinha de ser um filme para ser visto por pelo menos umas 800 mil, um milhão de pessoas. Não acho que um milhão de brasileiros vão querer assistir a uma história no sertão sobre um personagem que conta e reflete sobre sua vida. Está lá guardado. Mas tenho outro projeto na mesma linha, um épico. Esse boto mais fé que consiga fazer, por ser mais popular.

Que projeto é esse?

Chama-se Um Defeito de Cor. É uma adaptação de um romance da Ana Maria Gonçalves, historiadora, sobre a saga de uma menininha de 7 anos, que é capturada em Benin, vem em um navio negreiro, é vendida em Itaparica, vai para um engenho e depois se muda para Salvador, vai até comprar sua alforria etc. É uma história muito importante de ser contada, porque fala da origem de 50% da população brasileira que estuda as guerras napoleônicas na escola, mas não sabe de onde vieram seus antepassados. Tínhamos os direitos e propusemos para a Globo – mas a emissora achou que era caro, não topou, e os direitos acabaram expirando. Agora a Globo comprou e está querendo produzir. Estou fazendo aquela pressão, porque sei que há outros diretores interessados. (risos) Mas mesmo que não seja eu o escolhido para dirigir, vou gostar muito de ver essa história num canal aberto.

E um filme que fale sobre a política brasileira? Não tem vontade de fazer?

Pensei por um tempo em fazer um documentário sobre o Congresso. Não sobre políticos, mas sobre a função do Congresso, como funciona. Depois, acabei perdendo o interesse. Essas últimas eleições mudaram muito a minha cabeça. Instalou-se um vale-tudo na campanha. Vale mentir, vale caluniar, vale fazer acordos… A um ponto em que me desconectei. Não me interessavam mais os discursos, pois não acreditava em nada. Parabéns para os marqueteiros, eles conseguiram. Eu achava que estava na hora de darmos uma trocada de ciclo, acertar o rumo, mas, mesmo com tudo exposto, o Brasil votou pela continuidade. Então, me desanimei, me desanimei até de bater em político. (risos) Acho muito fraco este ministério, mas agora fico quietinho. O João Santana me processou, para me calar a boca, e conseguiu.

E a questão da água? Você tem tuitado sobre o assunto. Não pensa em fazer um filme a respeito do tema?

A O2 vai lançar, em março um documentário chamado A Lei da Água, que fala sobre a importância das florestas para a produção e a circulação da água. Foi dirigido pelo André D’Elia, que ouviu muitos cientistas e técnicos. Um trabalho que foi muito bem feito e apoiado por muitas ONGs.

É pessimista também quanto a isso?

Sobre a água? Sim. Acho que vamos viver os dois piores anos da nossa história. Fábricas fechadas, safras quebradas, escolas em recesso, certamente haverá saques, o mercado deve entrar em pânico. Acho que os governadores estão irresponsavelmente lentos para dar uma resposta enérgica à situação. A Cantareira vai secar em abril, isso é fato, 6,5 milhões de pessoas abrirão suas torneiras e não terão água. Quem sabe dá-se um jeito até agosto, mas… e depois? Para onde vão essas pessoas? Que secretaria do governo está trabalhando no planejamento da crise que se anuncia? Deve haver um plano. Espero. /MARILIA NEUSTEIN

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.