Rosangela Moro escreve livro sobre um ano e quatro meses do marido no governo Bolsonaro

Rosangela Moro escreve livro sobre um ano e quatro meses do marido no governo Bolsonaro

Sonia Racy

06 de julho de 2020 | 00h50

ROSANGELA MORO – FOTO: KELLEN MADU

Rosangela Wolff Moro está aproveitando a quarentena para adiantar páginas do livro que escreve sobre o período um ano e quatro meses em que o marido, Sergio Moro, esteve à frente do Ministério da Justiça. E, assim, ela justifica não se aprofundar em avaliações sobre o governo Bolsonaro – nome que, aliás, a advogada não pronunciou uma só vez nesta entrevista por videochamada de WhatsApp à repórter Cecília Ramos. “Tô escrevendo pra dar a minha percepção desse período”, conta a advogada. É a primeira vez que ela fala publicamente após a demissão de Moro, em 24 de abril.

O ex-juiz da Lava Jato apareceu no vídeo rapidamente apenas para dar atenção à yorkshire da família, recém-operada de um tumor. O casal Moro está recluso com os os dois filhos em Curitiba, cidade que voltou a ter restrições mais rígidas pela covid-19.

Enquanto ele cumpre também uma quarentena profissional imposta pelo Conselho de Ética da Presidência da República – não pode advogar por seis meses, mas mantém salário de ministro nesse período –, ela prepara a estreia de projeto-piloto do recém-fundado Instituto Rosangela Moro. A logomarca é um M com cores da bandeira do Brasil.

E, amanhã, ela fará uma live com o fundador da Casa Hunter, Antoine Daher, sobre doenças raras, causa em que ela advoga há 11 anos, para divulgar seu livro Doenças Raras e Políticas Públicas – entender, acolher e atender. Centenas de exemplares já haviam sido distribuídos pela Matrix Editora nas livrarias quando decretou-se o isolamento social, e ela suspendeu os eventos de lançamento em SP, Curitiba e Brasília. Pretende retomá-los.

Apaixonada por direito tributário, a advogada, 46 anos, casada há 21 anos com Moro, faz uma pausa antes de responder quando indagada se topa entrar para a política. “Eu poderia estar fazendo mais, mas eu já me vejo contribuindo com o País desta maneira, sabe? (com as Apaes, Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais). Não tenho vontade de seguir carreira política. Já até fui convidada”. A seguir, os principais trechos da conversa.

Você fundou recentemente o Instituto Rosangela Moro. O que planeja?
Bom, o meu projeto de 2020 era o livro sobre doenças raras no primeiro semestre, e o Instituto no segundo. Aí veio a pandemia. Com isso, por meio do Instituto, usamos uma fábrica ociosa do Grupo Malwee pra produzir EPIs, fizemos milhares de doações e mantivemos empregos. Mas, assim, não é o objetivo (do instituto), foi circunstancial.

E qual é?
Projetos de inclusão social, com resultados. A gente vai começar a operacionalizar um deles, acho que dentro de 30 dias. Estamos esperando só assinar com a prefeitura para poder usar o espaço da Casa da Mulher Brasileira do Paraná. Chama Projeto Reação. É como se fosse um ‘alcoólicos anônimos’ para agressores contra a mulher. Temos 20 profissionais no projeto piloto, e vamos oferecer o curso em 10 dias, para um grupo de 15 homens agressores, monitorando pra ver se teve reincidência. Não sou grande conhecedora da Lei Maria da Penha, mas sei que mulheres em situação de violência precisam de suporte. Então vamos começar em meio à pandemia, porque a agressão não para.

Como vai ser para bancar o instituto?
Ah, é importante dizer que esse Instituto não vai receber dinheiro público, tá no estatuto. E também não queremos gente com vinculação política. O Reação é com voluntários. O Instituto vai ter um site, com proteção de dados, então lá, quem quiser, vai poder doar.

Seu engajamento na pauta das doenças raras, como começou?
Em 2009, quando fui procurada no Paraná pela Federação das Apaes. Estavam precisando de assessoria jurídica. Me deparei com esse universo de política pública, que vai muito além da burocracia do dia a dia. Me apaixonei pelo assunto. Em 2016, viajei com famílias pela Associação Niemann Pick (nome de uma doença neurodegenerativa) para Toronto, no Canadá. Você sai de lá assim: ‘Eu não tenho problema na vida, minha vida é maravilhosa’. E é como se você fizesse parte de um grupo de autoajuda, energia muito boa.

Que trabalho, exatamente, desempenha?
Em 2010 comecei a ser procurada para entrar com ações para conseguir, por exemplo, medicamentos caríssimos, tem caixa que chega a custar R$ 22 mil. Tenho ações até hoje. Em 2012, uma mãe, a Cássia (Villen), me procurou para ajudar outras famílias. A filha dela, Renata, foi diagnosticada aos 12 anos com Niemann Pick-C. (No livro, Rosangela conta como ficou impactada pois imediatamente pensou na sua própria filha, que tinha a mesma idade). Aí eu comecei a pedir (os remédios) na via judicial. Mas tem o lado negro, dark side, dessa história da judicialização da saúde. Então, assim, como envolve muito dinheiro, nem tudo são flores… Eu sempre tive um cuidado de pedir perícia médica nos processos.

No seu livro, tem o capítudo “Políticas Públicas (in)existentes para doenças raras no âmbito do Poder Legislativo”. Que crítica faz a esse Poder?
No Legislativo não tem nada, não tem uma lei. Isso devia ser um plano no País. O que existe é uma portaria de Executivo de 2014. Só que assim, é tudo muito lento, quando você tá conseguindo algum avanço, aí tem eleição, troca todo mundo. Entrou 2019, fui numa audiência pública (no Senado). E eu conheci o fundador da Casa Hunter (o libanês Antoine Daher), que é pai de um menino com doença rara (mucopolissacaridose). Falei: ‘vamos entrar juntos nessa?’ Daí surgiu o livro Doenças Raras e Políticas Públicas – entender, acolher e atender. O livro não é a visão da Rosangela, é uma compilação do que já fizemos até aqui e como avançar nesse debate.

Agora falando de sua formação profissional, que é advocacia, qual sua expertise?
Direito Público. E de todos, o que adoro, é tributário. O que eu adoro é assim: pegar um caso difícil, solta o processo na minha mão, eu me fecho, me concentro e vou achar uma linha de raciocínio.

Quanto à saída de Moro do governo, em abril, como impactou profissionalmente você?
Minha vida profissional guarda muito pouca relação com a dele. A única coisa em comum é que os dois têm a formação em Direito. Enquanto juiz, no últimos anos, ele estava na área criminal, eu não advogo no crime.

Queria saber como o bolsonarismo afetou vocês, pois o grupo tem discurso forte quando identifica um suposto ‘inimigo’ – no caso, Moro foi tachado de ‘traidor’ por eles…
(Moro interrompe a entrevista para falar com a mulher). O Sergio está indo no banco. Sobre essa parte de saída dele do ministério, estou escrevendo (um livro) e eu não quero dar entrevista, falar sobre isso e por esse motivo resolvi escrever. Então tô escrevendo, trabalhando pra dar minha percepção sobre esse período. Até pelo contrato com a editora (Planeta) eu não posso contar. Até me desculpo… E não temos data ainda (do lançamento).

Repercutiu muito quando Moro tuitou que “a Lava Jato está sob ataque”. O que pensa a respeito?
As pessoas não toleram mais corrupção. E a gente vê até em épocas de covid, vê que (dinheiro público) tá sendo desviado (operações da PF no País apuram desvio de recursos no combate à pandemia). Eu acho assim, a Lava Jato pertence à sociedade e a sociedade tem que ficar alerta e cobrar das pessoas que ela elegeu. O que eu posso afirmar é que a Lava Jato não é Sergio Moro, a Lava Jato é a instituição trabalhando pelo bem do País e pertence à sociedade.

O que acha do foro privilegiado, que voltou ao holofote esses dias (Flávio Bolsonaro ganhou foro, no caso das ‘rachadinhas’, e Carlos Bolsonaro perdeu o benefício, em caso que investiga supostos funcionários-fantasmas)?
Ah, isso é um retrocesso.

Você apoiou algum movimento que surgiu recentemente, em defesa da Democracia, como o Somos 70%, tido mais amplo?
Não.

E como se define ideologicamente, direita, conservadora…?
Eu me defino assim: ponderação, bom senso.

Há apelos para você entrar na política. Também é citada como primeira-dama por ‘moristas’, por causa de eventual candidatura de Moro a presidente. Como recebe isso e qual é o seu desejo?
Eu, na minha advocacia privada, e com meu trabalho com as associações, eu poderia estar fazendo mais, mas já me vejo contribuindo com o País dessa maneira, sabe? Não tenho vontade de seguir carreira política. Já até fui convidada, mas não sou filiada a nenhum partido. Não me vejo em política, não. Acho simpático, mas não passa pela minha cabeça disputar.

Você costuma usar com frequência o Instagram, como é sua relação com as redes sociais?
Eu acho que a vida está muito polarizada. Eu não sei se a vida está polarizada e reflete na rede ou se a rede está polarizada e reflete na vida. Eu tenho Twitter, mas não posto nada, uso pela facilidade de ler as notícias. E vejo os haters… As pessoas têm o direito de se manifestar, então quando você publica algo na rede social você, querendo ou não, se expõe. E daí tem os meiguinhos, os não meiguinhos, têm os que odeiam pouco, os que odeiam muito (risos).

Então lida bem…
É a consequência. Se você não está preparado para ouvir algo que não te agrade, é melhor não colocar. Agora na rede social, coloco minha preocupação grande com a covid-19. Sempre defendi o isolamento pra quem pode. A gente tem que ter consciência coletiva. Então, custa usar máscara? Não custa! Não pode ser normal ver 60 mil pessoas mortas.

Quando indagado sobre as mortes por covid-19, Bolsonaro respondeu: “E daí? Lamento”… Poderia comentar?
(Faz pausa e respira fundo). Não tenho nem palavras.

Com a saída de Moro do governo, sente mais à vontade para externar sua opinião?
Sim…eu penso, né? Eu vejo o quanto as pessoas lutam por saúde mesmo, com essa experiência (das doenças raras). Então eu fico arrasada vendo esses números. Eu não consigo ver com naturalidade isso, sabe? Tô bem assustada. Eu não via minha mãe de 84 anos desde o dia 3 de março. Eu falava, mãe, você não vai lá pra casa, porque eu tinha medo. Aí ela só veio pra cá depois, quando o Sergio não estava mais indo e vindo (Brasília/ Curitiba). Tanto que o Sergio chegava eu falava, ‘você vai dormir no quarto de hóspedes’. Ele testou negativo. Aí depois (da demissão), ele fez quarentena (em casa). Daí minha mãe ficou com a gente dez dias.

Pelo aspecto familiar, vocês estão agora ainda mais unidos, em casa – por conta da pandemia e também pelo fato de o ex-ministro não precisar mais ir a Brasília -, como tem sido?
Está uma delícia. Tirando a parte da pandemia e das negações, que a gente não fica feliz em ver os números… A gente só briga pela internet pra saber quem vai ficar com o melhor lugar da casa (com wi-fi).  Esses dias eu me tranquei dentro do bar porque cada um já estava num canto. E pra cada um não incomodar o outro. Nossos filhos estão com aulas online (preferiu não dizer nomes e idades por segurança). Aqui em Curitiba já teve a fase de flexibilização, voltou a fase mais restritiva. A mais velha vai pra atividade curricular dela. E pra minha área, do Direito, apareceu, na pandemia, muita regulamentação, muita lei pra interpretar. E nesse ambiente das Apaes, que prestam atendimentos, tinha muita coisa pra ver. Foi uma loucura até organizar e orientar todas as Apaes, sobre o que abre, sobre o que é essencial…

Quanto à divisão de tarefas domésticas, na quarentena, como fica aí na sua casa?
Todo mundo colabora, sem moleza. Adoro cozinhar, gosto de fazer risoto. E eu tenho uma pessoa que trabalha com a gente, a Linda, mas eu a chamo de ‘Maravilhosa’. Ela mora na nossa rua, está com a gente há um tempão. Aí ela continuou a vir nos ajudar aqui. Ela não usa transporte coletivo, os filhos também estão em casa e online, então a gente achou que não foge aos critérios de segurança, pra ninguém. Eu tenho saído de casa só pra ir pro mercado e ao escritório.

Reconhecem você na rua?
Os curitibanos, sim, muito, mesmo de máscara. São todos gentis (na abordagem). E, de forma geral, eu nunca fui antipatizada, nunca gritaram comigo. Os haters estão na internet. Quando abordam, falam: ‘Manda um abraço pro Moro’.

E na parte de lazer, o que tem feito?
Ah, a gente vê filmes, series… Tem uma série que eu vi, com o Sergio, é This is Us, também gostei, é uma gracinha, despretensiosa, e todo mundo se vê numa série família. E tem uma série que eu já vi duas vezes: “O tempo entre costuras” (adaptação da obra de Maria Dueñas). Eu amo. Aquilo que é feminista (a personagem Siri Quiroga). Ela enfrentou tanta dificuldade e que a gente meio que se vê, e pensa: ‘Nossa que raçuda que ela é’. Tá na Netflix, é uma serie fechada, com uma temporada de 17 episódios, daí você não fica lá sofrendo ‘ai, quando vem a próxima temporada’.

Você se define feminista?
Sim. Sou defensora de todas nós. Minha equipe é toda feminina. Não tenho meninos trabalhando no escritório.

Consegue tempo para ler um livro, ou pode indicar algum que te marcou?
Como eu estou com muita leitura e escrevendo (o livro sobre Moro no governo), né? Também escrevi um texto Quando eu vou dar um tempo, eu tenho optado pelas séries. Mas tem um livro que comecei a ler agora e tô achando interessante, é Golpes Bilionário$ – Como os maiores golpistas da história enganaram tanta gente por tanto tempo (de Kari Nars, que analisa dez famosas fraudes financeiras).

Iniciamos o quarto mês de quarentena, como está a cabeça?
Eu tô num ponto que eu tô achando que a gente vai ter que, sem a vacina, viver o que a gente vive hoje como uma regra: usar máscara, não se expor, não aglomerar.  A gente está longe de abrir tudo. E, em Curitiba, voltamos a ter mais restrições… Acho o trabalho online (home office) sensacional. Só isso você tem mais qualidade de vida, você não perde tempo no trânsito. Na minha concepção, se tivesse parado tudo lá atrás, no começo… Mas isso não aconteceu. Talvez fosse utópico da minha parte. Ninguém parou. Tem que ter otimismo, mas eu tô me preparando mentalmente pra ficar mais um ano e meio até que a vacina venha pra deixar as pessoas mais tranquilas.

Da sua reflexão na pandemia, qual legado vê nisso tudo?
Acho que tudo a gente tem que aprender uma lição. A gente não precisa de tanta correria, de tanta pressa, de se cobrar na profissão a ter que ir naquele congresso, naquele lançamento… A lição que eu tiro é: temos que ter mais tempo pra gente, pra nossa qualidade de vida, ficar mais com os filhos. Nessa vida que estávamos, profissionalmente, de Brasília, Curitiba, você começa a trabalhar e não para mais. A gente, tendo oportunidade, tem que começar a dar mais valor ao que realmente importa. São as pessoas, os vínculos, as convivências. Esse é o legado que eu tiro.  Perdemos muito tempo com coisas que não importam.

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