‘Esteja presente 100%, sem divagar em outro planeta’, diz Zentchu, discípula de Monja Coen

‘Esteja presente 100%, sem divagar em outro planeta’, diz Zentchu, discípula de Monja Coen

Sonia Racy

02 de maio de 2021 | 00h45

Monja Zentchu. Foto: Edvaldo ArmelliniA venezuelana Diana Silva, nascida em Caracas, chegou ao Brasil em 1998 para estudar massoterapia oriental, no Rio de Janeiro. Na época, ela era pianista e tinha os dedos machucados. De lá para cá muita coisa mudou e hoje ela é Zentchu, discípula e braço direito de Monja Coen. “Foram três anos que fazia tudo para ela, até ser aceita como monja”, diz Zentchu, que quer dizer lealdade ao zen.

Para a coluna, a monja conta um pouco de sua trajetória, cheia de provações e como aplicar os preceitos budistas, do estar presente no aqui e agora, em tempos pandêmicos. Confira os melhores momentos da entrevista, feita por telefone, a seguir.

Como virou monja?

Conheci minha mestra, Monja Coen, há 18 anos, passeando com meu cachorro na rua. Fui falar com ela, peguei seu cartão e comecei a frequentar o seu mosteiro. E fui praticando, comecei a ficar cada vez mais no mosteiro, recebi os preceitos leigos, até que um dia eu disse que queria ser monja, e ela, por um tempo, me disse que não, me colocou à prova. Eu já morava com ela na comunidade, fui assistente, motorista, passeava com o cachorro, dava banho no cachorro, costurava a roupa dela, preparava a comida, limpava, que é o que faz um discípulo quando está sob a vigilância, os cuidados do mestre, ela tinha que me conhecer.

Quanto tempo ficou exercendo essas funções?

Foram três anos até ela me ordenar. Hoje, as pessoas querem começar por cima e não é assim. Não sei quem é você, não sei sua vida, a sua prática, não sei se realmente é isso ou simplesmente um adorno a mais na sua vida, sabe, que ser monge dá prestígio. Que nada. Depois de um tempo eu disse que queria ir para o Japão. E logicamente a resposta foi de novo não. Eu não vou te mandar pro Japão, eles vão te destruir, ela falou. E eu teimei, teimei, teimei, até que um dia ela disse sim. E foram quatro anos em Nagoya, no Mosteiro Aichi Senmon Nisodo, com a mestra dela, Shundo Aoyama Roshi, uma sumidade budista, uma eminência.

O que podemos tirar de bom da pandemia?

O budismo fala sempre em estar presente. É pegar o bonde andando, pega e sobe, porque você não sabe se esse bonde passa depois, ou se você vai estar aí quando ele passar de novo. Esteja presente na sua vida, mas nesse instante. E quando a gente diz vida, o que é? O aqui e agora. Nós tendemos a divagar, a ficar em um planeta que chamo de ‘maioneseland’. O treino budista é você ver que está saindo da sua vida, do seu propósito, de estar vivo e firme só no que você está fazendo nesse instante e se voltar 100% pra ele.

Existem técnicas que ajudam a voltar ao aqui e agora?

Sim, temos exercícios respiratórios, inspira e expira quanto estiver muito nervoso, vê que a coisa está fugindo, escapando do seu controle, inspira, expira e volta. Volta pra sua vida. Existe o zazen, que é a meditação. Faço todos os dias, há mais de um ano, às 18 horas, no meu canal de Instagram, @zentchu, estão todos convidados.

Acha que esse modelo de meditação virtual vai continuar no pós-pandemia?
Com certeza. Tenho pessoas na Inglaterra, na Itália, na França. Quando sonhei com isso? Pessoas por todo o Brasil, que nunca teriam a possibilidade, seja por problemas financeiros ou de trabalho, que não poderiam vir pra São Paulo pra praticar. Então isso tem sido um instrumento maravilhoso de transformação em lugares onde não teriam a menor possibilidade.

O que acha do termo “novo normal”?

Discordo completamente. A realidade é como ela é. Não temos a capacidade de enxergar como ela é porque tem muitas deturpações, o que chamo de temperos emocionais. Você vê uma chuva, se está apaixonado, enxerga como algo romântico, que traz memórias boas. Já a mesma chuva pode te deixar de mau humor, porque comprou um sapato novo e não quer estragar. Mas no fim a chuva é simplesmente chuva, é água que cai do céu. É isso. Nós que colocamos filtros para interpretar a realidade, e ela simplesmente é como é.

Ninguém está só feliz ou só triste, a vida é feita de momentos…

Mas sempre existe o que o Buda chama de o caminho do meio. É o caminho do contentamento. Então os monges querem que a gente esteja rindo o tempo todo? De jeito nenhum. Contentamento é estar presente infinitamente grato por estar e ser. Simplesmente. Independentemente da situação. Pode ser na doença, quanto na saúde. Porque senão você continua com a mente dividida. /SOFIA PATSCH

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.