‘Este é um país desesperador’

Redação

02 de novembro de 2009 | 07h50

Não faltam batalhas para Emanoel Araujo. Às vésperas de completar 69 anos, ele preserva uma energia de criança, abrindo frentes na arte, no movimento negro, em São Paulo, na Bahia e no mundo. Ora como escultor, ora como militante ou exercitando as artes de curador à distância. Mas o que o Brasil lhe ensinou é que querer não significa poder – e a energia dá lugar, às vezes, ao desalento, a frases cortadas, a um olhar aflito. “Imagine que, depois de 50 anos fazendo arte, você chega a um guichê e lhe pedem que mostre o diploma de artista!”, desabafa. “A gente se empenha em campanhas, em ações afirmativas, acha que a coisa está melhorando e percebe, ao fim, que continua tudo no mesmo lugar. Aqui, resolver problemas consiste em falar deles, nada mais. Este é um país desesperador”.

Mas, no agito da conversa, lá do fundo emerge o espírito de guerreiro e o desânimo cede lugar à disposição. Ele revela então que acaba de montar no Museu Afro Brasil, no Ibirapuera – do qual é diretor -, a exposição Sonhos e Utopias pela Liberdade, com obras que em seguida serão doadas ao Museu de Solidariedade, no Chile. Desce aos detalhes de outras iniciativas em Salvador e promete uma surpresa para 20 de novembro: uma exposição sobre Barack Obama em São Paulo – talvez a primeira do gênero, desde sua chegada à Casa Branca.

Esse ar cansado e aflito é pelo excesso de trabalho?
Não, é porque no Brasil tudo conspira contra qualquer tipo de organização. Não se consegue mover a engrenagem. Você programa um projeto e ele só acontece uns três ou quatro meses depois, e com outra cara.

Você tem projetos parados?
Neste momento tenho uma exposição de minhas esculturas no Museu da Bahia. Cuido também de concluir o Museu Rodin de Salvador, que eu mesmo propus, o primeiro sobre o escultor na América Latina, aberto na semana passada. No fim de novembro faremos uma exposição da arte do Benin na Bahia. Mas é tudo tão lento, as coisas andam tão devagar…

Também está a caminho uma exposição sobre Obama. Como vai ser?
Chama-se “Eu Tenho um Sonho, uma Saga Negra do Norte”. Pretendemos abri-la no dia 20. Com ela, queremos não só homenagear uma personalidade negra de projeção mundial, mas destacar as relações entre negros dos EUA e do Brasil.

Que coisas em comum serão ressaltadas entre os dois?
Os negros de lá e de cá se aproximam na vivência da diáspora, da escravidão, na música, no esporte. Queremos mostrar como as ações afirmativas foram cruciais para melhorar a vida do negro americano. E há, claro, um propósito político, que é tentar fazer o brasileiro perceber que isso existiu e foi fundamental para que hoje eles tenham lá um presidente negro.

Já tivemos um presidente negro no Brasil.
Sim, Nilo Peçanha. Mas ele nunca se assumiu como negro porque naqueles tempos não havia condições para tal. Mas o cerne da questão é levar a mensagem de que precisamos de políticas públicas para a igualdade racial e cultural.

O sr. tem batalhado para dar espaçoà arte dos negros brasileiros. Afalta de patrocínios para ela é maior? Patrocínio já é difícil para qualquer tipo de arte. Para esta, então… E eu sei o que digo. Pois quem retomou esse tema fui eu, quando estava tocando a Pinacoteca. Apareceram grupos, como o Banco Safra, que na época investiu mais de US$ 5 milhões. Também a Telefonica, o Ministério da Cultura… Na ocasião, o ministro Francisco Weffort destinou uns US$ 4 milhões para a reforma do prédio. Mas são exceções.

Não está melhor hoje?
Não. Fala-se hoje de mais participação, mas nossa cultura, por tradição, se resume no falar. Decisões não saem do papel, soluções não entram no cotidiano. O que vemos é que o Brasil não incorpora, nem as questões negras nem as artísticas. Aí a favela vai crescendo, tomando conta, e virou essa desgraça que é hoje. Quando até na novela uma atriz como a Thais Araujo diz que seu personagem, no roteiro, o autor não imaginou como uma modelo negra…

O sr. deixou a Pinacoteca em 2005, mas acompanha o que ela faz. Acha que estão continuando o seu trabalho? Não. Acho que ela partiu para outra rota. Eles se desviaram de uma certa psicologia da Pinacoteca.

De que desvio está falando?
Creio que a Pinacoteca deveria dedicar-se às questões da arte do século 19 e início do século 20 em São Paulo e no Brasil. Para discutir a arte contemporânea existem outros lugares. Mas o que se percebe é uma ânsia de todo mundo querer ser up-to-date. Ora, os museus precisam, hoje, ter uma tipologia definida – a arte contemporânea, a moderna, o século 19, cada um em seu contexto trabalhando um conjunto de propostas. É o que se faz lá fora.

A exposição de Matisse e da arte francesa na Pinacoteca lhe parece inadequada?
Não se trata disso. Até caberia. Mas temos aí uma questão oportunista: as coisas que precisam atrair público. Como o museu foi restaurado, ganhou projeção nacional e internacional, fica sujeito a essas injunções de fora. E olhe, não estou aqui fazendo críticas à Pinacoteca, o que vejo é um problema de ordem geral. Falo é do modo de administrar o conjunto de museus. Era fundamental ter uma tipologia que mostrasse ao público que o Masp tem tal tipo de arte, o MAM esta outra, a Pinacoteca outra, assim por diante.

O sr. conseguiu passar de artista para um gestor de arte, de museus. Faz falta mais gente assim?
Acho que deveria, sim, ter mais gente ocupada nisso. Mas tem de ser gente com tempo, paciencia, abnegação. Pois o que a gente aprende é que o Brasil é, mesmo, um País difícil.

Com mais patrocínio as coisas poderão melhorar?
Não adianta ter o patrocínio, se a burocracia emperra tudo. Vivemos em um país desesperador, pelo abandono, a falta de políticas públicas. Vivi um exemplo pessoal, recentemente, quando tentei me inscrever no ISS, em Salvador. Fui a um lugar, depois a outro… e quando disse que era artista exigiram que eu mostrasse meu diploma. Caramba, eu estou nisso há 50 anos! Minha conclusão é que não chegaremos perto dos que detêm a hegemonia do mundo. Estamos fora. Por todas as questões sociais, econômicas e políticas.

Por Gabriel Manzano Filho

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