‘Estão vencendo, no Brasil de hoje, a truculência, o fascismo e a burrice’

‘Estão vencendo, no Brasil de hoje, a truculência, o fascismo e a burrice’

Sonia Racy

17 de março de 2014 | 01h00

Marcelo Yuka (Foto: Jaque Machado)

Prestes a fazer 50 anos, Marcelo Yuka lança biografia para virar a página e mostrar que sua história vai muito além dos tiros e da passagem como baterista d’O Rappa.

Treze anos depois de levar nove tiros – que o colocaram para sempre em uma cadeira de rodas –, Marcelo Yuka ainda convive com uma inquietação. Quer entender como seu destino se cruzou com o daqueles que o alvejaram na esquina das ruas Andrade Neves e José Higino, na Tijuca, no Rio. “Quero chegar um dia, chamar para tomar uma cerveja e perguntar o que aconteceu. Talvez eles me deem esse direito”, disse o músico, que se denomina um dos “últimos pacifistas”.

Mas Yuka não quer restringir sua história a esse episódio. Para tanto, lança, quarta-feira, na Fnac da Paulista, sua biografia Não se Preocupe Comigo, escrita em parceria com Bruno Levinson: “O público identifica os tiros e a saída d’O Rappa como as grandes coisas a serem ditas sobre mim, porque só conhece isso. Mas existem outros momentos importantes, inclusive aqueles que ainda estão por vir. A história é minha e sei exatamente onde colocar os pesos”.

E os pesos, hoje, para ele – que foi vice de Marcelo Freixo em 2012 – se dividem em muitos. Voltar ao mar, em uma travessia Rio-Niterói, de caiaque; finalizar seu disco solo; abrir uma exposição com suas pinturas; e, como não poderia deixar de ser, manter viva a reflexão sobre a violência. “A guerra se dá quando o Estado assume que terminou o diálogo. E o Estado não foi feito para se curvar à falta de diálogo. Existe um pensamento burro no ar”, afirmou em entrevista à coluna, em sua casa, no Rio. E a política? Pensa em voltar a se candidatar? “De maneira nenhuma. Mas se o Freixo me pedir…” Ele continua filiado ao PSOL – ou, como gosta de dizer, “filiado ao Freixo”.

A personalidade inquieta já era conhecida de suas letras em O Rappa. Foi ele quem compôs grandes sucessos da banda – como Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero) –, com a qual rompeu menos de um ano depois dos tiros. “Confesso que me perturba ainda estar agarrado a essa história. Não que tenha vergonha de ter vivido, nem de ser associado a ela. Faz parte da minha biografia e eu a assumo, mas isso não quer dizer que vou defender essa parte como a coisa mais importante de minha vida.”

A seguir, os melhores trechos da entrevista.

Sabe o que aconteceu com os que atiraram em você?

Em certa altura do filme (o documentário ‘Marcelo Yuka no Caminho das Setas’, de Daniela Broitman), quis encontrar um deles e fazer uma entrevista. Não era para ser incriminatório. Queria entender o que estavam fazendo ali, quem eles estavam roubando. E como meu destino cruzou com o deles. Queria e sempre vou querer entender. Mas a Daniela não levou adiante, acho que teve medo.

Sabe quem eles são?

Sei alguma coisa, que alguns foram presos, outros não. Sei de onde são. Até já estive lá algumas vezes. E pediram para eu sair da comunidade. Mas quero chegar um dia, chamar para tomar uma cerveja e perguntar o que aconteceu. Talvez eles me deem esse direito.

Você já disse que há muito folclore sobre a sua vida.

A história de que salvei a moça (que estava sendo assaltada no momento em que ele foi baleado). Estou há 13 anos falando que não salvei ninguém e até hoje passo na rua e as pessoas falam: “Olha lá o cara que salvou a menina”. Já desisti. Hoje em dia, falo que sou eu mesmo. (risos)

Encontrou-se com ela depois?

Sim. Aliás, achei muito decente ela não ter capitalizado o que aconteceu. Ela é bonita, podia ter posado nua, essas coisas, mas nunca a vi dando entrevista nem nada. Um dia, estava almoçando com meu fisioterapeuta e ela se aproximou. Até achei que era jornalista, mas vi o rosto de quem estava na mesa mudar. Ela falou pra mim: “Você sabe quem eu sou? Nunca me viu antes?”. E começou a chorar. Eu pensei: “Porra, fudeu! Será que sou pai do filho dela?” (risos). Ela falou: “Sou a pessoa que você salvou”. Falei que não era, porque nunca tinha salvado ninguém. E ela: “Pra mim e pra minha família, você roubou o destino que era para mim”.

E o que foi que você disse naquela hora?

Que, do fundo do meu coração, nem sabia que ela estava ali. Mas não adianta falar. A ideia de que eu posso ter sido esse cara, com esse perfil, é tão mais fascinante do que ter sido tudo ao acaso… Essa é a construção do mito.

Como alguém que estuda violência, qual sua opinião sobre os “justiceiros do Rio”, que amarraram um garoto no Flamengo?

Cara, não vivi o período de ditadura militar, mas acho que existem fatos sociais que “startam” uma mudança ou uma possibilidade de sair do armário. Quando o José Padilha exibiu o primeiro Tropa de Elite, um pensamento saiu do armário – tenho certeza de que ele não queria isso. Mas toda vez em que o Capitão Nascimento torturava e matava um bandido no filme, a plateia comemorava como se fosse um gol.

Qual é esse pensamento? 

Há, hoje em dia, um discurso de que existe um inimigo público número um – que é o narcotráfico. E esse inimigo, diz o poder, cria “pessoas matáveis”. O narcotraficante virou uma pessoa matável. Se repararmos, quando tem invasão no morro, fala-se em morte de traficantes e não de pessoas. E a sociedade olha assim: “Não foi uma atitude violenta, só morreu traficante”. Opa, espera aí! Olha o pensamento reaça, uma cadeia de pensamento que vem crescendo e que hoje é exposta de peito aberto. O que significa que, o que está vencendo, é a truculência, o fascismo, a burrice. Vejo tudo interligado.

Interligado como?

Outro dia, um ator que nem sei o nome (Caio Castro) deu uma entrevista para a Marília Gabriela dizendo que não lia e não gostava de teatro. Entendo que é um direito dele falar o que falou, mas só teve coragem porque existe um pensamento burro no ar que o respalda. E esse pensamento é reacionário. Ele teve um conforto – que nem sabe de onde veio – para falar de peito tão aberto assim. É o mesmo conforto do cara que fala “traficante tem de morrer” e dos meninos do Flamengo – que apelidei de JEF, Jovens Espancadores do Flamengo.

No documentário, você fala da vontade que tem de conversar com o dono da Taurus. Você também fez parte do Estatuto do Desarmamento…

Parece que toda a luta que eu tinha se resumiu a depois da cadeira. Mas a verdade é que há muitos anos eu já estava envolvido com a questão do desarmamento. O que me chamou a atenção foi que precisei fazer uma ressonância magnética – e tinha de saber qual o material da munição. Na época do exame, escrevi um documento com meu advogado, perguntando isso aos fabricantes de armamentos e de munição. E todos eles mandaram como resposta um documento judicial que lhes assegurava o direito de não responder. Se sou vítima daquele artefato, por que eles se respaldam na lei pelo direito de não me informar? Além do quê, essa coisa de arma de fogo é medieval. Assegurar o direito à arma é a maior prova do uso do medo como ação política. Cada vez que a gente dá um passo para a frente, continua ainda muito conservador e retrógrado.

Quando se deve usar a arma?

O cerne do meu ponto de vista é que a arma de fogo é o fim da tolerância. A guerra se dá quando a tolerância termina. E não há regras numa guerra. Isso só acontece a partir do momento em que o Estado assume que terminou o diálogo. E terminar o diálogo é uma posição política absoluta, ditatorial. O Estado não foi feito para se curvar à falta de diálogo, mas, sim, para promover sua importância. Não enxergo as manifestações como causa, mas como consequência. Sou, talvez ingenuamente, um dos últimos que se assume como pacifista.

Acha que isso está presente nas manifestações?

As manifestações vêm mostrando que não existem armas não letais. Estive nos protestos e quase morri duas vezes. Por motivos óbvios, não pude correr. Fiquei gritando “sou aleijado, sou aleijado”. Quando cheguei ao protesto, as pessoas me olharam na cadeira de rodas e te confesso que meu ego inflou quando me perguntaram: “E aí, Yuka, o que a gente faz?”. Me senti um coronel no front e disse: “A rua é pública, temos de ganhar posição”. (risos) Esse negócio de “efeito moral” não é só moral, não. Se aquela porra bater em você, você tá fodido.

Nesse contexto, falou-se em lei antiterrorista.

Está vendo como há uma mentalidade reaça no ar? O que não entendo é como pessoas que militaram e viveram o período da ditadura não estão se posicionando. Tem muito mais gente com poder de pressão social. Até porque se mata mais hoje do que se matou naquele período.

Acha que vai ter Copa?

Não sei se vai ter Copa… acho que sim. Mas, cada vez mais, acho importante a frase “não vai ter Copa”. É a única que pode ser gritada nas ruas hoje e que tem poder de pressão social. Não amedronta só o Estado, mas também as corporações, o mercado. Quando se grita isso, não quer dizer que não vai ter. Quer dizer que vai ser perturbador.

O que acha dos rolezinhos?

Não existe nada mais nazista no Brasil dos últimos 20 anos do que a proibição dos rolezinhos. Foi pior até que a proibição do funk aqui no Rio de Janeiro. Já estamos acostumados a ver a agressividade do Estado que mata muito, mas institucionalizar esse tipo de preconceito é outra história. Estamos perto da barbárie mesmo.

E a ideia de que a Polícia não tem motivos para tratar bem a sociedade, porque é maltratada por ela?

A questão é mais profunda. A polícia não nasceu para tomar o partido da sociedade. Nasceu para tomar partido do poder e, como tal, cumpre muito bem seu papel.

Como está a sua não-relação com O Rappa?

Esse livro é um marco dessa história. De agora em diante, quando me perguntarem o que acho disso, posso responder “leia o livro”. Confesso que me perturba ainda estar agarrado a essa história. Não que tenha vergonha de ter vivido, nem de ser associado a ela. Faz parte da minha biografia e eu a assumo. Mas não quer dizer que vou defender essa parte como a mais importante da minha vida. O público identifica os tiros e a saída d’O Rappa como os grandes fatos a serem ditos sobre mim, porque só conhece isso. Mas existem outros momentos importantes, inclusive os que ainda estão por vir. A história é minha e sei exatamente onde colocar determinado peso.

O Falcão disse que nunca mais cantaria suas músicas.

Canta até hoje. E mais do que isso: foram feitos não sei quantos acústicos. Costumo dizer que O Rappa é a maior banda cover de si mesma do mundo. Porque eles estão repetindo, repetindo. Sou capaz de admitir que fui e sou um músico idiota, ridículo e medíocre, mas tenho conceito. Sei o peso musical que tive n’O Rappa, principalmente no Lado B, Lado A. Sei o peso que tenho, musicalmente, naquilo ali.

Tem ligação com o Freixo?

Quase que homoafetiva. (risos) Quando um homem em um cargo público é procurado pelas mais diferentes pessoas, é louvável. Quer dizer que estabelece um diálogo. No começo dos nossos encontros como candidatos (à prefeitura do Rio, em 2012), ele falou: “Se a gente ganhar, vamos fazer um bom governo, inclusive para o Eduardo Paes e para o Sérgio Cabral. Quero que a rua em que eles moram seja tão boa quanto as ruas na favela. Aí é que é diferente! Temos de esquecer as diferenças partidárias. Administração não tem rancor”. Ou seja, Mandela estava certo / MARILIA NEUSTEIN E THAIS ARBEX 

 

 

 

 

 

 

 

 

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