‘Estamos vivendo uma lua de mel’

‘Estamos vivendo uma lua de mel’

Redação

01 de março de 2010 | 08h26

Recebido com desconfiança, Arthur Nestrovski muda o clima na Osesp e revela os seus planos para o futuro da orquestra

Três décadas atrás, aos 20 anos, o estudante Arthur Nestrovski cantava a Missa Solene de Beethoven em um coro de York, na Inglaterra, e seus sonhos se dividiam entre música e literatura. Aos 50, pai de duas filhas e com uma vida inteira dividida entre as duas antigas paixões, o escritor, professor, crítico e violonista se vê no comando “de um transatlântico em alta velocidade”. É como ele define o cargo de diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado, a Osesp.

Recebido com alguma desconfiança, pelos músicos, conseguiu mudar o clima rapidamente. “Estamos vivendo uma lua de mel”, resume. Nesta conversa com a coluna, a três dias do início da temporada 2010 da orquestra, Nestrovski revela os planos de 2011 e o papel que, em sua opinião, a Osesp deve representar na vida cultural do País.

O que você tem em mente, como diretor artístico da Osesp? Ninguém é louco de chegar e sair mudando o que já tem um padrão de excelência. Vim para aprender. Peguei um transatlântico em alta velocidade, mas ainda me sinto livre de questões emocionais. Isso torna mais fácil fazer as escolhas artísticas.

Há um plano, uma estratégia desenhada? Queremos que todos os quadros da Osesp interajam com a cena cultural brasileira e mundial. A orquestra tem que ser também um organismo que produza pensamento musical – desde concertos a atividades educativas, de reflexão, publicações, projetos sociais. Vamos intensificar isso tudo.

De que maneira? Hoje se pensa em música clássica como um escapismo maravilhoso. Mas queremos mais. Dou alguns exemplos. A partir de agora os libretos da temporada terão uma seção chamada Ensaio, com dez páginas para o espectador levar para casa e ler. E vamos lançar, no segundo semestre, o CD A Floresta do Amazonas, de Villa-Lobos. Convidamos o Milton Hatoum para fazer o texto do encarte. Isso é aproximar as produções de música e literatura.

Em que pé está a programação de 2011? Regentes e solistas já estão 90% fechados. Posso adiantar que, em junho, traremos o regente estoniano Arvo Pärt.

Há uma turnê, a partir de novembro, pela Europa. Por onde será? A orquestra vai tocar nas principais casas europeias. Em Viena, na Musikverein. Em Frankfurt na Alte Oper. Em Madri no Palácio da Música, em Salzburgo na Grosse Sal. E em 2011, em vez de América Latina, vamos sair por capitais brasileiras.

Você se sente preparado para ser diretor artístico de uma orquestra deste tamanho? Foi a preparação de uma vida inteira. Nos meus 30 anos de carreira tenho graduação em York, doutorado em Iowa, ambos em música. E 17 anos como professor de pós-graduação, 20 anos editando livros. Fiz crítica musical, gravei discos, fiz shows. E tive seis meses de conversa com o conselho da Fundação.

Como se sentiu ao aceitar? A primeira sensação foi um misto de excitação e temor. Acabo de fazer 50 anos e, a esta altura da vida, acho que sei o que serei capaz de fazer. Mas, enfim, não estão me pedindo para ser o presidente dos EUA. Tocar a Osesp está no limite do grau de loucura de aceitar um desafio.

Como a orquestra reagiu à sua escolha? Para muitos foi um pequeno ou um grande susto. Mas, passados dois meses e meio, estamos vivendo uma lua de mel. À medida em que eu vou tendo reuniões com as equipes, sinto que a gente é mais parceiro.

Em suas críticas musicais, você fazia elogios ao diretor anterior, John Neschling. O que achou do modo como ele saiu? Vou ser bem sincero: foi muito infeliz. Não precisava ter sido como foi. Mas os acontecimentos se precipitaram de tal modo que não havia como evitar. Isso é consenso mesmo entre as pessoas que tinham e têm admiração por ele.

Como é sua relação com o regente titular, Yan Tortelier? Quando ele está aqui, a relação é, obviamente, muito próxima. Mas ele não usa e-mail. Para encontrá-lo, tenho de localizar antes a mulher dele… (risos). Nosso tripé funciona muito bem – ele regente, o Marcelo Lopes como diretor executivo e eu na direção artística.

Pretende aumentar a atividade de outros quadros da orquestra? Sim. Queremos a Osesp no calendário cultural do País. Vamos colocar o Coro de Câmara e o Quarteto da Academia para se apresentar na Bienal, na Flip. Planejamos apresentações na Biblioteca de São Paulo. E na Virada Municipal, em maio, programamos um concerto ao ar livre para 30 mil pessoas.

E a formação dos músicos? A prioridade é a Academia da Osesp. Temos nela 20 músicos bolsistas, queremos ampliá-los para 40. Daria para formar uma pequena Orquestra de Câmara da Academia. E a Fundação Osesp vai ampliar os concertos educativos. A ideia é aumentar a participação de 50 mil para 75 mil alunos e professores ao longo deste ano.

Você tem falado muito em aproveitar mais compositores brasileiros. Como será isso? Fechamos com a Biscoito Fino para, a partir de 2012, lançarmos um CD por ano de obras de um compositor brasileiro vivo. O primeiro será Gilberto Mendes. Já encomendamos e vamos executar obras de Almeida Prado, Willy Corrêa de Oliveira.

E como fica sua carreira de violonista? Não pretendo abandoná-la. Acordo todo dia às 7h para estudar violão. Tenho turnê em Portugal e Espanha em junho. Desde que fui nomeado na Osesp, gravei três discos. “Chico e Violão” e “Pra que Chorar”, que saem em abril, e outro duplo com José Miguel Wisnik, que sai no segundo semestre.

Por Débora Bergamasco e Gabriel Manzano Filho

Tendências: