“Estamos inventando formas novas pra tudo”, diz Adriana Calcanhotto, que fará show no teatro, sem plateia, e planeja turnê em Portugal

“Estamos inventando formas novas pra tudo”, diz Adriana Calcanhotto, que fará show no teatro, sem plateia, e planeja turnê em Portugal

Sonia Racy

31 de agosto de 2020 | 00h40

ADRIANA CALCANHOTTO – FOTO: LEO AVERSA


Adriana Calcanhotto
estabeleceu um desafio motivacional na quarentena. “Só almoçava se conseguisse compor uma canção”. Deu tão certo que teve dia que ela compôs duas músicas. Resultado? Um disco inteirinho com nove faixas – todas inspiradas na pandemia da covid-19, um ‘clipão’ gravado no quarto de casa e o show , que ela apresentará no Teatro Riachuelo, no Rio, sábado. Será uma “turnê mundial, online e sem plateia presencial”, define a cantora.

“Tô muito animada, tá uma loucura”, diz Adriana, nesta entrevista por telefone à repórter Cecília Ramos, de sua casa, na Floresta da Tijuca, no Rio, onde passa a quarentena com seus oito gatos e três cachorros. Adriana compôs uma música inédita esses dias e que só mostrará no show. A renda com direitos autorais das canções será revertida para instituições escolhidas por seus parceiros musicaIs.

A inspiração para compor? Veio do noticiário, principalmente. A compositora conta que está otimista com a descoberta da vacina. “São muitos laboratórios pesquisando”. E fala dos seus planos. Não descarta show drive-in e diz que live é um jeito de o artista se reinventar. Também programa para novembro seu retorno a Portugal, pra finalizar a turnê do disco Margem.

Antes disso, conta com a retomada, ao menos online, de suas aulas na Universidade de Coimbra, onde leciona Música. “Dou aulas de como escrever canções”.  A seguir, os principais trechos da conversa.

Como estão os preparativos pra esse show inédito?
Tá uma loucura, é tudo uma novidade. É um show só, único e que se chama “Só”. Escrevi as músicas a jato, no começo da quarentena. A minha sensação é que a energia (do show) será a mesma coisa (de antes da pandemia). Escolhi ficar sozinha no palco exatamente pra não fazer aglomeração. Também porque as canções são relativas à pandemia, sobre estar só.

Tá ansiosa?
Tô animada. E vai ser muito bom. Porque esse ambiente, palco, bastidor eu adoro. Montei um set de ensaio aqui em casa, tô ensaiando sozinha, que é como eu fiz o disco. Fiz uma canção nova agora em agosto. Que ela cabe em Só. Então vou mostrá-la no show. Não posso falar a temática. Já tô falando demais pra você (risos).

Compor nestes tempos difíceis, como foi?
Não foi um projeto que fiz na pandemia. Ao contrário. Foi disposição mesmo. Eu acordava pra fazer. Não é uma rotina normal pra mim, acordar e ir pro estúdio fazer uma canção. Elas são permeadas pelo estado de espírito que eu, sozinha em casa, estou sentindo, assistindo às notícias. E aí fiz esse projeto pra continuar motivada.

Foi um tipo de desafio pessoal da quarentena?
É… E a motivação era: fazer uma canção até o almoço. Se não fizer uma canção até o almoço, não almoça (risos). Vi que estou numa disciplina, numa disposição diferente. E bastante focada, então eu peguei carona e fui. Mostrei as canções ao Artur Nogueira (compositor). Depois, fizemos as faixas com pessoas em cidades diferentes (SP, RJ, Salvador, Belém e até Tóquio e Orlando), e botei voz em casa.

Acha que esse processo de produção não-presencial veio pra ficar, pós-pandemia?
A ideia da pandemia, óbvio, não é uma coisa legal, embora não seja uma surpresa. Pandemias são cíclicas. Como gosto de ver a parte boa das coisas, acho que estamos inventando formas novas pra quase tudo. A gente tá inventando formas de se comunicar, de dar aula, de fazer reunião. Estamos realmente em rede. Agora nada substitui o presencial. Mas é possível fazer assim, então vamos inventar.

Pensa em fazer show drive-in?
Eu não descarto. Não recebi nenhum convite, não pensei ainda sobre isso. Você está me perguntando e o que eu penso neste momento pra te responder é ‘não, agora’. Esse é um tipo de show pra ter uma banda.

Acha que live é um formato que já cansou?
Acho que cada artista tem seu jeito de fazer. A live é uma ferramenta pra inventar coisa. Teve um show da Alcione que foi interessante. Tá todo mundo tentando inventar coisas. Agora você imagine uma pandemia sem internet! Essa é a primeira com internet. Ela tá salvando muita alma, porque você não fica tão isolado.

Você sempre foi muito discreta, porém agora seus fãs te veem mais nas redes sociais e em lives. Se mostra mais?
Eu olho o que é que tá acontecendo, como as pessoas estão se manifestando, mas não sou ativa na rede social. Agora, assim, isso possibilitou muita coisa. Conversas, reuniões, aulas… E das lives, na verdade eu recebo convites: ‘Ah vc faz uma live comigo?’ E tem uma coisa engraçada: todo mundo sabe que estou em casa, não tem como dizer: ‘Ah! Daqui a duas semanas é que estou no Brasil (risos).
Sobre Só, as letras são um ‘retrato musical’ do Brasil na covid-19. Você literalmente bebeu da fonte…
Eu via as notícias, tudo completamente novo, um vírus que ninguém sabe. E tem o pano de fundo político, social, no mundo inteiro. Acho até que, com algum distanciamento no tempo, fique mais claro como essas canções tiveram relação com a realidade de quando foram feitas.

Teve algum dia que você correu o risco de não almoçar?
Não (risos). Foi muito intenso. Teve um dia que fiz a canção, almocei, fiquei meio sem ter o que fazer e comecei outra, que é É o que temos (Em tempos de quarentena/Nas sacadas, nos sobrados /Nós estamos amontoados e sós). Foi um dia que estava assistindo ao jornal e via imagens das ruas vazias e os prédios cheios, as pessoas se vendo pela janela.

Foi daí a ideia de usar o som dos panelaços reais?
Sim! Eu queria ter uma colagem desse momento do País com a sonoridade. Tinha muito aquela coisa no começo de ‘não podemos nos manifestar porque não podemos ir às ruas’. Não! Não, né? É que Temos e Sol quadrado (O mundo dá voltas/ E agora até o gado tá baratinado) são sobre esse assunto (político).

Você voltaria pra Coimbra, quando iniciou a quarentena. Como vinha se dividindo entre lá e cá?
Primeiro semestre, eu ficava lá em Coimbra. E o segundo, aqui. A quarentena veio dez dias antes de eu viajar. Impediu de eu voltar, imagina! Estava cheia de conteúdo pra passar aos alunos. E aí abriu aquela clareira, a universidade fechou.

É quando a vida não liga a seta…
É! Tudo inesperado. É engraçado que algumas pessoas dizem: ‘Ai! Não estou aguentando essa coisa de não saber o que vai acontecer’. Aí eu falo: ‘Mas a gente nunca sabe!’. A gente tem planos, mas dizer que a gente sabe que um meteoro vai cair na Terra… não, né?

Por essa sua compreensão sobre o inesperado, tem sido mais fácil atravessar este momento?
Tô desde 8 de fevereiro sem sair de casa, quando sai do palco do Circo Voador. E vou sair de casa agora para o palco do Teatro Riachuelo. Não tenho tanta dificuldade de me adaptar a situações assim, porque, afinal de contas, não adianta ficar esperneando. Agora tá longo o processo. E estão acontecendo muitas maluquices no mundo enquanto isso. São tempos estranhos.

Muita gente voltou a pensar em morar fora do Brasil.
É. Acho que muita gente que pode, gostaria de ir embora. Muitas cabeças interessantes do Brasil saíram do País. Mas não quer dizer que não estejam pensando o Brasil.

E você? Está otimista, realista…?
Como tudo tem um lado bom e um lado mal, gosto de olhar para as coisas boas. De olhar as crises e ver oportunidade. Acho que as dificuldades fazem a gente crescer. Aquele mundo lá de fevereiro não existe mais. Estava curtindo minha casa, meus bichos. São oito gatos e três cachorros. Gato é apaixonante. O astral deles é incrível, e passa para gente.

Como tem sido sua quarentena, fora compor?
Faço coisas como quando tô de férias, que é cuidar dos bichos, que adoro, cuidar da roupa… Não fui pra cozinha porque a Roberta Sudbrack manda comida maravilhosa. É uma coisa assim: se eu não tenho que cozinhar, esse é o argumento dela, então eu tenho que fazer as canções (risos).

Pretende voltar a Portugal este ano ainda?
aguardo sinal para retorno online das aulas. E o fim da turnê Margem passou pra novembro, em princípio. Serão uns 10 shows. Eu tô assim: se for (pra ser) vamos. Senão, não vamos. Acho que é o melhor jeito de levar a vida. Não ficar contando com o futuro.

Você parece lidar bem com tudo isso, tem bom humor… Como tá a cabeça?
Na minha cabeça tudo é novidade, aliás pra todo mundo. Minha cabeça entende que é (novidade)… Então vamos lidar com o que temos e vamos à luta.

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