‘Estamos fazendo esforço para trazer a direita’, afirma Tabata Amaral sobre atos que pedem impeachment de Bolsonaro

‘Estamos fazendo esforço para trazer a direita’, afirma Tabata Amaral sobre atos que pedem impeachment de Bolsonaro

Sonia Racy

26 de julho de 2021 | 00h50

Tabata Amaral. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Tabata Amaral se vê no papel de interlocutora, entre gregos e troianos, nos protestos contra Bolsonaro. “A gente vem fazendo muito esforço para que o MBL e o Vem pra Rua, participem com a gente. Quem sabe mais pra frente consigamos fazer um protesto único”, diz, se referindo à convocação pela direita de uma manifestação própria no dia 12 de setembro.

Sexta deputada federal mais votada por São Paulo, Tabata aponta que o Congresso é sensível às ruas. “Cabe a mim fazer essa ponte e trazer a pessoa que votou no Bolsonaro, que está cansada da política, que não sabe nem o que é esquerda e direita, que é a grande maioria, para se manifestar contra esse governo”. Na Câmara, apenas 100 deputados estão a favor de analisar o pedido de impeachment, segundo Tabata. E com a popularidade em baixa, nesta semana, o governo Bolsonaro anunciou mudanças ministeriais para dar mais espaço ao chamado centrão, para tentar fortalecer sua base no Congresso.

Há dois anos sem partido, a fundadora do movimento de renovação política Acredito, fala do seu calvário: “Foi muito difícil porque na Câmara é o partido que te dá espaço de fala, em relatório e comissão. Eu tive que me virar nos trinta e tenho certeza que isso prejudicou a minha atuação. Mas acho que consegui muito espaço, em meio às adversidades, porque isso me forçou a dialogar com todo mundo”.

Após receber críticas da esquerda de ser infiel por ter votado a favor da reforma da Previdência apresentada pelo governo Bolsonaro e também da autonomia do Banco Central enquanto estava no PDT, Tabata, de 27 anos, já tem aval do TSE para ingressar em novo partido sem perder o mandato. Ela conversa com o PSB e outros.

Filha de uma diarista, ela cresceu na periferia, na Vila Missionária, na zona sul da capital. Conseguiu bolsa de estudos em escola particular depois de vencer olimpíada de matemática na 5ª série em uma escola pública. Chegou a Harvard onde concluiu a graduação em Ciência Política e cursou Astrofísica – feitos que atribui a dois fatores: sorte e oportunidade. No Brasil, participou do programa de formação de políticos Renova BR. Sua atuação política hoje é marcada pela defesa de pautas ligadas à educação. O campo pessoal também prospera. Ela namora e planeja casamento com outro jovem político, o prefeito do Recife, João Campos (PSB), filho de Eduardo Campos.

Confira a seguir, a entrevista concedida à repórter Paula Bonelli por videoconferência.

Para qual partido você planeja ir?

Venho conversando com vários partidos, mas o tempo que vou levar para tomar essa decisão tem a ver com a indecisão do cenário nacional. Quero estar num projeto viável contra o presidente Bolsonaro. E preciso ter certeza de que a minha escolha partidária vai me permitir fazer esse enfrentamento.
Você considera ir para o PSB, que também orientou os parlamentares a votar contra a Reforma da Previdência e ameaça expulsá-los?

É um dos partidos com os quais eu converso, mas não tenho resposta ainda. Vou me explicar para meus eleitores depois que tomar a decisão.

Por que não vai para um partido, por exemplo, de centro-direita?

Porque sou de centro-esquerda. Tenho uma visão social mais alinhada à esquerda de combate à desigualdade, mas com uma visão econômica mais moderna de centro, que olha para o que funciona, para o que é eficiente. Na votação da reforma da Previdência, foi um grande desserviço para a Nação, a esquerda distorcer e contar várias mentiras. A reforma acabou com a aposentadoria especial de políticos, e impactou muito mais quem recebia acima de dois salários-mínimos, e não impactou quem recebia menos de um, por exemplo.

Foi difícil esse período?

Sim, nesta época eu fui ameaçada de morte. Tive que andar com escolta. Fui xingada de tudo quanto é nome. E isso é muito grave, porque um terço da bancada vota de um jeito, mas apenas um voto incomoda porque ele é visto como discordância de uma menina. Foi assim que as lideranças do PDT enxergaram. O Ciro no entendimento de “deixa eu disputar o voto do PT, elimina essa menina e tá tudo certo”. Então foi aí que doeu. E resolvi bancar a minha convicção mesmo com esse medo.

E você temeu pelo seu mandato ante o julgamento no TSE?
Não quero estar na política de outro jeito. Medo de perder o mandato não, a votação deixou isso muito claro, foi quase unânime. Inclusive o próprio presidente, o ministro Luís Roberto Barroso, presidente do Tribunal Superior Eleitoral, colocou a questão da violência política de gênero.

Eles pediram desculpa depois?

Não sei se é vantajoso comentar isso, mas, houve gestos.

Foram aceitas?

E respondo essa pergunta. Enfim, em diferentes momentos o PDT tentou uma reaproximação, mas foi numa linha de vamos colocar panos quentes, e menos numa linha de erramos com você, fomos machistas, etc. Então o que aconteceu nunca vai me impedir de fazer uma parceria com o PDT ou inclusive se, é que eu não acho que vai ser o caso, mas, se for o caso, Ciro versus Lula, Ciro versus Bolsonaro, eu não teria dúvida de votar no Ciro.

É a favor do aumento de impostos sobre lucros e dividendos da reforma tributária do Paulo Guedes?

Defendo a taxação de dividendos, mas a proposta que foi apresentada pelo Ministério da Economia é toda torta e muito diferente de outra mais ampla que vinha sendo debatida no Congresso. Estamos num momento de aumentar a cobrança de impostos, de fazer um sistema mais justo, mais progressivo, e não simplesmente onerar um lado só. O que é que eu tinha apresentado lá atrás como emenda tributária é a taxação de lucros e dividendos, retirando de forma proporcional a taxação de empresas. Agora, essa proposta do Ministério da Economia é a nova CPMF, a nova mágica que eles acham que vai resolver o sistema, quando na verdade o buraco é mais embaixo.

Há um superpedido de impeachment contra o Bolsonaro na gaveta do presidente da Câmara, Arthur Lira, assinado por parlamentares, políticos e entidades, com 21 imputações de crime de responsabilidade. Há chances dele ser analisado?

Não tem como colocar pessoas na rua e nada acontecer no Congresso. Então o pedido de impeachment vai ser pautado quando esse for o sentimento de mais da metade da casa. Por que o presidente pautaria um pedido que não tem o apoio dos parlamentares? Hoje pouco mais de 100 deputados, eu incluída, já se posicionaram a favor do impeachment. É isso que a gente tem que mudar. Nesse sentido, a CPI da Covid vem sendo fundamental. As manifestações contra Bolsonaro estão um pouco mais coloridas, mas ainda foram as da esquerda.

Você está nesse papel de interlocutora entre esquerda e direita?

Sim, e por uma questão muito pragmática, não vai ter impeachment se for uma coisa só de esquerda. Não vai ter se não tiver um movimento de rua que supere as linhas partidárias para desaguar nos parlamentares, para que o preço para eles se posicionarem contra o impeachment seja tão alto que eles não consigam se posicionar contra.

Você vai na manifestação do Kim Kataguiri, do Vem pra Rua, da direita? Ou vai continuar indo nas manifestações de esquerda?

O Acredito está na organização das manifestações desde que aconteceu a primeira, a gente vem fazendo muito esforço para que o MBL e o Vem pra Rua, a direita, participem com a gente. Quem sabe mais pra frente consigamos fazer um só protesto. E o próprio Kim Kataguiri participou do protocolo do superpedido de impeachment. Então, eles têm todo o direito de irem pra rua, acho que é muito positivo, mas não sei se ajuda muito a causa. Não é apenas por uma questão ideológica. As pessoas, elas mesmas, não são o Bolsonaro, a gente é muito melhor como País. Se eu puder fazer ponte e trazer gente do outro lado vou fazer, é o que eu tento fazer todos os dias.

Como é estar sozinha, sem partido?

Estou há quase dois anos sem partido. E foi muito difícil porque na Câmara é ele que te dá espaço de fala, te dá espaço em relatório, comissão. Tive que me virar nos trinta e tenho certeza de que isso prejudicou a minha atuação. Mas também acho que consegui muito espaço nas adversidades porque isso me forçou a dialogar com todo mundo. Mas, para ser sincera, estou bem animada para voltar a ter partido porque, enfim, política é grupo.

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