‘Estamos fazendo escolhas o tempo todo’, diz Monja Coen

‘Estamos fazendo escolhas o tempo todo’, diz Monja Coen

Sonia Racy

21 de outubro de 2019 | 00h45

 

MONJA COEN. FOTO: IARA MORSELLI

Às vésperas de lançar novo livro, referência
do budismo no País fala de seu passado
agitado, revela que ‘não tem amigos’ e adverte
que hoje
as pessoas ‘estão sendo rudes
umas com as outras” e que ‘é preciso dialogar’

 

Aos 72 anos, Monja Coen, nascida Cláudia Dias Baptista de Souza, lança O Que Eu Aprendi com o Silêncio – uma Autobiografia, que chega em novembro às livrarias, pela Planeta. Uma das principais referências do budismo no Brasil, com 45 anos no caminho Zen, Coen resume: “Já fui, como adoram dizer sobre mim: sexo, drogas e rock’n roll”. E ela mesmo rebate: “Mas eu tinha 20 anos. Já se passaram 50…”.

Nessas décadas todas, teve tentativa de suicídio, prisão, abuso sexual na infância, casamento aos 14 anos, gravidez e divórcio aos 17. “E uma vida sem amizades até hoje”, revela, mesmo sempre cercada de seguidores e viajando pelo mundo para palestras e conselhos. E tira sua conclusão: ‘Estamos fazendo escolhas o tempo todo”. Seu canal no Youtube tem mais de 1 milhão de inscritos. No Instagram, são quase 900 mil. Para esta entrevista, ela recebeu a repórter Cecília Ramos no seu templo, no Pacaembu. Confira.

Escrever sobre si, revisitar momentos dolorosos, foi um desafio? Por que agora?
A editora pediu para eu escrever sobre o aqui e agora. Comecei e não saía nada. Aí a editora decidiu fazer dois livros. É difícil escrever sobre a gente. Como você falou: é revisitar lugares dolorosos, alguns agradáveis, outros muito desagradáveis que a gente quer dar uns pulos e deixá-los para lá, inclusive porque isso envolve outras pessoas. Escrevi coisas que estavam querendo sair. E depois que você vira monge muda de nome, deixa de ser aquela pessoa que foi.

Teve algum momento doloroso que você “pulou”?
Alguns deles eu escrevi. Mas tem outros que não. Não quero causar polêmica e nem perturbação a outras pessoas. Mas eu não fiz uma autocensura.

O momento da sua prisão em Estocolmo por porte de LSD é relatado no livro?
Eu não lembro (pede o livro para folhear). Não, não falei. Eu tive uma certa questão sobre isso. Quando voltei para o Brasil, meus pais pediram que eu não contasse a ninguém. Não foi um momento glorioso. Depois, quando ganhei muita visibilidade, fiquei preocupada porque muitos jovens poderiam entender: ela tomou ácido, usou LSD, fumava… E, com isso, eu os estimulasse. Mas (o LSD) foi minha busca pelo sagrado, o sentido da vida. Evito dar visibilidade. Adoram dizer sobre mim: a monja é sexo, drogas e rock’n roll. Mas eu tinha 20 anos. Já se passaram 50.

E foi nessa época, aos 20, que sua história teve uma tentativa de suicídio…
Eu tive uma tentativa de suicídio um pouco antes disso (da prisão). Conto no livro. A vida no jornal, a ditadura militar, colegas sendo presos, desaparecendo. Eu tinha um relacionamento íntimo com um jornalista que bebia muito. Minha vida era muito dramática nessa época. Então eu quis ir embora (se matar). Não fui. E ficou aquela sensação: nem morrer eu consigo. Depois que comecei o Zazen vi que estava fazendo escolhas o tempo todo. Mesmo quando nos omitimos, estamos escolhendo nos omitir.

Você se casou aos 14 anos e teve uma filha aos 17. Conta que a meditação a ajudou muito a terminar relações sem drama. Como?
Eu tive vários casamentos e com cada pessoa com a qual me relacionei terminava dramaticamente. Eu achava que nenhum homem prestava. Nos EUA, no último relacionamento que tive, eu disse: “Espera aí. É sempre repetitivo? Sou eu que estou fazendo alguma coisa. Não sou eu que pego o mesmo modelo de gente”. Começa naquele grande interesse, amor, um falando do outro e, de repente, vai murchando até acabar com raiva. Evoluí com a meditação. Primeiro, percebi meu comportamento, porque a gente está sempre culpando o outro. Quando a pessoa percebe que é repetitivo, pode interromper esse ciclo.

O tema separação é muito forte na sua vida. Por quê?
A vida familiar era difícil. Minha mãe sofreu muito com a separação do meu pai, que teve outra mulher. Todos os amigos fecharam as portas para ela. As mulheres tinham ciúmes de seus maridos. Na escola, eu não era acolhida por ser filha de pais desquitados – e eu não podia contra –, e pela condição social no (colégio) Sion. Vivia uma mentira. Era muito doloroso. Então você começa a fazer coisas para chamar atenção. O meu casamento teve a ver com essa fase. Sexualidade para mim não era uma coisa agradável. Era uma coisa que tinha que fazer (sexo). Depois eu engravidei e me separei grávida. Na escola, tive uma única amiga e ela me traiu. Foi uma vida de não ter amizades, de não ter confiança nas pessoas. Porque aquela pessoa em quem você confia é aquela que vai te trair.

Depois você resgatou a confiança nas pessoas?
Não. Eu não confiei mais em ninguém. Até hoje (risos).

Mesmo rodeada de tantas pessoas, tantos fãs, seguidores?
É, mas eu não tenho amigos, nem amigas. Tenho alunos, praticantes, professores. Eu não frequento  a casa de ninguém e nem tenho tempo. Não me sinto sozinha. Mas a ideia de amizade, de ligar para alguém contando o que está acontecendo comigo, não tenho. E não  tenho essa necessidade. Acho que ela foi suprida na hora  que me tornei uma orientadora. Tantas pessoas vêm me pedir conselhos e acabo me autoaconselhando. No meu nome, Coen, o “Co” quer dizer “só” e “en”, círculo. É a perfeição de estar só, onde nada falta. Meu professor em Los Angeles escolheu de acordo com minhas características. Lá na comunidade (budista) começaram a apresentar pessoas para eu namorar. Eu não queria saber de mais ninguém. Falei: chega! Que coisa trabalhosa manter relacionamento.

Ainda acha trabalhoso se relacionar?
Acho. Manter um relacionamento é muita estratégia. Não é fácil manter a coisa viva, bonita, gostosa. Você não pode ser muito natural, nem dizer muito o que pensa porque se assim fizer você acaba com o relacionamento.

Você relata que sofreu abuso na infância. Revisitou essa parte?
Teve isso, sim. E talvez pelos abusos na infância você amadurece mais cedo. Eu com 14 anos já parecia ter 18.

Sobre o quê as pessoas mais pedem conselho?
Ansiedade, solidão, desapego, relacionamentos, equilíbrio. Mas eu não posso fazer escolhas pelas pessoas. Posso mostrar caminhos.

Sempre houve, em sociedade, cobrança para casar, ter filhos. Acha que isso está mudando?
Tudo induz a mulher e o homem a pensar que só se é feliz e completo se tiver um relacionamento amoroso correspondido. Isso é um absurdo, uma manipulação da mente humana. Nós podemos ser felizes sós. É uma invenção… e você tem que sofrer por isso.

É por medo da solidão também que os casais não se separam?
Exato. As pessoas se acomodam. Primeiro, com as mulheres: ter o masculino do lado é ter posição social. Na hora que ele sai, a mulher fica vulnerável tanto para os homens quanto para outras mulheres. Isso está começando a mudar, sim.

Com mais de 1 milhão de inscritos no Youtube, quase 900 mil seguidores no Instagram e 200 mil no Facebook, como é sua relação com redes sociais?
É uma coisa muito nova para mim. Eu não sei sobre visualizações, números. Mas eu não leio os comentários, mesmo quando eu posto um texto.

O ambiente na internet está bastante polarizado. Já recebeu comentários agressivos?
Quando fui visitar o Lula (na prisão em Curitiba), teve um grupo na internet que ficou muito bravo comigo. Mas teve outro que me defendeu. E eu só soube disso.  Teve  uma pessoa que me escreveu e-mail e disse que eu não devia ter ido e que ia parar de ir ao templo.

Acha que não devia ter visitado Lula na prisão?
Claro que eu devia. Fiquei tão feliz. Que homem maravilhoso. Nunca tinha falado com ele. Foi no ano passado. Todas as segundas tinha um líder religioso que ia lá conversar com o Lula. Era uma maneira de entretê-lo também. Ele estava lindo. Você entra lá pensando que vai ensinar meditação para Lula se acalmar e era ele quem acalmava todos. É um líder. Quem foi rei não perde a majestade. Ele tem dignidade.

Como jornalista, você trabalhou no Jornal da Tarde na época da ditadura. Que avaliação faz do Brasil de hoje?
Hoje vivemos um momento internacional. Uma das coisas que o (escritor e filósofo Leandro) Karnal  fala e com a qual eu concordo é sobre o pêndulo da história. Foi muito para um lado e agora está indo para  outro. A gente espera que não vá demais para esse outro. O que podemos fazer para impedir censura e a autocensura, que estão acontecendo muito? As pessoas estão com medo de falar. Quem é a favor do Lula cochicha comigo nas ruas. Mas aí quem me convida para palestra, diz: “Na palestra não pode falar de política”.

Você própria é censurada?
Já sou alertada, sim. Estamos vivendo esse medo de as pessoas se manifestarem.

Acha que é um momento vinculado à polarização do País, desde a eleição presidencial, e que não foi superado depois da vitória de Bolsonaro?
Sim… E talvez não seja o próprio presidente (o responsável), mas a equipe que cerca a Presidência que diz às pessoas, com  fake news etc: se você se manifestar nas suas redes sociais a favor deste ou daquele personagem você vai ser perseguida. Então, cadê a democracia? Podemos debater, mas eu não te odeio por discordar. Essa polarização não ocorre só no Brasil, é no mundo.

O que está acontecendo com o Brasil, cuja fama era de ser cordial? Temos saída?
Temos. O Neymar tem uma frase de sabedoria tatuada no pescoço: “Tudo passa”  (risos). As pessoas falam: nossa, agora está um momento horrível. Mas é o que temos. O que é importante é: como nós nos manifestamos? Não é atirando pedras. É atuando com amor. Lá no fundo somos uma família só: humana. Todo governo, quando começa a ser ditatorial, seja de esquerda ou de direita, mexe na educação, nas humanas.

Acha que o ser humano está mais intolerante e as redes sociais potencializaram isso?
Percebo que há uma carência muito grande do ser humano de se encontrar com consigo mesmo. Não é mais uma questão de política. Porque não entro nisso. É (questão) de humanidade. Ficamos belicosos, briguentos. (O Brasil) tirou a máscara. Todos nós somos tudo. Nem anjos nem demônios, como diz o (educador, filósofo e escritor Mário Sergio) Cortella.

Está otimista com o Brasil?
Temos saída. Tudo muda. A vida é movimento. Mas as pessoas têm que se manifestar.  Elas estão sendo muito rudes umas coisas as outras. É preciso dialogar. Visitei o Lula, votei na Dilma, mas se  agora este senhor (Bolsonaro) assumiu a Presidência, eu  quero que ele tenha sucesso, mas que o sucesso dele não seja baseado em esmagar os outros, de excluir e de dizer que homossexualidade é escolha ou doença. Quando a gente vê isso, tem que dizer: para! Tem limite. Foi tudo tão permitido que esse homem foi eleito. Foi o erro da permissividade.

E o que você aprendeu com o silêncio?
Silêncio é observar em profundidade. O silenciar a mente não é só a fala que sai da boca. É calar a voz interior que está julgando tudo o tempo todo. O que eu mais aprendi com o silêncio foi acolher a vida assim como ela é. A vida é o que é.

Tudo o que sabemos sobre:

Monja CoenMario Sergio Cortella

Tendências: