‘Estamos em um momento difícil, de extrema polarização e preconceito’

‘Estamos em um momento difícil, de extrema polarização e preconceito’

Sonia Racy

27 Julho 2015 | 01h08

 

Foto: Divulgacão

Atriz e apresentadora do Esquenta! comemora o sucesso do filme Que Horas Ela Volta?, do qual é protagonista, e joga luz sobre os contrastes sociais e a violência do Brasil

Regina Casé teve poucos dias para encarnar Val – uma pernambucana que se muda para São Paulo e vai trabalhar como babá – no filme Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert. Seu tempo de preparação, no entanto, foi suficiente para lhe garantir o reconhecimento internacional e para que levasse o prêmio de melhor atriz na seleção World Competition, em Sundance.

De fato, o longa-metragem – que estreia por aqui dia 27 de agosto e fala do reencontro dessa babá com a filha que vai para a universidade – teve grande repercussão nos festivais por onde foi exibido. Escolhido como “melhor filme” na Mostra Panorama do Festival de Berlim, foi vendido para mais de 20 países.

Para Regina, esse sucesso no início foi surpreendente, pois o tema trata de uma realidade brasileira. “Ele aborda a primeira geração de filhos de empregadas domésticas – porteiros, faxineiros… – que chega à universidade”, afirma. Os choques sociais e culturais presentes no filme também acontecem semanalmente no Esquenta!, que a apresentadora conduz desde 2011, na Globo. “Eu não ignoro a cultura toda que é produzida, não só nas favelas, mas nas periferias e no interior do Brasil, porque acho que essa é a realidade que a gente tem”, afirmou, em entrevista à coluna por telefone do Rio, após chegar de Paris para divulgar o filme.

Indagada sobre o momento atual do País, Regina não esconde a preocupação. “Essa polarização vai dar, sem dúvida, em um lugar muito ruim, com todo tipo de intolerância: política, religiosa, racial… Estamos em um momento muito difícil”, avaliou. Tendo já recebido no programa três presidentes da República, também comentou a recente agressão sofrida por Jô Soares depois de entrevistar Dilma: “Acho que ele reagiu muito bem. Todo tipo de intimidação deve ser tratado com o máximo da calma para não aumentar essa onda de violência”. Abaixo, os melhores trechos da entrevista.

Antes mesmo de estrear no Brasil o Que Horas Ela Volta? já foi premiado lá fora. Imaginava tamanho impacto?
Fora do Brasil, não. Aqui sim, porque o filme retrata o momento que vivemos – é a primeira geração de filhos de empregadas domésticas – porteiros, faxineiros… – que chega à universidade. Então, achei que era muito atual e que provocaria uma reação grande, mas tinha dúvidas de que lá fora certas sutilezas, como os sotaques e especificidades, pudessem ser percebidas.

Por que, a seu ver, o filme comove tanto?
Na verdade, o mundo todo está vivendo essa transformação. Não só o Brasil. Os europeus têm relação semelhante com os africanos. Pode ser diferente, mas é a mesma problemática. Acho até que, por vezes, a de lá é mais difícil.

De que modo percebe isso?
Na França, um descendente da Costa do Marfim, do Senegal, pode ser já da terceira geração de imigrantes mas ainda é visto como um africano. Nem ele mesmo se sente um francês… Aqui, o negro mais pobre – que, infelizmente, sofreu todas as desigualdades e injustiças – é considerado brasileiro. Por todo mundo, até pelo branco mais rico ou mais preconceituoso. É tão brasileiro quanto ele. O contexto é muito diferente, mas essa relação existe lá também. Então, acho que eles entendem muito bem do que estamos falando no filme.

A propósito desse conflito, como encara as pessoas que criticam a PEC das Domésticas?
Essa é uma discussão atrasada, que já devia ter sido feita muito antes. Qualquer pessoa com o mínimo de consciência sabe que é uma polêmica que está vindo tarde. Esses direitos têm de ser garantidos a todos os trabalhadores, não só aos domésticos. Mas o caso das domésticas era mais nebuloso.

Nesse sentido, o Esquenta! funciona como uma atração que desconstrói vários estigmas. É assim que você sente?
Meu programa – sempre brinco – é um “varejão”. Porque, em termos de “chiqueza”, é levado ao ar no pior dia e na pior hora. Eu não ignoro a cultura toda que é produzida, não só nas favelas, mas nas periferias e no interior do Brasil inteiro, acho que essa é a realidade que a gente tem. Muita gente sai dizendo “ah, mas os funks… ah, mas a letra do pagode é muito pobre…” Tá. Mas que tipo de educação todas essas pessoas tiveram ao longo dos últimos 40 anos? Eu acho uma maravilha o que ainda se faz, com tão poucos recursos.

Você já afirmou que não gosta muito de termos como “alta cultura” e “baixa cultura”.
Eu fico danada da vida. Porque tudo no meu programa reflete a cultura que está sendo produzida no Brasil no momento. Por pessoas que tiveram acessos e oportunidades diferentes. E fico muito contente de juntar, no mesmo programa, escritores discutindo literatura e o menino que acabou de lançar um funk e de vê-los sentados juntos, conversando. Recebo desde artistas da favela até os presidentes. Lá estiveram FHC, Lula, Dilma, os presidenciáveis, a Marina Silva, o Beltrame e tudo no meio daquele funk, daquele samba, discutindo os assuntos mais sérios de segurança pública. Eu tenho muito orgulho disso.

Já que mencionou os presidentes, o que achou de Jô Soares ter sido agredido por ter entrevistado Dilma Rousseff?
Acho que o Jô reagiu muito bem. Foi sereno e tranquilo. Ele teve uma postura que, acredito, deveria ser a de todo mundo. Porque, do contrário, só aumenta a agressividade. E penso que, como na internet, todo esse tipo de intimidação deve ser tratado com o máximo de calma para que não cresça mais essa onda de violência.

Em entrevistas, você já criticou alguns comentários que circulam na internet, falou sobre linchamento, agressividade. Essas reações a deixam chocada?
Sim. Porque no linchamento clássico existe um cara que está escondido no meio da multidão e que atiça todas as outras pessoas a serem agressivas também. É sempre alguém com uma atitude covarde. E a internet é o melhor lugar para uma pessoa assim se esconder e incitar as outras à violência.

A propósito desse clima, qual a sua impressão sobre o momento que o País está atravessando?
É de muito extremismo. Há muito tempo que eu não via isso. Acho terrível. Essa polarização vai dar, sem dúvida, em um lugar muito ruim, sob todos os aspectos, com todo tipo de intolerância: política, religiosa, racial… Estamos em um momento muito difícil.

Sente isso no programa, ao tentar trazer a questão à tona?
Acho que sim. Estamos em um lugar que não é de tão fácil leitura, que é complexo. A proposta do Esquenta! é sempre o encontro. Amar quem é igual a você é moleza, difícil é amar o diferente. Então, o objetivo no programa é celebrar a diferença. Isso é bom porque mostra uma complexidade e uma abertura para o diálogo.

Acredita que a tendência desse movimento é mudar para melhor? Como acha que a coisa evoluiu nesses anos todos do programa?
Creio que as pessoas têm mais autoestima, maior consciência da sua importância. Não estão mais tão subservientes como a gente vê nos filmes. Ao mesmo tempo, estamos vivendo um momento bem difícil, de extrema polarização e preconceito. As pessoas estão com muito medo. Eu sempre digo que a violência é filha do medo. Por isso foi que a gente sempre trabalhou no sentido de conhecer o diferente. De suportar o olhar o outro, por mais diferente que ele seja de você. Não com condescendência ou caridade, mas no sentido também de diminuir o medo, para trazer mais paz.

Como avalia hoje o episódio da morte, em abril, do dançarino Douglas Pereira, o DG, que era da sua equipe? Que balanço faz das queixas da mãe e de tudo que aconteceu?
Foi muito trágico, triste. Acho que a gente não se recuperou – eu, minha equipe, as crianças do programa. Hoje o que eu sinto é uma vontade de perdoar. Principalmente por ver que, em um momento desses, às vezes as pessoas revelam o que têm de pior. Tudo fica muito exacerbado, com muita dor envolvida, muita violência, sofrimento. Eu sempre rezo pedindo para saber perdoar, para ser tolerante. Quando olho para trás percebo que é isso, quero força para não guardar raiva.

O que representa para você a pressão do ibope?
Depende. Se eu fizesse um programa ao vivo, por certo acompanharia muito mais. Mas eu gravo com muita antecedência, é um trabalho muito elaborado, então não lido tanto com audiência. É claro que me preocupo, mas nunca sofri uma pressão por parte da Globo. Na internet as pessoas inventam qualquer coisa, que o programa está mal, etc. Eu procuro manter a calma e fazer o trabalho da melhor maneira possível. E mais: trabalhamos com um espaço de transgressão. Temos de pensar no longo prazo, que estamos mudando o olhar das pessoas, lidando com preconceitos. E isso exige um certo tempo para ser absorvido.

Você tem um filho adotado, Roque. Como foi a experiência de lidar com a adoção?
É um processo duro, difícil. Nós fizemos tudo no tempo que nos foi imposto. Demorou muito, eu fiquei impressionada. Nós preenchíamos todos os requisitos e, mesmo assim, a lentidão foi enorme. Aí, um dia eles ligam e avisam: “A criança está disponível, se a senhora não for até hoje às 5 horas da tarde vão dar para outra pessoa…”. A gente sofreu muito no processo. Mas é preciso dizer que existem pessoas maravilhosas que nos ajudaram muito.

E o que você diria para quem procura adotar?
A primeira coisa que eu digo é para não ficar passivo. Tem que ir à luta, porque, se ficar em casa, vai demorar uma eternidade. E a relação com a lei está muito defasada, ela precisa ser revista, encarada de outra maneira. É claro que temos de zelar pela segurança das crianças. Entretanto, a tentativa de reintegrar um mar de crianças na família biológica às vezes não dá certo. E a criança só ficará disponível para adoção aos 5 ou 6 anos, quando já é tarde e poucas famílias querem. Enfim, é preciso rever uma série de coisas./MARILIA NEUSTEIN