“Esse vírus não é um juízo de Deus”, afirma teólogo Ed René Kivitz

“Esse vírus não é um juízo de Deus”, afirma teólogo Ed René Kivitz

Sonia Racy

21 de abril de 2020 | 00h55

ED RENÉ KIVITZ – FOTO: DANIEL PETERLEVITZ

Ed René Kivitz, teólogo e pastor da Ibab, a Igreja Batista de Água Branca, em SP, acredita que líderes religiosos que hoje não valorizam a ciência, estão prestando um desserviço à fé e à religião. A favor do isolamento social para conter a covid-19 – diferentemente da maioria de seu colegas pastores evangélicos – Kivitz é pragmático. “A superação do coronavírus vem por meio da medicina, da ciência”, afirma o pastor, para quem esta pandemia já trouxe um grande aprendizado: uma reconciliação entre ciência e religião.

O teólogo, com sete livros publicados, tem realizado cultos online para mais de 6 mil pessoas. Ele tem ido pessoalmente, aos domingos, à Ibab para fazer as transmissões. Está sentindo “tristeza enorme ao ver a igreja esvaziada”. “As pessoas me perguntam se esse vírus é um juízo de Deus. Eu digo que não. É consequência da maneira como habitamos o planeta: de forma obtusa”.

IBAB – FOTO: DANIEL PETERLEVITZ

O reverendo não julga diretamente os que acham que religião é coisa de quem sabe pouco. “Para nós enfrentarmos o sofrimento humano, a ciência não dá conta, tem que buscar o espírito. É esse o lugar da religião – o de oferecer suporte emocional e coragem existencial”. Ele frisa que o que coloca homens e mulheres na linha de frente da saúde expondo suas próprias vidas “não se compra em farmácia, não se fabrica em laboratório”. “Tanto o sacerdócio bem como a medicina, se movem pela compaixão, pela misericórdia”, diz, ressaltando, no entanto, que “a fé não nos torna imunes a nenhum vírus”.

Kivitz é dos poucos reverendos no País que não apoiou ou apoia Bolsonaro. “A maior parte de evangélicos desejaria, sim, que eu o apoiasse. Mas não me identifico com ele. Por outro lado, o pessoal da esquerda acha que estou vacilante”, conta.

A atuação do presidente, segundo o pastor, “compromete bastante” o estado laico. “Fé é escolha, não é imposição. O atual governo buscou no discurso religioso a sua fonte de autoridade. Temo estarem confundindo pessoa eleita democraticamente com enviado de Deus”.

Para Kivitz, quem dá autoridade ao presidente é a urna. Não é Deus./CECÍLIA RAMOS 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: