‘Essa não será a Olimpíada de quebra de recordes’, afirma Hortência

‘Essa não será a Olimpíada de quebra de recordes’, afirma Hortência

Sonia Racy

19 de julho de 2021 | 00h50

Hortência Marcari. Foto: ESTEVAM AVELLAR/GLOBO

Maior pontuadora da história do basquete feminino brasileiro, com 3160 pontos marcados em 127 partidas oficiais, a ex-jogadora Hortência Marcari, 61, está de malas prontas para Tóquio, onde será comentarista dos canais SporTV e da Globo em todos os jogos da modalidade. Infelizmente o Brasil estará fora desta vez. Além do basquete masculino e feminino, Hortência vai comentar também a novidade olímpica, o basquete 3 X 3.

Comandado por um técnico croata, o time brasileiro masculino quase chegou lá e teve um bom desempenho no Pré-Olímpico, mas perdeu para a forte equipe da Alemanha em um jogo disputado ponto a ponto. Já a seleção feminina, que viveu seus momentos de glória com Hortência, passa hoje por um momento delicado e de renovação.

Nesta entrevista ao repórter Pedro Venceslau, a ex-atleta avaliou a situação do esporte no País e se mostrou cética quanto recorde de medalhas. Mãe do cavaleiro João Victor Oliva, que vai disputar pelo Brasil, na categoria hipismo adestrado, “é sua segunda Olimpíada”, o momento é de superação, já que a maioria dos participantes teve que passar muito tempo longe das quadras, pistas e piscinas. Chances do jovem de 25 anos? “Só a experiência que o João Vitor está vivendo, já é muito importante”.

Hortência também falou sobre a relação dos atletas profissionais com a camisa verde amarela do Brasil, que transformou-se em símbolo da polarização política. Ao entrar no túnel do tempo, Hortência relembrou e contou os bastidores de um dos momentos mais emocionantes de sua carreira, quando a seleção feminina venceu os jogos Pan-Americanos de Cuba e recebeu a medalha de ouro das mãos de Fidel Castro. Segundo ela, foi ali que o Brasil deu um salto e passou a jogar de igual para igual com outras equipes do mundo, inclusive os Estados Unidos.

Outro tema abordado na conversa foi o ineditismo de uma Olimpíada disputada em plena pandemia e sem torcida nas arquibancadas. O Brasil chega ao Japão com 301 atletas. Trata-se da maior delegação em uma edição fora de casa. Até hoje, a maior delegação brasileira em jogos fora de casa foi em Pequim-2008, com 277 atletas. No Rio de Janeiro, em 2016, foram 465 representantes.

Como avalia a ausência do Brasil em todas as modalidades de basquete em Tóquio?
Não estamos representados em nenhuma das competições de basquete. Isso é uma questão de gestão. A gente sente isso de ir na Olimpíada e não comentar nenhum jogo do Brasil.

O Brasil ficou fora por má gestão da modalidade ou azar?
Não existe azar. Existe uma gestão que veio de anos e desde a minha época já não era considerada muito boa, mas agora mudou e estamos dando um tempo para ver. O basquete brasileiro está recomeçando. A Paula, que foi minha companheira na seleção, hoje é vice-presidente da Confederação Brasileira de Basquete e responsável pelo feminino. A eleição foi esse ano e ela acabou de entrar. Temos que dar uma oportunidade. O brasileiro gosta de basquete. A Confederação não tem certidão positiva para pegar patrocínio do governo. O dinheiro não pode entrar. Fica difícil trabalhar desse jeito.

A Seleção Brasileira masculina de basquete, que tem um técnico croata, não se classificou por pouco e perdeu para a Alemanha no último jogo do Pré-Olímpico. Não temos bons técnicos no Brasil?
Eu não tenho nada contra técnicos internacionais. Não vejo problema em termos um técnico ou jogador de fora jogando aqui. O Brasil foi muito bem no Pré-Olímpico. Foi uma surpresa não ter se classificado. É muito pouco ter 12 seleções nos jogos.

Tem planos de disputar cargos eletivos ou fazer uma carreira no poder público?
Não tenho vontade. Não gosto de me envolver politicamente em nada.

Como avalia a relação hoje dos jogadores brasileiro com a camisa verde amarela?
Na nossa época era diferente. Hoje em dia um jogador da NBA custa milhões de dólares. A própria NBA exige um seguro, que não é barato. O Schroeder, que é um atleta alemão da NBA, não jogou pela Alemanha contra o Brasil porque não tinha seguro. A seleção alemã não conseguiu pagar o seguro dele. Eu não o culpo por isso, e não julgo. O que não podemos é depender de 3 ou 4 jogadores. A Alemanha ganhou sem ele.

Acha que houve uma contaminação política da camisa verde e amarela do Brasil nesse processo polarização que o País vive? Virou símbolo bolsonarista?

Na Copa América, por exemplo, teve muita gente torcendo pela Argentina na final…
A camisa do Brasil é do Brasil. Somos verde, amarelo, azul e branco. Não se pode julgar ninguém por estar com a camisa verde amarela em dia de jogo da Seleção Brasileira, seja qual esporte for. Isso não quer dizer que sou A, B ou C na política. Não entro nessa politização de esquerda, direita e centrão. Eu visto a camisa do meu País. Sou brasileira.

A Fernanda Venturini, que foi uma das maiores atletas do vôlei brasileiro, fez um vídeo polêmico se colocando contra a vacina. O que achou do episódio?
Ela pediu desculpa pela postagem, que foi infeliz.

O que você espera do desempenho do Brasil na Olimpíada?
A gente não sabe se vai ter quebra de recordes, nem como os atletas estão chegando. Teve gente que ficou mais de um ano sem entrar numa piscina ou numa quadra devido a pandemia. Essa não será a Olimpíada da quebra de recordes. Será a Olimpíada da superação. Os atletas vão passar a mensagem para o mundo de que estão ali independente do resultado. Talvez o Brasil não supere o seu recorde de medalhas, mas as pessoas vão aplaudir o fato dos atletas estarem ali.

Tenho viva a lembrança do Fidel Castro colocando a medalha no seu pescoço no Pan Americano de Cuba. Que memória você guarda daquele momento?
Aquele momento foi quando começamos a alavancar a nossa geração. Em Cuba (1991) ganhamos a medalha de ouro. Depois em 1994 fomos campeãs do mundo e em 1996 pela primeira vez disputamos a final de uma Olimpíada. Até 1991 todo mundo só falava de Estados Unidos. Depois começamos a jogar de igual para igual com qualquer equipe.

O que Fidel cochichou no seu ouvido na hora da medalha?
Ele brincou com a gente porque eu e a Paula não errávamos arremesso. Foi um momento de muita emoção para nós. A gente queria muito ouvir o hino do Brasil. Poucos atletas têm esse privilégio. É a sensação mais deliciosa do mundo. É uma sensação muito particular e íntima de cada atleta. Eu quis viver muito aquilo.

Como avalia o nível da Seleção Brasileira Feminina de basquete hoje?
Não está em um momento bom. Não foi para o campeonato mundial nem Olimpíada. Estão começando um novo ciclo. Eu não acredito em resultados em curto prazo.

Os Estados Unidos ainda dominam o basquete em todas as categorias?
Sim. Inclusive é mais difícil ganhar deles no feminino do que no masculino. É favorito absoluto ao título. Tem jogadora que enterra, algo que é raro de ver no feminino.

Em que nível está o Brasil nessas novas modalidades de basquete?
Sim, mas gostei muito da equipe brasileira no Pré-Olímpico (de 3X3). Perdeu no finalzinho e jogou de igual para igual. É uma modalidade mais democrática.

Deve ser mais difícil jogar uma Olimpíada sem público?
Nunca joguei sem público. É muito estranho. Não é fácil jogar para ninguém. Vamos ter que superar. Não há outra opção.

Falta transparência na gestão das federações esportivas brasileiras?
Não estou lá dentro. Faço parte da comissão de atletas do comitê olímpico do Brasil. A gente defende os atletas e procura ver os problemas nas federações.

Como estão fluindo os patrocínios no basquete brasileira?
A pandemia afetou bastante as empresas. Elas deram um passo para trás. Tem muito atleta na Olimpíada que ficou sem patrocínio e está treinando sozinho.

Os Jogos Olímpicos de 2016 deixaram algum legado para o Brasil?
Existe um legado que não aparece, que é inspiracional. Muita criança assiste e muita gente começou a praticar esporte depois da Olimpíada. Presenciaram aquilo perto da sua casa.

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