‘Essa coisa de ter cargo e poder nunca foi algo que me interessou’

‘Essa coisa de ter cargo e poder nunca foi algo que me interessou’

Sonia Racy

20 de maio de 2013 | 01h02

Denise Saraceni (Foto: Vera Donato/Estadão)

Única diretora de núcleo da TV Globo, a carioca de 59 anos fala de sua paixão pelas novelas e pelo set. E aconselha os jovens: “Não dá para crescer sem meter a cara”.

Ela não para quieta. Ritmo de trabalho? De 12 a 14 horas por dia. Projetos? Além das filmagens de Saramandaia, remake da famosa trama de Dias Gomes, está às voltas com um seriado e uma novela das sete, também na Rede Globo. Sem falar em seu primeiro longa, Pixinguinha, Um Homem Carinhoso. E ainda diz que não é workaholic: “Já fui muito mais, mas quando os projetos são muito interessantes fica difícil não fazê-los”. Ela é Denise Saraceni, 59 anos, primeira – e única – mulher diretora de núcleo da maior emissora de TV do país.

Do alto de tão poderoso (e cobiçado) posto, a carioca não dá sorte ao azar. Seu escritório no Projac, na zona oeste do Rio, é repleto de patuás. Tem imagem de Nossa Senhora e São Jorge, tem lembrança do candomblé e objetos que vieram da Grécia e da Índia. Todos presentes. Atrás de sua cadeira, uma figa e um olho grego chamam a atenção. “Arrumo umas coisas protetoras sim, tudo que dá sorte, figa, sal grosso. Uso tudo”, conta.

Foi nesse ambiente que Denise recebeu a coluna, dia 9, quando as gravações de Saramandaia completavam um mês. A entrevista começou bem depois do previsto. Descuido? Nada disso. A diretora quis estar presente quando duas atrizes debutavam no folhetim. “Meu negócio é o set.” Cuidado de quem busca a perfeição e é intolerante com a desatenção em cena.

Nascida em berço cinematográfico – é sobrinha de Paulo Cezar Saraceni, um dos expoentes do Cinema Novo –, Denise escolheu trocar o caminho óbvio da telona pelo da telinha. Pensou em ser médica. Mas, como gosta de dizer, acabou escolhida. “Eu era apaixonada por novela. Já tinha atores por quem eu era alucinada”, relata. “Quando eu vi Mulheres de Areia, fiquei louca. Como é que pode aquilo pegar na gente daquele jeito?”, indaga. Pois é, pegou mesmo.

Leia a seguir os principais trechos da conversa.

Você está envolvida em vários projetos – Saramandaia, filme, novela, seriado. E ainda diz que não é workaholic.

Eu já fui muito mais workaholic, mas, quando os projetos são muito interessantes, fica difícil não fazê-los. Gosto do que faço e é um trabalho que se mistura com o lazer. Se vou ao cinema, estou estudando. Se vou ao teatro, estou vendo os atores, aprendendo.

Qual é sua carga horária?

Quando a gente está gravando, de 12 a 14 horas. Mas tem dias que não faço nada: vou ao cabeleireiro, faço alongamento, relaxamento. Tenho o dia do spa. De 15 em 15 dias eu sumo.

É muito estressante trabalhar em televisão?

É. Por mais que eu faça do meu trabalho um grande encontro. No começo é muito estressante porque você não sabe nada. Hoje, sou bem mais relaxada. Mas alcancei, ao mesmo tempo, um nível de amadurecimento e um nível de impaciência. E tem coisas que se repetem eternamente – o atraso de um ator, de uma figuração, uma conversa no meio do set.

A internet mudou a maneira de fazer TV no Brasil?

A TV ainda está buscando conviver com ela. A gente ainda não sabe como – fora algumas experiências interessantes, como Cheias de Charme e Malhação, que usam a interatividade. É preciso experimentar mais a internet como linguagem, aproximar os dois veículos para criar um público. Não faço uma exigência para gerações que não tiveram a internet como parceiros na formação. Basta cada autor, cada diretor trabalhar com os instrumentos que ajudaram a formar a cabeça deles.

Você é conhecida por incentivar novos autores e gosta de trabalhar com novos atores.

Gosto muito, acho que isso nos inquieta, nos faz crescer. Tem muita gente jovem que começou comigo. Muitos com quem trabalhei se tornaram excelentes atores. É gratificante. Não dá para crescer sem meter a cara. A grande dificuldade é que você vem com um autor novo, mas já tem uma história anterior. Eu não quero fazer a mesma novela que fiz dois anos atrás. Tem que ter uma concentração grande para sentir o que é que aquela pessoa pode trazer de novo e focar naquilo. E muitas vezes deixar vir o elenco novo – porque aí ele vai fazer sua cara. Claro que tem que ter sempre um nome para sustentar a produção. O mais legal, o que dá certo, é quando eles rompem o medo.

Escolher o elenco é uma das partes mais difíceis numa produção. Já está no automático?

Não. Uma coisa que aprendi na profissão é que o personagem acha os seus atores. Os autores, em geral, ficam tensos porque precisam da cara do ator para imaginar. E, muitas vezes, isso demora. De repente, só na véspera de gravar você acha o ator para aquele papel. Nunca me arrependi de escalação nenhuma. Mas é a parte mais difícil de um trabalho. Para o resto tem muita técnica – mas sofro muito mesmo assim. É um sofrimento da criação, de não saber se vai dar certo. São muitas expectativas para administrar. O que ajuda? Uma equipe genial e procurar não ficar no óbvio. Principalmente num trabalho como Saramandaia.

Saramandaia vai ser um remake com inspiração livre? Como lidar com o realismo fantástico?

Nossa primeira preocupação foi o respeito absoluto ao que foi feito. E como trazer aquela história para hoje, com todo o aparato de produção, com uma história do Brasil completamente diferente?Saramandaia foi passada na ditadura militar, fazia referências históricas. Eram quase sketches, metáforas, uma linguagem nova. Optamos por fazer uma novela para o público de hoje. O Ricardinho (Linhares, que adaptou o texto) criou um fio condutor para sustentar a trama, onde esses personagens do realismo fantástico cruzam e são codependentes dessa história. Os elementos centrais foram mantidos, mas também foram criados personagens novos.

Pixinguinha, seu primeiro longa, é um retorno às origens?

É praticamente uma homenagem a meu pai, que era produtor do Paulo (Saraceni). É muito simbólico. O Paulo fez tanto pelo cinema numa época que era uma paixão muito grande. Eu cresci com as dificuldades do cinema. Quando fui convidada para fazer o filme, falei: “Acho melhor não mexer nisso porque eu sou uma pessoa traumatizada pelo cinema”. Mas realmente me apaixonei pela história.

Qual será a sensação quando o filme ficar pronto?

Não sei. É muito difícil, pela experiência que tenho, chegar no cinema ainda artesanal, sem estrutura, por incrível que pareça, vinte, trinta anos depois. Acho que ainda não existe, inacreditavelmente, a indústria cinematográfica brasileira. Quando você vai enfrentar uma produção de um personagem como o Pixinguinha – um filme delicado, importante – , isso tem que ser feito com tempo, com dinheiro, com qualidade internacional. Não que o cinema brasileiro não tenha qualidade. Surpreendentemente, tem uma qualidade extraordinária.

Mas o que falta para que essa indústria funcione?

Falta fazer mais filmes e uma captação de verbas mais orgânica. Nem acho que seja uma questão de incentivos. Não entro muito na questão política porque acho que não tem produtores com grana. Tudo depende de alguém, tudo depende, de uma lei. Também não quero entrar nesse lamento porque não sou uma mulher de cinema, trabalho numa empresa que tem tudo isso. Mas acho que tem que ser uma coisa mais ágil. Não mudou muita coisa. Você tem mais leis, mais incentivos, mais dinheiro, mais empregos, mas não há, culturalmente, um interesse para que o cinema aconteça para todo mundo.

Você escolheu a TV ou foi ela que te escolheu?

Foi a TV que me escolheu. Aliás, eu ia ser médica. Eu era uma menina apaixonada por televisão, apaixonada por novela. Já tinha atores por quem eu era alucinada. Tipo Fernanda Montenegro, Aracy Balabanian, Eva Wilma. Quando eu vi Mulheres de Areia, fiquei louca. Como é que pode aquilo pegar na gente daquele jeito? Nos anos 70, conheci Maria Carmem Barbosa, que era produtora do Daniel Filho, e falou: “Você tem que ir para a televisão”. Ela ia ser produtora de Malu Mulher e me convidou para ser assistente. Foi marcante. Ali, eu aprendi a fazer TV em grupo e conheci grandes amigos. Fiquei nove anos produzindo. Até que chegou o momento em que achei que precisava fazer mais. E comecei de novo, como assistente de direção. Logo, estava dirigindo.

Sofreu preconceito na TV por ser mulher?

Toda vez que eu sinto que há um preconceito, por ignorância ou safadeza, essa pessoa é imediatamente tirada do meu ambiente profissional. Claro que há, de vez em quando, até hoje – não comigo porque agora o bicho pega. Mas há muito preconceito com os jovens. Eu sofri mais preconceito por ser uma diretora jovem, que veio do Cinema Novo, que tinha o nome Saraceni, do que propriamente por ser mulher. Não busquei ser diretora de núcleo. O meu desejo era de ser uma diretora artística respeitável. Essa coisa de cargo, de poder, nunca foi algo que me interessou. Meu negócio mesmo, meu prazer, minha realização, é o set, é criar, é estar conceituando. Claro que um diretor de núcleo, hoje, é um concentrador de credibilidade, de importância dentro da televisão.

Seu escritório é cheio de patuás. Você é religiosa?

São presentes que eu recebo. Acredito muito na força acima de nós. Sou uma pessoa profundamente espiritualizada. Preciso de muita força e apoio, de todos os santos, de todas as religiões e acredito nisso. Sou católica, mas, por exemplo, fui agora ao Japão e frequentei templos budistas, entende? Faço um passeio pelos lados positivos das religiões, sem interferência das instituições. E rezo muito, mergulho no mar, rezo para Iemanjá, entro na igreja e fico lá falando com Santo Antônio. E arrumo umas coisas protetoras sim, tudo que dá sorte, figa, sal grosso. Uso tudo. Nunca é demais./MIRELLA D’ ELIA

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