Para educadora, MEC poderia ter lutado por menos cortes

Para educadora, MEC poderia ter lutado por menos cortes

Sonia Racy

20 de maio de 2019 | 00h30

PRISCILA CRUZ / FOTO: IARA MORSELLI

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Priscila Cruz, da Todos Pela Educação, diz que o governo precisa
‘desinflamar o discurso e negociar’ e adverte: manter o vínculo
entre aluno e professor é fundamental para o aprendizado

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Pela primeira vez as manifestações de rua – na última quarta-feira, em todo o País – tiveram a educação como pauta principal. E colocam o governo na parede para decidir que rumo dar a essa área nos próximos anos. Quem faz essa reflexão é Priscila Cruz, da Todos Pela Educação. A presidente da organização recebeu a repórter Marilia Neustein para entrevista no dia seguinte aos protestos e espera duas coisas. Que o governo adote um discurso menos inflamado e que um projeto voltado para a educação comece a ser implementado.

“Isso exige todo mundo trabalhando junto e não inimigos na ponta”, diz. “Faz parte do trabalho do gestor público negociar com todas as partes, fazer essa articulação”, adverte. Para Priscila, o Brasil vive uma situação fiscal “crítica”, porém o contingenciamento poderia ser aproveitado para se fazer melhorias de gestão. “Cortes podem ser bons para ajustes de gestão, contratos, soluções criativas, planejamento estratégico, ante um cenário mais apertado. Mas é preciso frisar: isso não significa que o Brasil já investe muito em educação”. Abaixo, os principais trechos da entrevista.

O número de manifestantes dos protestos na semana passada foi uma surpresa? 

Acho que a convocação da Câmara dos Deputados e a fala do próprio presidente acabaram ampliando a manifestação. Muita gente aderiu por conta do que aconteceu 24 horas antes. Houve outras demandas, mas a educação foi o tema preponderante dos protestos. Isso é um sinal importante, pois não temos no Brasil um histórico de manifestações pela educação. Pode ter um peso simbólico, a depender da reação do governo.

De que maneira?

O governo tem de ter a clareza de que, para uma gestão que prioriza a educação básica é necessário um ambiente positivo e propositivo. Políticas públicas de cadeia longa de implementação – na União, nos Estados e municípios, com uma quantidade enorme de trabalhadores na ponta – começam no gabinete e não sobra nada no outro extremo. Por que não sobra? Porque o que mantém essa cadeia eficiente é a confiança que seus agentes têm nas lideranças públicas.

Em geral, o que é que as lideranças fazem para manter esse elo de confiança?

Elas não inflamam, não criam um ambiente negativo de trabalho, adotam falas moderadas e construtivas. É difícil você ver um gestor público interessado nessa cadeia de implementação ter uma fala inflamada. Porque ele sabe que essas duas situações são incompatíveis: inflamar e querer resultados. Não é compatível.

Você está dizendo que é necessário o governo dialogar? 

Sim. Ter muita conversa, gerar um empoderamento dessa cadeia. Se o governo Bolsonaro quiser entregar resultados educacionais tem que acabar com o discurso inflamado, entender que o período eleitoral acabou e que precisamos entrar em outro modo.

Qual modo?

De concepção e implementação. Isso exige todo mundo trabalhando junto e não inimigos na ponta. E isso que estou dizendo não é uma imagem quixotesca, eu sei que tem quem joga contra. Vivemos em uma sociedade plural, que acolhe diferentes visões. Mas faz parte do trabalho do gestor público negociar com todas as partes, conseguir fazer essa articulação.

E isso não está acontecendo? 

Não. Estamos vivendo um ambiente em que as lideranças públicas estão incitando essa disputa. Para quem está preocupado com o resultado educacional, o relógio está andando. É preciso acalmar os ânimos.

A questão ideológica está se sobrepondo à questão pragmática de resultados? 

Não acho que seja tão simples assim, mas essa é uma impressão forte que eles passam. Por outro lado, se você olhar a apresentação que o ministro levou tanto para o Senado quanto para a Câmara, é uma apresentação pragmática. Não há muita nuance ideológica. Por isso acho que eles estão ainda tentando entender a qual bandeira vão se agarrar. Só que não dá para agarrar ao mesmo tempo a bandeira ideológica e a técnica-pragmática. Porque uma inviabiliza a outra. O (ministro) Abraham Weintraub terá que fazer uma escolha. Acho que ele está flertando com os dois caminhos, quer compatibilizar duas coisas incompatíveis.

Quanto ao contingenciamento de verbas, acha que seria possível não haver cortes na educação? Ou cortar menos? 

Sem dúvida vivemos uma situação fiscal crítica. Não dá para tapar os olhos ou ser ingênuo. Mas cortes podem ser bons para fazer ajustes de gestão, contratos, procurar soluções criativas, planejamento estratégico. Seria um bom gancho pra promover melhorias de gestão. Mas é preciso ressaltar: isso não significa que o Brasil já invista muito em educação.

É um discurso que está sendo repetido, que já se investe muito. 
O Brasil investe em proporção do PIB algo semelhante ao que os países da OCDE investem. No entanto, o nosso PIB per capita é menor e nós temos 47 milhões de alunos. Os países da OCDE não têm esse contingente tão alto. Quando vamos fazer a distribuição desses recursos para as crianças e jovens, o que chega é o equivalente a um terço do que se investe. Então ou é falta de informação ou desonestidade intelectual dizer que o Brasil investe muito em educação.

Acha que o governo não soube explicar a crise fiscal para comunicar uma melhoria de gestão?
Não é só o comunicado. Em momentos de corte você não faz isso de maneira linear. É preciso tratar entidades, pessoas e instituições diferentes de formas diferentes, senão você nivela por baixo. É isso que está acontecendo: um corte linear com esse discurso da isonomia, enquanto a gente podia usar os cortes para promover melhoria de gestão lá na ponta.

E a postura do ministro? 

Eu gostaria de ter visto, como cidadã, um MEC lutando por menos cortes. O Marcos Pontes fez isso na Ciência de Tecnologia. É função do ministro defender sua pasta.
O ministro tem batido na tecla da educação básica, algo também dito em outras gestões.
A Constituição diz que os municípios são responsáveis pela educação infantil e pelo ensino fundamental. Os Estados, pelo ensino fundamental e o ensino médio. E que a União é responsável pelo ensino superior – e, na educação básica, pela função supletiva de financiamento e de apoio técnico.

De que maneira vocês avaliam esse papel de impacto do governo federal na educação básica?

O que temos visto é que todos os programas em que o governo federal apoia Estados e municípios financeiramente têm impacto. E que uma coordenação técnica nacional é fundamental.

O que você acha de projetos como voucher para educação privada ou home schooling, que também estão na pauta? 

Na educação não temos uma capacidade instalada na iniciativa privada para atender 47 milhões de alunos. A escola é um atendimento diário de no mínimo 5 horas por dia, de 47 milhões de crianças e jovens. Eu não me oponho a ter um projeto piloto de propostas tipo voucher. Não se trata de um bloqueio ideológico em relação a isso, mas me parece uma aposta incerta quando já temos algumas certezas – por exemplo, que os Estados que ampliaram sua rede de escolas de tempo integral estão tendo resultado estratosfericamente maior no ensino médio.

E quanto ao ensino domiciliar?

É a mesma coisa, como acréscimo de “pior”. Se for uma política promovida pelo Estado, as primeiras crianças que vão deixar de ir pra escola são as com deficiência e aquelas cujos pais querem que trabalhem. Além disso, vai ser mais caro para o Estado – que terá de avaliar essas crianças todos os anos, em todas as disciplinas. Imagina a operação que é isso em território nacional? Pro Brasil, em plena crise fiscal, é melhor usar a energia dirigida a promover o home schooling para melhorar a escola pública.

A figura do professor está sendo tratada de forma pejorativa em certos discursos. Como vê isso? 

Entre todos os determinantes de qualidade, quando olhamos o que faz um aluno aprender, o professor é o maior deles. Maior que a gestão da escola, o financiamento. Tudo. Porque existe uma dinâmica que acontece no processo de aprendizagem: a relação de confiança que se estabelece entre aluno e o professor. Essa relação precisa ser positiva. Se o governo e a população começam a dizer pro aluno filmar e denunciar o professor, essa confiança é quebrada. A aprendizagem acaba aí.

O governo diz que os professores fazem doutrinação na sala de aula. 

É desejável que tenha doutrinação na escola? Claro que não, o professor está lá pra ensinar. Mas estimular alunos a denunciarem os seus professores é a estratégia mais equivocada, se a gente quer resultado educacional. Porque ao fazer isso a gente está rompendo o vínculo positivo do aluno com o professor. Como que você soluciona a doutrinação – que está longe de ser algo comum? Por dois caminhos: gestão escolar – quem tem que observar o professor se perceber doutrinação é o diretor de escola. E a outra estratégia, que os países decentes adotam, é formar o professor. Você faz formação. O professor não vai ter nem tempo para isso.

O Brasil não respeita os profissionais da educação?
Somos um País que não valoriza a educação, não a usa como um eixo central do seu projeto de nação. A gente nunca levou a educação como um vetor de desenvolvimento social, de redução da violência, das desigualdades. Valorizar a educação no dia a dia é valorizar o professor, os profissionais da educação. São eles que estão executando a política.

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