Fogaça viaja a Portugal e quer abrir restaurante por lá

Fogaça viaja a Portugal e quer abrir restaurante por lá

Sonia Racy

19 de agosto de 2019 | 00h50

CHEF HENRIQUE FOGAÇA. FOTO: ALT TASTY

O chef dono do Sal Gastronomia diz que visita à terrinha  
‘abriu sua cabeça’ e quer ter lá um lugar ‘pequeno, para 60 a 70 pessoas, levar minha gastronomia pra fora’.
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Henrique Fogaça quer ter um pé na Europa. País escolhido? Portugal. “Passei um tempo lá e vi que existem facilidades para brasileiros abrirem negócios”, diz o chef, que pretende levar seu famoso Sal Gastronomia para a terrinha. “Minha comida é internacional. Vem alemão, francês, japonês… e gostam. Então diria que minha comida fala com ‘o estômago universal’.” E acrescenta: “A viagem a Portugal abriu minha cabeça”.

Ele também aproveitou a ida a Portugal e participou do ‘Master Chef’ de lá. “Até me reconheceram na rua”, disse à repórter Sofia Patsch, durante entrevista em seu restaurante no Shopping Cidade Jardim.
Ainda sentindo muita dor por causa do acidente de moto que sofreu há pouco – e lhe custou algumas costelas quebradas e um descanso forçado – Fogaça disse que o fato o fez refletir. “Passei uma semana de molho na casa da minha mãe e me perguntei: o que importa na vida? Trabalhar importa? Sim. Até quanto? Ficar fazendo tudo para os outros.” Desde então vem “praticando” falar não, coisa difícil para ele. “Sou muito bonzinho, sei da minha essência, se deixar eu vou fazendo.”

Bonzinho mesmo. Após três votações polêmicas, ele acaba de assumir como síndico de seu prédio, o condomínio Baronesa de Arary, com mais de 700 apartamentos e 25 andares na Avenida Paulista. Ele mora na cobertura. “O bagulho é louco naquele prédio. Lá dentro acontecia um reflexo do que está acontecendo no Brasil, estamos fazendo uma “mini Lava Jato interna”, era muita corrupção.” Confira a seguir os principais trechos da conversa.

Está pensando em abrir um Sal em Portugal. Por quê?
Há três meses fiz uma viagem pra lá, fui convidado a comandar o Jantar do Ano, evento para 1.000 pessoas que está em sua terceira edição. Sempre foi só para portugueses, mas este ano resolveram fazer um intercâmbio gastronômico entre Brasil e Portugal, muito legal. Aproveitei minha ida e participei do ‘Master Chef’ português. Também assinei um prato para harmonizar com os vinhos da Cartuxa, uma vinícola que fica em Évora. Resumindo, fiz esses eventos e me dei conta de algumas facilidades que nós, brasileiros, temos em abrir negócio por lá.

Já tentou abrir restaurante em outro local?
Há um tempo atrás quis abrir um Sal em NY e outro em Miami, mas a burocracia é muita, acabei desistindo.

E quais são as facilidades de Portugal?
Nessa última viagem abri minha cabeça. Portugal é na Europa, que, de uma certa forma, é o berço da gastronomia. Lá estou ao lado da França, por exemplo. Minha participação no ‘Master Chef’ me trouxe visibilidade no país, muita gente vê o programa lá, até me reconheceram na rua. Além da facilidade da língua. Às vezes, claro, você não entende alguma coisa, mas em três dias isso passa, afinal é tudo português. Minha comida é contemporânea, internacional. Vejo pelos clientes que visitam o Sal. Vem alemão, francês, japonês e gostam. Então, posso dizer que minha comida fala com o estômago universal.

Como descreve sua comida?
Igual à de qualquer outro. Não sou muito de ler a respeito, meu negócio é comida. Vamos ver esse cara, o cara é de peso, tem estrela Michelin, vamos ver qual é que é. Vou no restaurante e vejo, na comida, no atendimento, nas coisas e aí tiro minha base. E olha, não fico atrás de nenhum, viu?

E como ficam os negócios no Brasil?
Estão fluindo. Tem o Sal no Shopping Cidade Jardim, o Salzinho, o primeiro em cima da Galeria Vermelho, que tem 15 anos, o Sal Grosso no Rio de Janeiro, administrar esses estabelecimentos é um treminhão. Sabe o que é um treminhão? Aqueles caminhões que transportam cana (risos). São 347 funcionários. Meu irmão, que é um cara bom de números, está de sócio comigo já faz um ano e pouco, por isso estamos crescendo organizados. Mas quero pôr uma bandeira do Sal lá na Europa.

Então já está em andamento essa ideia da Europa?
Fico um mês lá, monto uma equipe, um restaurante, não do tamanho dos daqui, um menor. Do tamanho do Salzinho, uns 60, 70 lugares, pra eu poder levar minha gastronomia pra fora. Vi que fui bem aceito, as pessoas me conhecem.

Não tem medo de não dar certo?
Minha ideia é ter um pezinho lá, um restaurante pequeno. O turismo é muito grande, aparecem brasileiros o ano inteiro. A gente é o primo pobre do português, né, então a gente se entende, achei o povo português muito parecido com o brasileiro, só a forma de pensar que é meio inversa.

Inversa como?
Um chef de lá do ‘Master Chef’, o Rui Paula, gente boa, tem alguns restaurantes no Porto. Pensei em fazer um cross com ele, trazer o Rui pra cá, dar uma aula, fazer uma parada como a que eu fiz lá. E aí mandamos um convite para ele vir dar uma aula no ‘Master Chef Brasil’ e perguntamos quais datas ele tinha disponíveis. Ele respondeu com uma lista das datas que ele não tinha disponíveis (risos).

E pretende se mudar pra Europa ou só ter um negócio lá?
Penso nos meus filhos. Lisboa foi considerada a segunda cidade mais segura do mundo no ano passado. Eu perguntei, não tem assalto aqui? E me responderam que não. E assassinato? Daí eles falaram, pô, teve um há 10 anos, um cara com uma faca. Entende? Pensando nos filhos, eu um cara mais velho. Não sei, a vida é uma caixinha de surpresas. Fui pra Itália também participei do Master Chef de lá, sou ligeiro numas coisas, sempre fui assim na minha vida. O não eu já tenho pra tudo, então eu vou pra cima.

E aqui no Brasil vai rolar mais uma temporada do Master Chef?
Vai, vamos começar a gravar agora em setembro. Eles vão convidar os ex-participantes. Vai se chamar All Star, algo assim. Aí eles vão selecionar os mais polêmicos, né? Os mais folgados, sei lá, televisão quer ibope (risos). Não sei quem eles vão chamar na verdade, só sei que vai ser engraçado.

Nunca pensou em ter um programa só seu na TV?
Já tive um programa no Discovery, gravei há 5 anos atrás, chama ‘200 Graus’. É meio um lifestyle mostrando um pouco da minha vida, moto, banda de rock, os filhos, nós fizemos uma temporada. Eles iam renovar, aí passou, aconteceram algumas coisas no meio do caminho e não renovamos. Mas hoje, mais do que nunca, não. A televisão é boa, muito boa, mas acho que o ‘Master Chef’ é suficiente. Posso mudar de ideia mais pra frente? Sim. Mas agora o meu foco é a organização e presença nos restaurantes, o que significa parar um pouco de viajar pelo Brasil e fazer tanta coisa, que isso está virando carne de vaca, eu me sinto sugado pelo sistema, pelo mundo. Então o acidente veio para interromper tudo isso.

Você caiu da moto? Como foi?
Sou embaixador de uma marca de motos, fui fazer um teste numa moto que vai ser lançada, andar na terra. Tinha uma pedra no meio do caminho, estava atrás, subiu uma enorme poeira, não vi mais nada e bati na pedra. Quebrei as costelas. Fiquei uma semana na casa da minha mãe e nesse tempo pensei muito. Me perguntei o que importa na vida. Trabalhar importa? Sim. Até quanto? Ficar fazendo tudo para os outros. Você vai pro Acre, pra Roraima, pro diabo que o carregue fazer uma palestra ou fazer qualquer coisa que seja? Vou, vou. Pagam bem? Pagam bem. Mas e aí? E a minha energia?

Não consegue falar não?
Sou muito bonzinho, sei da minha essência, se deixar eu vou fazendo. Já faz um tempo que venho praticando falar não. Mesmo quando a proposta é boa, coloco na balança ter um fim de semana com o meu filho, dinheiro nenhum vai me comprar isso. Já me comprou? Não me comprou, eu ia fazendo, ah, beleza, ia topando tudo. Sempre rolava um arranca rabo com a ex-mulher. Hoje minha prioridade é falar não, porque preciso cuidar do meu lado espiritual, físico e mental.

Você já é muito ocupado e ainda virou síndico do seu prédio. Por que quis esse cargo?
O bagulho é louco naquele prédio. Lá dentro acontecia um reflexo do que está acontecendo no Brasil, estamos fazendo uma mini Lava Jato interna. Era muita corrupção. Tinha uma quadrilha administrando o prédio e depois de muita briga nós tiramos eles de lá. Estavam roubando os moradores há 18 anos, roubando muito.

Como?
São 700 apartamentos no prédio, tem gente que invadiu em 1990 e mora lá até hoje, tem um cortiço, umas quitinetes, tem de tudo, de todos os tamanhos. Vamos vasculhar os apartamentos, ver quem é quem, porque na gestão antiga acontecia de se apossarem dos apartamentos das velhinhas que morriam e não tinham família para herdar, aí invadiam. Coisa pesada. Dá para fazer um documentário do Netflix, a história do Baronesa do Arary. Em 1950, na cobertura, aconteciam peças de teatro estreladas por Walmor Chagas e Cacilda Becker, que moravam lá. É um prédio histórico de São Paulo.

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