Primeira técnica estreia na seleção feminina e quer toda força nas bases

Primeira técnica estreia na seleção feminina e quer toda força nas bases

Sonia Racy

05 Dezembro 2016 | 00h30

Emily Lima (17).JPG SAO PAULO SP 26/11/2016 EXCLUSIVO COLUNA DIRETO DA FONTE - Emily Lima Foto: Iara Morselli/ESTADÃO

FOTO IARA MORSELLI / ESTADÃO

 
 
No comando da seleção de futebol feminino, Emily Lima
estreia num torneio internacional de olho no futuro.
E o futuro é ‘jogar as sementinhas’, criar campeonatos
sub-20 e formar atletas a partir dos 13 anos

Em meio à tragédia com o time da Chapecoense, uma boa notícia no esporte: Emily Lima, paulistana de 36 anos, ligada ao futebol desde os 13, estreia nesta quarta-feira como técnica do Brasil no Torneio Internacional de Manaus – onde estarão também seleções como Itália, Rússia e Costa Rica. Mas sua cabeça vai além: ela pensa no futuro e vai lutar pela criação de campeonatos estaduais sub-20, que considera essenciais para formar jogadoras de base.

Depois de oito anos em times europeus, ao voltar para o Brasil ela ficou espantada com a precariedade da estrutura do futebol feminino e decidiu dedicar-se às áreas de gestão e treinamento. Passou pela Portuguesa, pelo Juventus, pelas seleções sub-15 e sub-17, mas foi o trabalho no time de São José dos Campos que a levou à CBF, e desta vez no comando da equipe principal. “Acho que ali acrescentei um comportamento de atleta. Além da estrutura, colocamos regras e uma outra filosofia de trabalho”, explica Emily à repórter Julianna Granjeia. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O futebol feminino do País não tem o mesmo apoio do masculino. O que falta?
Falta tudo. Se a gente comparar os dois, estamos na estaca zero. Acho que poderíamos imitar alguns modelos de fora, como o dos Estados Unidos. Mas para isso a gente precisa do governo do nosso lado, porque vai precisar da escola, da faculdade, e isso não é tarefa da CBF, é do governo. Lá fora eles ligam uma coisa à outra. Aqui, tem briga política.
 
Você fala, no caso, do feminino e também do masculino?
Sim. É uma vergonha e a gente vive isso diariamente. O feminino é mais dessas modalidades em que a gente tem que ir arrumando soluções. E é difícil. Mas eu tenho algumas ideias na cabeça e monto junto com a comissão técnica. Quando começo a falar, um aqui já anota e outro também, a gente pensa junto e vamos agregando. Temos tentado trazer várias ideias para dentro da CBF, que não é a responsável por isso, é uma das. Acho que dá pra fazer algo,

‘FALTA TUDO.
TEMOS DE SEGUIR BONS
MODELOS, COMO
O DOS ESTADOS UNIDOS’

Que tipo de projetos?
Um deles é a criação de um campeonato brasileiro sub 20. Para o sub-17, neste momento, eu penso em usar a Prefeitura paulistana, que já tem a Copa Cidade São Paulo de categoria de base, sub 13, 15, 17. Queremos que eles conversem com a Federação Paulista e esta, com a CBF. E que as entidades ajudem a Copa Cidade de São Paulo com uma divulgação e uma estrutura melhor. E o sub-20, sim, fica sob responsabilidade da CBF, pois é a faixa que já disputa os campeonatos adultos.

Como acha que poderia ser organizado tudo isso?
Nós conversamos a semana toda sobre o assunto e, se cada um de nós – somos seis na comissão técnica – ficar responsável por três Estados, acho que dá certo. Estamos dispostos a fazer isso. Quem vai investir não somos nós. Só vamos deixar o projeto pronto, que é o mais difícil. Isso tudo sem tirar o foco da seleção. É que tenho essa preocupação de fazer com que a modalidade no País melhore, é o que mais me preocupa como treinadora da seleção principal. Acho que tenho de me preocupar com a modalidade toda. Se não tem desenvolvimento na base, o resultado na seleção principal não vai acontecer. É jogar as sementinhas e colher daqui dez anos.

Fortalecendo a base, o futebol feminino terá mais apoio?
Exatamente. E agora a gente tem que aproveitar a hora. O momento em que a mídia está em cima por eu ser “a primeira mulher a assumir a seleção”. Este é o momento de criar um monte de coisas e chamar a mídia para divulgar.

Você tem aval da CBF para essa estratégia de trabalho?
Sim, o presidente me deu carta branca. Fiz a primeira convocação e ninguém ficou sugerindo esta ou aquela jogadora.

O que a levou a se preocupar com a área de gestão do futebol?
Eu passei muitas dificuldades quando jogadora. À minha volta não tinha estrutura, não tinha orientação. Então, eu quero fazer diferente, quero que o clube ofereça todas as condições para que essas meninas trabalhem à vontade.

Você atuou na Europa. Esse problema acontece por lá?
Não.

Diria que entre os europeus o feminino é mais próximo do masculino?
Sim. Lá você tem moradia, alimentação, todas as condições de trabalho. Eles não usam o tal de alojamento, como aqui. Dividem o grupo, mesmo que venha gente de fora, tem apartamento para duas pessoas ou até para estrangeiras. Essa história de alojamento que tem aqui é muito ruim.

Como você passou de jogadora a treinadora?
O meu último clube como jogadora foi na Itália. Voltei para o Brasil em dezembro de 2009 com um projeto pronto para tocar uma equipe. Não para ser treinadora, mas supervisora, gestora. Apresentei um projeto na Portuguesa mas eles já tinham lá um projeto aprovado de futebol feminino. Ainda assim me indicaram para ajudar o treinador. Me apresentei como gestora, para ajudar fora do campo, em alojamento, alimentação, documentação, toda a logística para que uma equipe entre em campo para treinar e jogar. E deu muito certo. Nessa época, comecei a estudar mais. Fiz o curso do Sindicato dos Treinadores de São Paulo (Sintrefesp), fiz o Fórum Internacional de Futebol (Footecon), consegui a licença B da CBF. E em junho do ano que vem vou fazer a licença A. Comecei a ver que eu realmente gostaria era de ser treinadora.

Um irmão seu influenciou em tudo isso. De que forma?
Ele me acompanha desde os 13 anos. Quando fui para a Europa ele sempre esteve por perto. E, na Portuguesa, mais ainda, porque o alojamento que aluguei para as meninas era perto da nossa casa. Ele me ajudava muito, levava as meninas aos treinamentos, ao dentista. E, percebendo que eu tinha perfil de treinadora, começou com esse papo na minha cabeça. Em 2011, o Juventus me deu essa oportunidade e eu entrei de cabeça. Era gestora, treinadora, tudo. Gostava de gestão porque era o jeito que eu achava certo, era o que as meninas precisavam. Passei a estudar mais, entender melhor o futebol, fazer estágio em clubes masculinos, conhecer as diferenças entre um e outro.

Como você define seu estilo como treinadora?
Resumidamente, é o futebol moderno, o mais atualizado possível. Aí entram vários outros fatores, como o modelo do jogo que eu prefiro.

Concretamente, como está pensando em armar a seleção?
Nós temos hoje um padrão, que é um 4-4-2 sem a posse de bola e um 4-3-3 quando a equipe tem essa posse. Um jogo basicamente ofensivo, bem agressivo. Mas isso ainda depende da maneira como a equipe vai se sair. Terá de ser uma seleção organizada defensivamente, e na parte ofensiva com um jogo criativo, talentoso. Não vou mecanizar as meninas na parte ofensiva, mas sim na defesa – aí vai ter que ser como a gente quer. Eu não posso tirar da Marta, da Cristiane ou da Debinha a habilidade, a energia. Quero que elas se divirtam jogando futebol, é o que a gente precisa.

Na Olimpíada do Rio, ficamos em quarto lugar. O que você acha que faltou à seleção?
Vi que o trabalho foi muito bem feito, mas faltou isso que a gente quer fazer diferente: quebrar a linha. A gente vai quebrar num drible, na jogada individual. Queremos deixar as meninas fazerem o máximo possível ao modo delas.

Sem fórmulas táticas rígidas, é isso o que vai pedir?
Sim, e me refiro à parte ofensiva, que foi onde o Brasil mais se concentrou. A Suécia defendeu a todo momento com aquelas duas linhas de cinco, nisso elas são muito boas. E é o que eu quero treinar na seleção. A parte defensiva tem que ser mecanizada mesmo, tem que ser difícil entrar na nossa defesa, como nós sempre enfrentamos dificuldades para entrar nas defesas dos EUA, da Alemanha, Suécia, Canadá. Mas, em compensação, elas não têm o que nós temos de melhor – a velocidade na jogada individual, o drible. Acho que esse é o nosso diferencial.

Falando em jogadas individuais, a Formiga anunciou aposentadoria. Vai falar com ela sobre isso?
Pretendo. Acho que ela tem muito ainda a contribuir para a modalidade e faz uma diferença muito grande. Não sei se elas não acham isso, se imaginam que o futebol feminino no Brasil não vai dar nada. Mas eu acredito muito no grupo. Então, teríamos que tirar da cabeça delas essa ideia de que são coitadinhas. Nós não somos coitadinhas, só temos que ir ganhando espaço. E deixar de lado isso de “ah, mais uma vez nós não conseguimos”. Não! É pensar que nós trabalhamos e não aconteceu, e mudar um pouco o comportamento.

Você lembra muito o estilo do Tite. Pretende fazer algum intercâmbio com ele?
Quando eu era treinadora do São José tentei fazer estágio com ele, mas não deu. Entendo que é difícil, sei a correria que é. No dia da apresentação, em novembro, o presidente me convidou para almoçar e lá estava o Tite, mas não era a hora de falar de futebol. Vai ter o momento de sentar e trocar uma ideia. Espero que isso aconteça e acho que esse dia não está longe. As pessoas estão abrindo muito o espaço para trabalharmos juntos. A equipe de análise de desempenho da masculina vai trabalhar com a gente. Já vimos que eles querem nos ajudar.

O que você admira no trabalho do Tite?
O trabalho. O estar ali para trabalhar e não para estar na CBF, ter o status da CBF.

 
Quais outros técnicos inspiram o seu trabalho?
O Guardiola, que é um ícone no futebol e que admiro muito por ser ousado, por ver o futebol cada vez mais moderno. O cara é diferente, ele não espera as coisas acontecerem, ele faz acontecer. E eu também gosto muito do Mourinho, do Felipão, que eu admirava também por ter esse espírito de grupo, de ser o paizão, que trabalha em equipe

A australiana Moya Dodd, uma das três mulheres que integram o Comitê Executivo da Fifa, lidera um movimento para que a entidade aumente a participação feminina na direção. Acha uma boa ideia?
Eu não acho que o gênero, por si só, vai mudar a situação. Penso que é a capacidade de cada um que o coloca em seu lugar. Não precisa necessariamente ser mulher, se tiver pessoas capacitadas para aquilo, que sejam escaladas. A mesma coisa vale na parte de administração. Se eu acho que é bacana ter mulheres? Sim, mas não acho que muda. O importante é estar preparado para a função. A gente conhece mulheres que, ao invés de ajudar, atrapalham. Nós continuamos aqui trabalhando tranquilamente e a nossa hora vai chegar.

Acha que o machismo influi para que as mulheres não consigam se preparar melhor?
Não, não estou de acordo com isso.

Já se sentiu alguma vez vítima de uma manifestação de machismo?
Não, nunca. Não sei se é porque eu sou de falar logo na lata. Não fico engolindo. Aqui, chegou, tomou.