‘Uso o meu espaço para empoderar  mulheres que não têm oportunidades’

‘Uso o meu espaço para empoderar mulheres que não têm oportunidades’

Sonia Racy

21 Novembro 2016 | 00h45

Alexandra Loras. FOTO: DENISE ANDRADE/ESTADÃO

Alexandra Loras. FOTO: DENISE ANDRADE/ESTADÃO

Com a agenda lotada, Alexandra Baldeh Loras, 39 anos, está atrasada. Enquanto a reportagem aguarda, é possível ver o ex-cônsul francês em SP, Damien Loras, de bermuda, sem camisa pintando a parede e cuidando do filho Rafael, de 4 anos. Damien e Alexandra acabam de mudar para um sobrado no Jardim Europa e a casa ainda está em organização. Damien é quem dá os últimos retoques – porque, depois de deixarem o Consulado da França, quem mais tem compromissos profissionais é ela.

Enquanto prepara o programa de TV que estreará ano que vem, dá palestras, consultorias e aulas em um curso de pós-graduação – e escreve sua biografia, que será lançada em março –, a ex-consulesa se dedica ao seu mais novo projeto: o Plano de Menina. Criado pela jornalista Viviane Duarte, ele encantou Alexandra, que abraçou a causa. Uma vez por semana, meninas do Capão Redondo e do Grajaú, no extremo Sul da cidade, recebem orientação para aproveitar tanto sua vida pessoal quanto a profissional.

O projeto não caiu nas graças de Alexandra à toa. Em conversa com a repórter Julianna Granjeia, ela conta que foi no Brasil que acordou para a causa e decidiu usar seu network na alta sociedade paulistana para ajudar mulheres que não tiveram as mesmas oportunidades que ela. “Floresci, amadureci aqui. Primeiro porque comecei a entrar no movimento feminista brasileiro – na França não tinha, era muito hermético, intelectual. No feminismo brasileiro vejo muita doçura, muito espaço de escuta para a outra. Na França não. Ninguém se ouve.”

E a mudança é visível até na aparência: a ex-consulesa chegou ao País com cabelos longos e alisados e vestindo tailleurs discretos. Hoje, ostenta cabelo curtinho sem química e roupas estilosas. Além de porta-voz do feminismo, Alexandra se tornou, também, porta-voz do combate ao racismo no País. “As pessoas me interpretam mal quando digo que o Brasil é o país mais racista do mundo. É, porque tem a maior população negra do mundo, depois da Nigéria. Por outro lado, tem muito mais espaço para diálogo do que em qualquer outro lugar”. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como é esse projeto Plano de Menina?
Eu gosto quando você pode ser o pilar de outra pessoa. Empoderar uma pessoa nos faz empoderadas, é uma troca de energia que nos permite ir longe. Nós tínhamos medo de ir na favela, mas sabíamos que tínhamos que atuar na primeira infância e na adolescência. Então fomos com a Eliane Dias, esposa do Mano Brown, e ela nos abriu Grajaú e Capão Redondo. E então criamos o Plano de Menina, com a Viviane. São discussões, todo sábado de manhã. O que é fantástico é que no início elas chegavam meio assim, não conseguiam falar. O que vimos foi que elas vivem em um ambiente totalmente tóxico, até porque cresceram ouvindo que não existe arquiteta negra, dentista negra… Já queimaram os sonhos dessas meninas. É por isso que ficamos todos com uma maioria dos negros em cargos serviçais. Porque na família já educam falando que ela não pode conquistar certos espaços.

E como são essas reuniões?
Participam umas 50 meninas e 56 profissionais que se cadastraram no projeto. Fazemos dinâmicas e as colocamos em contato com uma profissional que chegou ao sonho delas – para dar uma orientação. Ela se torna madrinha da adolescente. Ou seja, uma dentista, uma arquiteta vai encontrar a menina uma vez por mês, tomar um café, dar tarefas. Do tipo fazer um currículo, uma carta para pedir uma bolsa para entrar numa faculdade. O que falta é isso, é conselho, um direcionamento e também os códigos para entrar nesse ambiente. Porque você pode saber que tem bolsas disponíveis mas nunca chegar ao ponto de poder pedir. Porque você não sabe se vestir, não sabe fazer o seu currículo. Então, essas pessoas se colocam à disposição uma hora por mês para apoiar, e também abrir o mercado e seu network para ajudá-la a conseguir um estágio.

Você já tinha participado de algum projeto como esse?
Eu tinha feito parte de um projeto assim na França, de ajudar meninas a fazer vestibular. Uma delas, que morava numa casa de papelão, acabou de ter um documentário premiado. E olha, eu estou há mais de quatro anos aqui, então não é por minha causa, é o talento dela que eu ajudei a florescer. Eu também tive pessoas no meu caminho que disseram que eu podia, que sou inteligente… e por isso estou aqui. Claro que a maioria disse que não, me chamaram de várias coisas ruins. Mas eu pensava que o pior que podia acontecer era continuar fora da faculdade, então resolvi tentar. Tentei, e, quando entrei, fui a melhor da minha turma. E foi aí que percebi o quanto o sistema tinha me marcado a ferro, mostrando que eu como mulher, como negra, não podia conquistar esses espaços de poder. O empoderamento e o feminismo me ajudaram muito.

E quando você percebeu que poderia colaborar com o movimento feminista?
Eu acho que eu floresci aqui. Sabe essas florzinhas que aparecem embaixo do concreto? Eu acho que foi isso. E é engraçado que eu nunca ia imaginar que o (Damien) Loras poderia ter uma visão de como, dentro de uma família, não é só o homem que é provedor. Uma vez, me convidaram para dar uma palestra em Porto Alegre e perguntaram por que estavam convidando uma consulesa para um evento de empoderamento da mulher e de empreendedorismo. Queriam saber qual era a minha empresa! E a Deb Xavier, do movimento Jogo de Damas, que tinha me convidado, respondeu que em um jogo de xadrez tem duas mulheres: a torre e a rainha – e a rainha tem muito mais movimentação que o rei. Essa imagem me mostrou que eu tinha muito poder. A Deb explicou que eu era esposa do cônsul-geral. E perguntaram pra ela: “Quem é esse cônsul? Só ouvimos falar da consulesa”. Mas foi ele que me ajudou a ganhar 10, 20 anos de militância seguramente e a conquistar muito mais espaços do que se eu entrasse sozinha. Agora minha voz é ouvida porque tenho poder econômico e poder na mídia. Mas podemos olhar para todas as militantes que estão na luta há anos e têm muito mais conteúdo que eu para falar sobre ser negra brasileira. Eu não sou brasileira. Mas o que é interessante é usar o meu espaço e levar isso adiante.

Como foi para Damien abrir mão da carreira de cônsul para você desenvolver seu trabalho aqui? Vocês conversaram?
Na verdade nem conversamos. Ele viu o quanto o Brasil mexeu comigo, conosco, e também com nosso filho. Não ficamos no Brasil porque tem 300 dias de sol (risos) por ano, mas porque é um país complexo, intelectualmente estimulante. Ele viu que as coisas foram acontecendo pra mim, que eu estava feliz, e fomos ficando. Ele decidiu então abrir uma consultoria. Como os antropólogos dizem, o Brasil é um novo povo, um povo do futuro. Os brasileiros, às vezes, não enxergam o potencial que eles têm como nação, como riqueza mental, emocional, psicológica, por ter complexo de vira-lata. Mas nós enxergamos.

Concretamente, o que isso significa?
O Brasil é muito mais aberto ao diálogo que qualquer outra nação pela qual eu passei. Por isso é que meu discurso é um discurso universal, não é para o Brasil, é um discurso que eu gostaria de ter no meu país. Mas lá não me dão espaço porque sou uma mulher e porque sou negra. E, claro, lá não sou consulesa também… Mas teve um caso interessante quando eu ainda era consulesa que retrata bem como é ser mulher. Eu recebi um comunicado da Embaixada que dizia, mais ou menos, que eu estava aparecendo demais.

Você frequenta ambientes da alta sociedade de São Paulo nos quais, em muitas ocasiões, é perceptível o preconceito de classe ou de raça. Como militante, de que forma reage nessas situações?
Eu cresci com essas pessoas a partir dos 14 anos, quando fui para o internato de freiras em Paris, e convivi com quem não tinha nada a ver com o meu nível social e desenvolvi ferramentas para isso. Eu tive a oportunidade de ir do nível mais baixo para o mais alto e, assim, posso frequentar toda a sociedade, ou, pelo menos, parte dela. Mas hoje eu enxergo também o quanto o rico tem a chave do jogo, então não podemos aliená-lo ou nos alienarmos dele. É a conscientização que eu vou passar para ele que vai trazer uma mudança muito maior no mundo do que se eu ficar só com negras sabatinando sobre o fato de a situação estar ruim. E tem o fato de eu ser a esposa de um cônsul e da França – porque se fosse consulesa da Gâmbia, país do meu pai, talvez não tivesse tanto palco. O meu objetivo é só abrir o diálogo e escutar as pessoas de todas as posições para pensarmos em algo justo. E não achar que está tudo resolvido porque ele é branco, homem, resolvido, privilegiado e achar que estamos mesmo em uma democracia racial.

Tem alguma coisa nesse meio que mais a incomoda?
Uma coisa que eu vejo aqui no Brasil e que me parece um problema é que existe um analfabetismo funcional. Vejo nas minhas amigas brasileiras da elite, por exemplo, que não sabem cozinhar, não sabem passar roupa, não sabem costurar. E nada disso é coisa de baixo nível, é superimportante, é superantigo. Na França, por exemplo, não tem empregada, não tem babá. Nós decidimos ter uma babysitter quando precisamos de uma pessoa – e eu a proibi de me chamar de madame – para ajudar algumas horas por dia. É bom também porque isso me força, e ao meu marido, a interagirmos mais com nosso filho e a nos organizarmos E também é importante para a minha prática não cair na armadilha dessa facilidade. E também acho que não temos grandes figuras negras no Brasil. Cadê esses personagens? E é isso que eu quero trazer.

Como isso afeta a sociedade, na sua opinião?
Eu vejo que a nossa geração é muito aberta e não é responsável pelo que aconteceu na escravidão, mas é responsável para reequilibrar o que vamos contar. Porque não podemos continuar entrando numa loja de brinquedos e ver duas bonecas negras no meio de milhares de brinquedos loiros e brancos. Isso é racismo. Não só porque a criança negra não se vê representada mas porque a criança branca não vai ter o costume de brincar com bonecas de pele negra para aprender a conviver conosco.

Você ainda sofre muito preconceito aqui?
Sim. Recentemente, em Guarulhos, quando cheguei de viagem, fui parada para revistarem a minha mala. E eu sou parada na maioria dos aeroportos, na verdade, porque uma negra bem vestida é traficante de drogas. No clube Pinheiros, por exemplo, as pessoas me olhavam torto porque eu não estava vestida de branco – que é o uniforme das babás e eles achavam que eu era a babá do meu filho. Eu mudei de clube, inclusive.

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