‘Empresas têm que patrocinar instituições culturais’, diz especialista em sustentabilidade financeira

‘Empresas têm que patrocinar instituições culturais’, diz especialista em sustentabilidade financeira

Marcela Paes

17 de abril de 2020 | 00h45

Ricardo Levisky. Foto: Iara Morselli

Na opinião de Ricardo Levisky, presidente e fundador da Levisky Legados – empresa especializada em consultoria de sustentabilidade financeira – a crise provocada pela covid-19 “escancara” o despreparo das instituições culturais brasileiras no que diz respeito à pensamento de longo prazo e construção de caixa. “Sempre foi uma estrutura de buscar recursos para viver o ontem e o hoje, mas nunca o amanhã”. Para ele, o momento é de mobilização tanto do governo quanto das instituições culturais, para que orquestras, museus e teatros não sejam ainda mais afetados pela pandemia. Leia abaixo a entrevista.

 

As instituições culturais se adaptaram bem ao momento de crise?

Do ponto de vista de comunicação e de posicionamento, acho que as instituições foram muito ágeis. Estão tentando adaptar e criar projetos e produtos e atividades que transitam no meio digital e também se posicionando para tornar a vida das pessoas durante a quarentena menos angustiante.  Neste período, também existe a questão psíquica, a questão da alma. Parte do que a Levisky Legado está fazendo é ajudar as instituições a se reposicionarem nesse momento.

Você acha que os museus brasileiros estavam preparados financeiramente para esse tipo de dificuldade que estamos tendo agora?

Sem dúvida alguma, não. De certa forma essa crise escancara e evidencia a necessidade do País se estruturar e se organizar na área de cultura com visão de longo prazo. O País e as instituições culturais brasileiras nunca tiveram uma estrutura voltada para o longo prazo, sempre foi uma estrutura de buscar recursos para viver o ontem e o hoje, mas nunca o amanhã.

Qual seriam soluções para se prevenir?

A gente costuma dizer que o endowment é uma semente, uma semente financeira do fundo de reserva.  A gente vai regando para que no futuro a gente possa aproveitar a sombra dessa árvore, esse lastro financeiro.

A situação de instituições culturais públicas e privadas difere muito?

Neste contexto que estamos vivendo, duas frentes precisam participar com força: de um lado o governo e de outro a sociedade civil. Por trás das orquestras e dos museus, milhares de pessoas estão trabalhando. Essas pessoas precisam de um lastro, o governo não pode abandoná-las.

E pela sociedade civil?

Esse sentimento de comunidade das pessoas, que estão doando em grande volume para  o terceiro setor, precisa ser explorado para todas as áreas, inclusive para a cultura.  É um momento oportuno para que as pessoas apoiem os museus das suas cidades, as orquestras, as suas companhias de dança. Elas precisam continuar existindo, porque fazem parte da identidade de cada região e também do legado do nosso País, das nossas cidades.

Qual seu prognóstico para o setor cultural depois da crise?

A situação é muito delicada. Se o governo fizer a sua parte, de manter essas estruturas fortalecidas, elas conseguem retomar suas atividades em um prazo de tempo mais rápido, com maior agilidade. No caso das instituições privadas, como a grande maioria delas não possui fluxo de reserva, o que vai responder se elas vão conseguir ou não voltar com velocidade para as suas atividades de temporada é a força do patrocínio privado. Empresas devem patrocinar.

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