Em disputa com o ex-namorado Álvaro Garnero, Cris Arcangeli vê viés machista na Justiça

Em disputa com o ex-namorado Álvaro Garnero, Cris Arcangeli vê viés machista na Justiça

Marcela Paes

02 de fevereiro de 2022 | 02h00

CRIS ARCANGELI – IARA MORSELLI/ESTADÃO

Cris Arcangeli diz que quer “fazer do limão, uma limonada”. O limão a que se refere é o tratamento machista que conta ter recebido da Justiça e de seu ex-namorado, Álvaro Garnero. A empresária quer aproveitar que o imbróglio judicial entre ela e Garnero se tornou público para chamar a atenção para problemas de discriminação contra mulheres no sistema judiciário.

“A Justiça às vezes tem um olhar enviesado em casos em que a mulher acusa: quando é estupro, é porque a mulher estava com a saia curta, quando é feminicídio, a mulher fez o cara ficar nervoso… Recebi centenas de mensagens de mulheres que sofreram estelionato por parte de ex-companheiros dizendo que eu as representava”, explica.

Em janeiro deste ano, Cris entrou com uma ação acusando Garnero de estelionato. No processo, ela afirma ter dado 300 mil dólares ao ex-namorado para que ele investisse em moedas digitais nas empresas Híbridos e Meu Pé de Bitcoin, em 2017. Segundo Cris, Garnero deveria ter investido o dinheiro, mas não o fez e tampouco devolveu a quantia. Ela diz também que existem outras centenas de vítimas que perderam suas economias em golpe dado por Hélio Caxias, dono das empresas.

“Por oito meses eu tentei resolver a questão, pedia que ele me devolvesse o dinheiro. Falei com o pai dele, com o sócio, com o irmão…Até a hora em que o Álvaro me disse que não iria devolver o dinheiro, pra eu parar de ‘encher’. Depois, de forma irresponsável, ele disse pra eu entrar na justiça, porque iria levar 25 anos para eu receber”.

O empresário e apresentador Álvaro Garnero. Foto: Iara Morselli/Estadão

O empresário e apresentador Álvaro Garnero. Foto: Iara Morselli/Estadão

 

Após a publicação do caso no site Metrópoles, o advogado de Garnero, Nelson Williams, divulgou uma nota dizendo que Arcangeli teria “problemas passionais mal resolvidos” e que o caso se tratava de “jus sperniandi”.

“Depois dessa nota bastante machista e misógina do advogado dele, entendi que isso pode ser uma missão para mim, um momento de conscientização. É um desrespeito banalizar um caso jurídico por essa ótica de desacreditar a pessoa, fazer parecer que eu sou desequilibrada”, diz Cris, que também afirma que foi ela quem botou o ponto final no relacionamento.

Procurada pela reportagem, a defesa de Garnero afirmou em nota que “todas as denúncias se baseiam em um negócio malsucedido celebrado exclusivamente entre a Sra. Cristiana Arcangeli e o Sr. Hélio Caxias”.

Também diz que “o contexto do relacionamento mantido entre a Sra. Cristiana e meu cliente é o único fundamento trazido por ela para tentar imputar atos tidos como crime pela lei, de forma pública. Foi a Sra. Cristiana Arcangeli que veiculou informações de forma mediática e tendenciosa, buscando claro julgamento público cuja repercussão destoa das decisões já tomadas sobre o assunto pelas autoridades competentes. Ainda, agora, tenta fazer parecer que ela teria sido persuadida pelo meu cliente a fazer o investimento como se não fosse apta a analisar seus riscos”.

O Movimento Virada Feminina, presidido por Marta Lívia, publicou nesta quarta (2) um manifesto de repúdio indignado com “as declarações discriminatórias e preconceituosas, configuradoras de violência psicológica e moral em desfavor de Cristiana Arcangeli”. O Virada Feminina engloba 128 movimentos, mas, segundo Lívia, quem se envolveu com a questão foram, principalmente, coletivos ligados à área judicial.

“Muitas delegadas, juízas e promotoras demonstraram apoio. Não estamos interessadas em quem está certo ou errado no processo, mas ser exposta nas redes com palavras que levam a pensar que a mulher se manifesta porque é mal-amada e está com dor de cotovelo é uma violência”, diz Marta.

Durante a pandemia, Cris lançou projetos voltados para mulheres de comunidades pobres. No Comunidades a Mil, feito na favela de Paraisópolis, ela incentiva o empreendedorismo feminino com mentoria, investimentos e visibilidade para negócios criados por mulheres. “Se a mulher empreende, ela tem independência financeira e com isso ela está livre. Se ficar em risco, tendo dinheiro, ela pega os filhos e vai embora”.

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