”Elegância não tem a ver com roupa, mas com postura, atitude e educação’

”Elegância não tem a ver com roupa, mas com postura, atitude e educação’

Sonia Racy

21 Setembro 2015 | 00h30

Foto: Iara Morselli/Estadão

Estilista aclamado, Alexandre Herchcovitch lança livro sobre sua trajetória, comenta as mudanças no mundo de comunicação da moda e
conta o que mudou em sua vida depois de tornar-se pai

Os vinte anos de trabalho e reflexões sobre a moda e sua carreira são o fio condutor do livro 1:1, que Alexandre Herchcovitch lança, quinta-feira, na Livraria Cultura do Iguatemi. O estilista, que já foi tema de livros de moda e escreveu guia de viagens, desta vez convidou amigos e formadores de opinião para entrevistá-lo sobre seu método de criação e sua rotina, recheando a publicação com fotos e comentários.

O balanço dessas duas décadas de estrada e sua própria visão do que é um criador foram também assunto da conversa do estilista com a repórter Marilia Neustein. “Gosto de falar sobre um conceito mais recente, que é o do estilista como designer”, disse ele à coluna. “Decidi não ficar só na moda e fazer o que julgava pertinente fazer” – um aviso de que seu trabalho não se limita à moda. Ao rediscutir a definição da profissão, ampliando seus limites, Herchcovitch entende que seu trabalho contém um estudo social: “Você tem que prestar atenção em como as pessoas vivem, consomem, onde elas estão, como moram. Então você faz um estudo. Só que a gente nunca é questionado sobre isso”.
Considerado um dos estilistas mais inovadores da sua geração, é enfático quando indagado sobre elegância: “Não tem nada a ver com roupa, mas com postura, atitude, educação”. Abaixo os melhores trechos da entrevista.

Por que escrever um livro agora? É uma avaliação sobre sua carreira ou autobiografia?
O livro é pra marcar os 20 anos de carreira, que oficialmente se completaram no ano passado. Na verdade não é um livro da “marca” Alexandre Herchcovitch, mas um livro do estilista. É claro que eu e a marca acabamos nos misturando. No entanto, nesses 20 anos eu não fiz, obviamente, só trabalhos para a marca. Então é um livro da minha carreira, mas não tem nada autobiográfico. Acaba falando um pouco de mim porque fala do meu trabalho. Mas não é um livro pessoal.

‘ACHO QUE O GRANDE DESAFIO

É CRIAR COISAS INTERESSANTES’

Que tipo de balanço faz desses 20 anos de moda no País?
Acho que passamos por várias fases. A de descobrir a moda brasileira, a de profissionalizar e organizar o calendário de lançamentos. Eu não falo só de desfile, lançamento das coleções – mesmo para o varejo e para o atacado –, que era uma coisa um pouco mais solta há uns vinte e tantos anos e hoje tem que ser mais organizada. Porque, senão, as coisas não acontecem, né?

Na sua visão o mercado da moda brasileira está hoje mais profissionalizado?
Sim. Essa profissionalização ainda está em curso, mas acho que tem sido relativamente rápida. Quando comecei como estilista, há 20 anos, estava no início esse momento de organização. As empresas estavam começando a investir nos estilistas, o calendário se estruturando e então a moda passou de uma coisa um pouco caseira e familiar para um trabalho mais sofisticado, mais profissional.

Também, nesses últimos anos, com a internet, a crítica de moda tem mudado bastante. Como você vê essa mudança?
As profissões vão mudando. Hoje o estilista não faz só mais roupa, ele pode assinar figurinos, fazer objetos e tudo mais. O jornalismo de moda era muito específico, tinha uma crítica que era um pouco comparativa com a história da moda. Depois passou de crítica para uma descrição do que acontecia na passarela. E hoje você tem de tudo: as pessoas que fazem a crítica comparativa – que são raras –, as que descrevem, e tem também a opinião da pessoa comum, que vai lá dizer se gostou ou não. Então, é um outro meio de comunicação que só surgiu graças à facilidade da internet. Acho esse movimento muito saudável. Algumas críticas estão se modernizando, outras procurando mais embasamento. Acho que se pode dizer que daqui a um tempo vai ter um equilíbrio.

Diante desse cenário, qual o maior desafio para o estilista atualmente?
Acho que o grande desafio é criar coisas interessantes. Entender, ao mesmo tempo, as mudanças de comportamento de consumo que ocorreram com a entrada das fast fashion no mercado. Poderíamos fazer uma analogia entre a entrada dessas fast fashion na moda e as blogueiras. Isso aconteceu ao mesmo tempo. Então a blogueira dá um relato fast fashion. E a roupa fast fashion é uma roupa que acontece rapidamente, para um público específico, atendendo a uma demanda que se interessa por consumir tendências de moda por um preço mais acessível. E a blogueira vai falar, de maneira mais acessível, para um público maior. Como disse, tudo acabou acontecendo ao mesmo tempo.

Você vendeu sua marca para a Inbrands. Como funciona hoje essa estrutura?
Hoje eu cuido da divisão criativa – produto e marketing. E a parte comercial fica a cargo da InBrands, que tem um gestor da marca trabalhando junto comigo. Entretanto, a maioria dos negócios é proposta por mim e levada até a InBrands para aprovar. Na verdade eu não sou mais dono da marca, mas eu me eu ainda penso como um sócio, penso como o dono da marca.

É verdade que você gosta de trabalhar coletivamente?
É, as pessoas acham que o estilista faz tudo sozinho, mas a gente trabalha realmente em equipe. Claro que tudo passa por mim, mas eu não sou responsável por todas as ideias. Tenho uma equipe – que eu ouço – e nem sempre a melhor ideia é a minha. E muitas vezes é difícil de separar porque tudo é regido pela minha cabeça.

Você diz que o estilista é um designer. Como entende isso?
Trata-se de um conceito mais recente do que é de fato estilista. Temos exemplos de profissionais que acabaram fazendo muito mais do que roupa nas décadas de 60, 70, 80. Eu decidi não ficar só na moda e fazer aquilo que julgava pertinente fazer. Por essas razões, acho complicado chamar só de estilista. Poderíamos falar designer. Hoje a gente cria mais de mil produtos por ano – e, desses mil produtos, 300 ou 400 são roupa, o resto não é. Isso é uma novidade na empresa de moda. Existe um mau entendimento quanto a esse fato: o que o estilista faz, que é roupa, não envolve o design. Só que é puro design. Com funcionalidade e tudo, e até um estudo social.

Pode explicar melhor?
Porque para se fazer uma roupa e atender a várias pessoas, você tem que prestar atenção ao modo como essas pessoas vivem, o que elas consomem, onde estão, como moram. Então você faz um estudo. Só que a gente nunca é questionado sobre esses estudos. O nosso produto final é roupa, mas para a gente chegar naquela roupa teve que entender, por exemplo, o que é que a mulher gosta de mostrar, de esconder, quais as ocasiões de uso de cada roupa. Isso já está embutido no nosso dia a dia, mas não fica revelado quando o produto está pronto na arara.

Hoje, para você, o que tem sido interessante criar? Sendo esse designer, você se inspira em arte, cultura, na própria moda? Onde estão suas referências?
Já tínhamos iniciado um processo de rever os nossos arquivos. Daí, hoje estamos olhando muito para o que a gente já produziu e refazendo muitas coisas de forma diferente. Revendo e refazendo, sem pudor. E esse livro fala muito disso, porque tem imagens de roupas de 20 anos atrás que eu refiz agora. Ele mostra exatamente esse processo de maneira muito minuciosa, com exemplos em foto-desenho. Esse é o nosso momento.

Você é uma referência de moda elegante. O que é elegância para você?
Elegância não tem nada a ver com roupa. Eu sempre falo a mesma coisa. Você pode até se fingir de elegante, através da roupa. Mas elegância tem a ver com postura, atitude, educação. A roupa pode ajudar a pessoa a ser mais magra. Mais elegante, não (risos).

Tem alguma personalidade que você gostaria de vestir?
Assim, especificamente não. Na verdade, pra mim as pessoas são todas iguais. Quando uma cliente entra na minha loja, se identifica com uma roupa e compra, ela é tão especial como se fosse uma celebridade – para mim não tem muita diferença. Porque ela poderia ter comprado de tantos outros lugares, mas escolheu a minha roupa pra comprar. Então ela tem o mesmo cuidado, carinho e trabalho, como se fosse uma outra pessoa. Então não fico pensando nisso.

O que mudou na sua vida depois de ser pai?
Na verdade, eu sempre fui muito objetivo. E agora tenho que ser duplamente objetivo. Coisas que não entravam na minha agenda, que eram coisas normais… por exemplo, responder a e-mail. Eu tinha o meu dia inteiro pra responder a e-mail, hoje eu tenho um alarme “x”, para “responder ao e-mail de tal pessoa”. Então acho que o dia a dia mudou mesmo. Eu sempre quis ser pai, então eu não estou assustado com isso. Eu imaginei que ia ser do jeito que tá sendo. Então eu não quis me preparar muito, já o Fábio quis. Como a gente é um casal, há um equilíbrio.

Você já afirmou que, se tivesse que encampar uma bandeira, seria a da igualdade. Como é que você vê a questão da desigualdade no Brasil?
Na verdade esse assunto nem deveria existir. Se entendêssemos que cada um pode escolher livremente aquilo que quer ser, que quer fazer, isso não seria um assunto. Mas como não é bem assim… Enfim, os negros tiveram que passar por uma série de coisas e agora os gays estão tendo que passar por tudo isso. Mas fico um pouco triste por ter que brigar por tudo. Por exemplo, eu sou vegetariano – mas ninguém sabe. Porque não fico falando por aí. Eu escolho a minha opção e ninguém sabe se eu sou ou não sou. E também eu nunca tive uma vida dupla na qual tivesse que esconder minhas preferências. Na minha casa eu não me sentia oprimido por nada. Acredito que deveria ser assim pra todo mundo.

E como você lida com isso?
Eu vejo as pessoas falando, escrevendo e tenho minha maneira de fazer isso. Eu ter casado, ter exposto que eu casei, por exemplo. É a minha maneira de falar.