Economia está ‘pronta para uma retomada’, diz Luiz Figueiredo

Economia está ‘pronta para uma retomada’, diz Luiz Figueiredo

Sonia Racy

30 Outubro 2018 | 01h10

LUIZ FERNANDO FIGUEIREDO / ESTADÃO

O governo Bolsonaro corre o risco de dar certo,na opinião de Luiz Fernando Figueiredo, ex-BC e atual gestor da Mauá. “Nossa economia, por ter sofrido tanto durante tanto tempo, está, do ponto de vista cíclico, em um ponto favorável à retomada”, observou ontem o economista, mostrando-se bastante otimista em relação ao futuro.

Na sua opinião, alguns fatores ajudam nessa percepção: o nível de ociosidade das empresas é grande – eles reduziram fortemente os seus custos e sua alavancagem – e a inflação tem-se mantido baixa, bem como a taxa de juros.

O que o País precisa agora, diz Figueiredo, é da retomada de confiança dos agentes de mercado e de empresários. “Dada a direção correta pelo governo, a volta da confiança pode gerar crescimento de 3% ou 3,5%.” Assim, ele acredita que o mercado pode se surpreender com recuperação mais rápida do que supõe. Cotado para trabalhar no novo governo – fato de que nega ter conhecimento– Figueiredo conversou ontem com a coluna.

O que você entendeu dos primeiros sinais sobre a economia dados por Bolsonaro?
Ele colocou, na sua fala, a pacificação – o que é muito importante em um país muito dividido. Depois, com a Constituição na mão, enfatizou ser escravo da Carta, usando muito a palavra democracia. Terceiro, ponderou que o Estado tem que dar um passo pra trás, para um Estado menor – e assim o Pais poderá dar alguns passos à frente. Ele expôs sua maneira de pensar, de como o Estado deve seguir. Citou até Churchill, que foi um grande liberal e um dos maiores líderes da democracia no mundo.

Durante este último mês de campanha houve sinalizações confusas, dele e da equipe, sobre privatização e outros dogmas liberais. Ruídos?
Uma campanha tem vários ingredientes que acabam nos deixando confusos, uma questão de retórica da própria eleição. E, quando muitos falam, as chances do contraditório são grandes. Houve um momento em que Bolsonaro teve que pedir silêncio. Agora, com calma, vão colocando em prática o que pensam.

A fala de Haddad anteontem, bastante criticada pela iniciativa privada – aprofundando e incentivando o ‘nós contra eles’– terá qual efeito no Congresso?
Do PT nada se deve esperar, até porque coisa boa do PT a gente não deveria esperar mesmo. Se não fizeram até hoje, não é depois de perderem a eleição que vão fazer. Por outro lado, o presidente eleito está desenvolvendo um trabalho forte para gerar base política. Já declarou que o PSL não presidirá a Câmara. Está fazendo o oposto do que o PT fez ao querer sempre liderar.

A agenda das reformas está posta. É necessário incluir a independência do BC agora?
Acho que sim. Muita gente diz que isso na prática já acontece. Mas, toda vez que tem alguma encrenca, as incertezas aparecem, abrindo espaço para se duvidar se o BC vai tomar decisão técnica. E acho fácil passar, dá para ser antes da posse.

Economista, gestor de fundos, passagem pelo BC. Pela sua experiência, acha possível fazer o que eles estão pretendendo? Ajuste fiscal?
Paulo Guedes diz que vai tentar zerar o déficit em um ano, eu acho uma boa meta. Pode não chegar a ser completamente realizada, mas mostra um caminho. Se as coisas andarem muito bem, eles vão surpreender.

A reforma da Previdência pode sair antes do fim do governo Temer?
Acho difícil porque, para tanto, teria de ser encampada, em grande medida, a reforma já proposta. E também, se ela não passar, seria uma derrota antes de começar o governo Bolsonaro. O que é mais provável é que eles, a partir da reforma de Temer, preparem algo diferente mas usando um pouco do tempo gasto na reforma do Temer. A modificação seria feita no Senado e depois, voltaria para a Câmara já modificada. É um caminho. Mas é importante que as coisas não sejam atropeladas. No Brasil, até por conta de cinco anos de recessão, enorme desemprego e aflição gigante quanto ao poder de voto do PT, está todo mundo querendo que as coisas aconteçam amanhã. As coisas precisam ser feitas com calma para que realmente aconteçam. É como o meu filho: ele quer sempre acabar a prova em primeiro. Aí eu digo: quando você acaba em primeiro lugar, a sua prova com certeza não será a melhor.

Quais os pontos críticos?
Os principais são três. Primeiro ponto: eles precisam trazer uma agenda dos primeiros 100 dias do governo. De novo, não precisa ser amanhã, mas ao longo dessa próxima semana seria bom que viesse uma agenda, até com um esboço minimalista, mostrando quais são as prioridades. Para quê? Dar uma direção para os agentes. Para aquele empresário que está pensando em investir ou não, para aquela pessoa que está pensando se vai trocar de casa ou não, se vai trocar de carro ou não. Dois. Eles precisam manter uma parte da equipe econômica. A equipe do governo Temer foi extraordinária. Isso ajudaria muito aos que entram entenderem, de maneira mais rápida, a realidade. Não precisam ser todos, mas alguns elementos chaves. Eu diria ser muito importante manter o próprio Ilan Goldfajn no Banco Central.

Por quê?
Está indo tudo muito bem, se puder não mudar seria muito legal. O Mansueto de Almeida, a Ana Paula Vescovi, o Marcelo Caetano, o próprio Jorge Rachid. O terceiro ponto é a base de apoio no Congresso que, pelo que se sabe, não será difícil de montar.