É preciso ‘criar escala’ na filantropia, diz gestor financeiro

É preciso ‘criar escala’ na filantropia, diz gestor financeiro

Sonia Racy

09 de setembro de 2019 | 00h40

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LUIS STUHLBERGER, DA VERDE ASSET. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

CEO da Verde Asset Management relata
como vem implantando gestão profissional em Ongs
ligadas ao apoio social, fortalecendo a filantropia 
e ampliando os resultados para os beneficiados

 

Foi em 2003 que o executivo Luis Stuhlberger e alguns colegas na gestora de recursos Hedging-Griffo se deram conta de que entidades do mundo financeiro não tinham prática de fazer filantropia. Entendiam que era importante “devolver à sociedade um pouco do que tiveram a sorte de ter” – e a ideia que daí surgiu foi criar um instituto que não teria projetos próprios, mas seria o gestor de projetos de outras instituições.

A missão seria “ampliar a escala, beneficiar mais gente com os mesmos recursos”, pondo em prática “uma filantropia com gestão pautada pela eficiência”. Olhando o cenário da área social, o executivo definiu um propósito: “Poderíamos assim ajudar a dar escala para quem faz bem feito e, às vezes, não tem funding para ampliar seu alcance.”

Nesses 16 anos de vida, a causa encorpou. Com o apoio do banco Credit Suisse, que depois comprou a Hedging-Griffo, e da Verde Asset Management – da qual Stuhlberger é CEO e CIO –, adotou-se como norma “aplicar no investimento social o mesmo rigor usado nos investimentos financeiros”, resumiu Stuhlberger nesta entrevista a Sonia Racy e Gabriel Manzano.

Para ampliar o leque de apoios, que este ano abrange 19 instituições, o Instituto Credit Suisse Hedging-Griffo, ou ICSHG, promove um jantar na segunda-feira, dia 16, para executivos do mercado financeiro. “Não é jantar de arrecadação, é para apresentarmos o nosso modelo de gestão e os resultados alcançados a partir dele”, comenta Isabel Aché Pillar, diretora executiva do ICSHG. Essa nova forma de filantropia “pode ser posta a serviço de terceiros, para além de seus mantenedores, Verde Asset e Credit Suisse”. A seguir, os principais trechos da conversa com os dois, na sede do ICSHG no Itaim Bibi.

O que o instituto já realizou nesses seus 16 anos?
Ele beneficiou, desde sua criação, algo como 100 mil pessoas. Investiu cerca de R$ 40 milhões em projetos sociais, selecionando com rigor as entidades de sua “carteira”. Ajudou desde jovens de regiões de alta vulnerabilidade a estudantes que foram para Harvard, nos EUA, Universidade de Lyon, na França, por meio de bolsas de estudo no Insper e no Ismart. Hoje, também apoiamos mais de 300 famílias em duas creches, em Campo Limpo e Campos Elísios.

Tiveram alguma ajuda extra nessa caminhada?
O instituto conta com um forte engajamento das empresas mantenedoras. Temos ainda o Programa Funcionário Apresenta, em que projetos indicados por funcionários recebem aportes de valor mais baixo – este ano recebemos 35 indicações, em temas como saúde, educação, refugiados e idosos.

Como fazem a seleção dos projetos que recebem apoio do ICSHG?
Isabel: A gente lança um edital por ano, com critérios rigorosos. Um desses critérios é apoiar quem já tem resultados comprovados e concretos. Por exemplo, ver qual era a renda de um menino antes e depois do programa, sua performance escolar. E checar também o perfil do público atendido e a capacidade de gestão da organização que receberá o apoio.

Como avaliam o mérito?
Há projetos em que isso é mais fácil, em outros o desafio é maior. Na educação – que abriga 13 das atuais 19 entidades ajudadas – você vê a renda familiar do sujeito quando ele entrou, e depois, ao sair. Com os bolsistas, e hoje temos mais de 100, vemos as notas que tirou. E quanto às instituições atendidas quero lembrar que a cada ano se avalia se alguém da carteira pode renovar o benefício ou não. Algumas novas entram, outras eventualmente são descontinuadas.

Vocês têm números de beneficiados dessas missões?
Este ano, os 19 projetos abrangem cerca de mil pessoas e, indiretamente, umas 4 a 5 mil. Em 16 anos atingimos quase 100 mil pessoas.

Pode dar dois exemplos desse trabalho, um erro e um acerto?
Prefiro dizer que houve um aprendizado. Por exemplo, no ensino profissionalizante a gente se deu conta, aos poucos, de que a evasão era muito alta. Fomos checar e constatamos que estávamos errando no processo seletivo. O jovem era selecionado, mas assim que aparecesse uma oferta de emprego ele ia embora. Porque precisava ajudar em casa.

E o exemplo positivo?
Vale citar, neste caso, o Banco da Providência, projeto voltado para comunidades da zona Oeste do Rio – em Vila Kennedy, Pavuna, Penha e Cidade de Deus. Ali constatamos aumento significativo de renda per capita e familiar, com uma boa redução dos casos de nem-nem – os jovens que não estudam nem trabalham. E, na outra ponta, maior probabilidade de entrarem no mercado de trabalho como empreendedores. Um outro projeto que podemos mencionar é o CEAP, de ensino profissionalizante, em Cidade Ademar, sul de São Paulo. Ali jovens de 10 a 18 anos fazem cursos de robótica e informática. E 70% dos beneficiados entram no mercado de trabalho, em média, três meses depois de formados.

Qual o seu balanço pessoal dessa experiência?
O que minha experiência me mostra é um benefício que o poder público recebe com essas organizações. Pois as experiências do terceiro setor podem servir como um laboratório para o governo fazer melhor a partir do que gasta com educação, com saúde e transferências de renda. Veja, à educação se destinam hoje 6,2% do PIB, uma das taxas mais altas do mundo. Para saúde, 3,9% do PIB. Não se gasta pouco não…

É que se gasta mal…
As organizações da sociedade civil têm hoje um papel relevante para inovar no campo social e contribuir para aprimorar políticas públicas. Foi por isso que adotamos aqui no Instituto o modelo de grantmakers – ou seja, não temos nosso próprio projeto, ajudamos os projetos dos outros. No Brasil, já temos milhares de Ongs. Queremos ajudar os que já fazem a fazer bem feito. Melhor direcionar e dar escala a quem já faz.

Isabel: Em outros países isso é mais comum que aqui. A propósito, o último Censo do Gife, Grupo de Institutos e Fundações de Empresas, mostrou que, no Brasil, só 16% deles adotam esse modelo de grantmakers.

Constataram algum impacto nas organizações atendidas?
Isabel: Muitas delas se aproximam do Instituto e começam a rever suas práticas e processos para conseguir entrar na carteira. Isso é muito saudável, porque pode abrir outras possibilidades. Por exemplo, algumas delas não tinham demonstrações financeiras validadas por uma auditoria externa e fizeram esse investimento. Outras não tinham público-alvo bem delimitado e decidiram fazer uma revisão de seu processo seletivo para torná-lo mais assertivo. Outras criaram rotinas de acompanhamento dos alunos que já encerraram o ciclo do projeto e até criaram redes de ex-alunos.

E isso alterava a rotina dessas organizações?
Isabel: Sim, porque além do aporte financeiro havia também aporte de gestão. Queríamos saber se tinham fontes de receita diversificadas, o que faziam para enfrentar uma alta taxa de evasão. O investimento financeiro, em si, era só um começo.

Pelo que conhece na área, diria que o terceiro setor, no Brasil, é precário e negligenciado pelos governos?
O terceiro setor não é precário – existem muitas iniciativas com resultados. O terceiro setor se diversificou e cresceu bastante no País, nos últimos anos.

A seu ver, o modelo americano funciona porque o país é rico ou porque lá há boas medidas de incentivo?
Nos EUA existe o entendimento de que as empresas devem se concentrar em seus negócios e que as organizações sem fins lucrativos têm a expertise nas causas em que atuam. Mas lá a sociedade civil tem um histórico de mais longa data e a cultura de doação é bem mais presente que aqui.

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