“É preciso atentar para a saúde mental. Não pode perder o controle”, diz Tadashi Kadomoto, que reúne mais de 20 mil pessoas em lives diárias

“É preciso atentar para a saúde mental. Não pode perder o controle”, diz Tadashi Kadomoto, que reúne mais de 20 mil pessoas em lives diárias

Sonia Racy

13 de setembro de 2020 | 00h55

TADASHI KADOMOTO – FOTO: ERICH SACOO

Em tempos em que lives seriam um formato esgotado – após seis meses de pandemia da covid-19, as de Tadashi Kadomoto – de meditação – tem reunido mais de 20 mil pessoas por 40 minutos, na quarentena. São duas por dia, às 6h e às 20h, transmitidas pelo seu Instagram, com 1,4 milhão de seguidores. Sem contar as que ele participa como convidado, como recentemente aconteceu com Abílio Diniz, em que falaram, entre outros temas, sobre saúde mental.

O terapeuta não usa WhatsApp para poder dar conta de todo o resto. Ele tem também um canal no YouTube com quase 200 mil inscritos. E viu, após o turbilhão da pandemia, que sua privacidade “já era”. Tem sido reconhecido na rua. “Tô meditando com você, comprei seu livro, me dá uma autógrafo?”, conta à coluna, em entrevista por videochamada. “Eu preciso me adaptar”.

Para Tadashi, que por 33 anos foi terapeuta no formato presencial no seu instituto homônimo em SP, usar redes sociais foi um apocalipse particular. “Essa desconstrução foi minha maior lição da pandemia. Me reinventei”. Com a agenda lotada – precisa atender também pacientes na Inglaterra, Japão e nos EUA – ele diz que não vai abrir mão de alegrias pessoais para tentar encaixar quem o solicita. Quais alegrias? Sua própria terapia, aulas de fono, treino funcional e estar com a família no condomínio onde mora em Campinas. Veja os principais trechos da conversa:

Você se tornou, para milhares de pessoas, um terapeuta online, na pandemia. Bate até em você um desespero, uma ansiedade com tudo isso que estamos vivemos?
Quando começou a quarentena, eu perdi o chão. Porque estou há 33 anos trabalhando de forma presencial (no instituto que leva seu nome). Entrei numa ansiedade, numa insegurança que não cabia em mim. O que me tirou desse estado de sofrimento foi a meditação. E o ‘insight’ que tivemos em família (a mulher, a pscioterapeuta Carla, e filhos trabalham com ele) foi: vamos ensinar as pessoas a meditarem. E aí começaram as lives e a ideia era fazer só durante sete dias. Estamos completando 200 dias. Começamos com duas mil pessoas, hoje são mais de 20 mil.

Como pensa que será no pós-pandemia?
A primeira resposta que te dou é: amanhã, não sei o que vou fazer. Olha, eu não me sentia bem com o online, não gostava, mas nos reinventamos, me adaptei. O online é irreversível. Pós-pandemia, voltaremos também ao presencial. Sinto falta de olhar nos olhos das pessoas. Agora como vai ser? Não sei.

A internet – e celular, em especial – é fonte de ansiedade, mas ao mesmo tempo está ‘salvando’ nesse momento. É uma contradição?
Não é a tecnologia e as redes sociais que pioraram a sociedade. As pessoas vigiam umas às outras ou a pessoa vive uma vida que não é a dela por conta própria. A tecnologia é caminho sem volta. Quem está errado é quem usa sem consciência. A tecnologia é uma baita ferramenta que pode te ajudar a ser feliz, ser bem sucedido, ganhar dinheiro, ajudar as pessoas.

O que você diria pra quem se preocupa com a busca pela aprovação, o caça likes nas redes sociais?
As pessoas precisam fazer um caminho de autoconhecimento. Parar de se preocupar com os outros. Achar que é o que é postado é a vida real. Ninguém posta que tá deprimido, sem dinheiro. A pessoa posta o carro novo, a viagem e o restaurante. Eu achei um caminho inteligente pra usar redes social, pra exercer meu trabalho antigo (presencial) e pra falar minha verdade. Comparar-se com os outros gera ansiedade.

Falar todo dia para mais de 20 mil pessoas é muita responsabilidade, como se prepara?
Me preparo um dia antes. Tem uma equipe que me ajuda também. Mas esse trabalho não é um peso, é uma alegria. Antes da pandemia, tínhamos 150 mil alunos (incluindo cursos online). Hoje, não saberia te dizer, é fora de controle. Mas a gente só volta para o presencial quando tiver vacina.

Como está a sua vida com a popularidade?
Fique seis meses fechado em casa com a minha família, mas na semana passada fomos pra praia. Estão me reconhecendo na rua. Me falam: ‘Ah! Tô meditando com você, comprei seu livro, me dá uma autógrafo? Isso me assusta, em parte. Eu vou precisar me adaptar. Parei pra pensar e vi que você começa a não ter tanta privacidade. De repente eu estava com a minha esposa, a Carla, e a gente não conseguiu tomar banho de mar (diante da abordagem no caminho). A gente não tem como não conversar com as pessoas.

Você é muito requisitado para falar dos outros, mas como você está?
Cansado. Fui pra praia porque falei pra minha família: ‘Meu! Eu preciso de ar’. Cansa, né? Eu nunca trabalhei tanto na minha vida. Não sei pra você como é que tá. É uma loucura isso. Adoro o que faço mas a demanda é enorme. Não tenho mais agenda este ano. Somos 18 profissionais no Instituto, mas a coisa tomou um volume que vou te falar, não tenho mais espaço na agenda este nano. Antes da pandemia, eu atendia presencialmente quatro pessoas por dia. E não era diário. Hoje atendo de sete a 10 pessoas, e tem na Inglaterra, EUA, Japão…

Pelo feedback que recebe das pessoas, o que está captando, como elas estão nesse isolamento?
Muita gente não tem consciência do estágio de sua saúde mental. É preciso atentar pra isso. Não pode disfarçar e perder o controle. É quarentena, covid-19, morte batendo na porta… Não é à toa que a violência doméstica aumentou, a pressão no trabalho também. As pessoas não estão suportando mais. A orientação que dou é: se cuidem e não cheguem ao esgotamento.

Você lançou o livro “A Caminhada das Meditação” (Editora Gente) na pandemia, pretende fazer outro livro quando isso tudo acabar?
Hoje caminhando com a Carla nasceu o próximo livro que pretendo lançar no inicio do ano que vem. Serão mensagens curtas, como um “Minutos de Sabedoria”. Projetos eu tenho um monte, a gente não para.

Você cita uma frase de Dalai Lama que diz: “a alegria é poder”. O que te deixa feliz?
Fazer o que eu faço me deixa feliz e ter consciência que eu tô ajudando alguém. Aí não importa se é online ou presencial.

/CECÍLIA RAMOS

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