Para pesquisador, ‘é possível, sim, reduzir a violência nas cidades’

Para pesquisador, ‘é possível, sim, reduzir a violência nas cidades’

Sonia Racy

06 de agosto de 2019 | 00h45

ECONOMISTA DANIEL CERQUEIRA. FOTO IPEA

O aumento da violência e dos homicídios no País é assustador “mas não é um fato inexorável”, avisa o economista e pesquisador Daniel Cerqueira, que coordenou para o Ipea o Atlas da Violência – Retrato dos Municípios, divulgado ontem. A frase é um contraponto a dados desafiadores revelados pelo estudo – por exemplo, que apenas 2,1% das cidades brasileiras (120) concentram metade dos mais de 70 mil assassinatos. “A indicação principal do trabalho é que a taxa de homicídios cresceu demais mas é possível, sim, fazer uma política de segurança de resultados”, disse ele à coluna.

 Os números obtidos pela pesquisa surpreenderam?
Eles nos apontam um cenário desafiador. Além da concentração de 50% das mortes em 120 cidades (o País tem 5.570), é preciso registrar que, ao invés dos 65.602 óbitos violentos anunciados em 2017, o número real é de 72.9843, se considerarmos os ocultos. Mais: em 10 anos saltou de 30 para 41 por 100 mil habitantes a taxa média de homicídios. Das 20 cidades mais violentas, 18 estão localizados no Norte e Nordeste – o que pode ser explicado pela guerra entre facções de drogas, pelo controle das rotas de sua venda e pelo mercado ilegal de madeira e mogno. Outro dado pra se pensar: a diferença entre as cidades mais e menos violentas no País repete a diferença entre as taxas de homicídio do Brasil e da Europa.

Alguma boa notícia?
Sim. Você percebe que, em lugares onde houve políticas de segurança comprometidas com a vida das pessoas, deu pra frear e diminuir o número de homicídios. Dou como exemplo a Paraíba, que eu definiria como uma ilha de diminuição de homicídios. Somando essa experiência com outras bem-sucedidas em Pernambuco, Espírito Santo e São Paulo, é possível dizer que a violência não é inexorável. O que se constata é que mudar o Brasil de uma hora pra outra é impossível, mas mudar uma rua ou um território não é. O caminho é esse.

E por que isso não tem acontecido? Diria que as verbas para a segurança são mal usadas?
De modo geral, os recursos despendidos em segurança pública são pessimamente alocados. Gastamos com ela 1,4% do PIB. É mais ou menos a mediana dos países da OCDE. Se você pegar os recursos aplicados nos últimos 10 ou 15 anos, verá que esse orçamento dobrou. E por que não deu resultados? Porque foi dinheiro gasto em ações que não geram redução do crime. É tudo feito na galega, na improvisação.

Qual a melhor saída?
Há uma visão de que segurança pública quer dizer policiamento ostensivo, viaturas na rua… Ou seja, deixam de lado a polícia inteligente. E esta é fundamental, como já mostraram outras grandes cidades. Jogamos dinheiro fora num modelo falido.

São Paulo, Brasília e Campo Grande lideram entre as cidades menos violentas. Qual a razão?
Políticas permanentes comprometidas com a vida das pessoas, aplicadas e passadas de um governo ao seguinte. Uso da inteligência para focar as ações e gastos. Foi o que se viu nessas cidades, no Espírito Santo, na Paraíba. /GABRIEL MANZANO

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