‘É possível mudar de profissão no meio da vida’, diz chef renomada

‘É possível mudar de profissão no meio da vida’, diz chef renomada

Sonia Racy

03 de junho de 2019 | 00h55

CARLA PERNAMBUCO. FOTO: GIL CESAR

CARLA PERNAMBUCO. FOTO: GIL CESAR

A chef gaúcha Carla Pernambuco exerceu algumas profissões – atriz, repórter e assessora de imprensa – antes de descobrir, há 30 anos, sua vocação para a gastronomia. Hoje, aos 59 anos, recém-passou por outra mudança de vida, desta vez em função da própria saúde.

Depois de quase sofrer um ataque cardíaco em dezembro, reduziu o consumo de carne vermelha – coisa difícil para quem é do Rio Grande do Sul – e reserva suas manhãs para praticar yoga e natação. “Fazia muito esporte, mas parei porque passei a trocar a natação pela reunião”, contou à repórter Sofia Patsch, sobre a fase em que perdeu os hábitos saudáveis.

Hoje, mais disposta e 15 kg mais magra, a chef relata que o susto tomado no final do ano passado refletiu até no menu de seu bistrô, o Carlota, que mantém em Higienópolis desde 1995. “Comecei a estudar e ler muito sobre nutrição. Fiz umas trocas no cardápio, agora uso menos gordura, mas não consigo mudar totalmente”, disse. “As pessoas não saem para fazer dieta, elas saem para comemorar, comer bem, comer com conforto”, completou.

O interesse de Carla pela cozinha pintou em 1991, quando ela se mudou para Nova York para acompanhar o marido, que é fotógrafo da área de moda. Nos anos 1980, chegou a trabalhar como atriz em Porto Alegre, antes de cursar Comunicação em Brasília, colaborar para uma coluna de jornal e virar assessora de imprensa da DM9 de Nizan Guanaes. “Como sempre falo: querendo, é possível mudar de profissão na metade da vida”, defendeu. A seguir, trechos da entrevista.

Você quase sofreu um ataque cardíaco. Fato que a fez repensar todo seu estilo de vida e alimentação. O que mudou depois disso?
No dia 26 de dezembro, comecei a sentir mal-estar e dor no peito, liguei pro meu médico querido, o Dr. Salim Helito, que me pediu para ir urgentemente para o Hospital Sírio Libanês. Cheguei no setor de emergência com um quadro de pré-enfarte, me submeti a um cateterismo e coloquei um stent. Depois do susto, tratei de fazer a lição de casa direitinho: abaixo o sedentarismo e ter uma alimentação bem balanceada. Hoje, além de 15 kg a menos na balança, tenho saúde, energia e leveza de corpo e alma.

Mas você desconfiava que pudesse ser algo sério?
Eu fui de Uber para o Sírio Libanês, porque eu achei que eu não tinha nada. Tinha começado a sentir dor no dia 21 de dezembro. Quando eu acordei no dia 26, minha filha olhou para mim e falou: “Você vai para o hospital”. E eu fui. Chegando lá, foi uma loucura. A pessoa que me atendeu pegou as minhas carteirinhas de identidade e simplesmente me colocou em uma cadeira de rodas e me levou para a ala de emergência cardíaca!

Como era sua rotina antes? Não praticava esporte?
Fazia muito. Mas parei porque passei a trocar a natação pela reunião. Os processos são esses. Você chega e começa a trabalhar demais, não tem nenhum lazer, não faz mais nada para si mesmo, só trabalha, só se envolve com trabalho e vai cancelando o resto. Então, depois do susto que passei, resolvi radicalizar. Não marco mais nada de manhã, as manhãs são minhas, pode vir um decreto que eu digo não.

Deu uma diminuída na rotina de trabalho depois do susto que tomou? Como lida com o tempo voltado a você agora?
Faço o que gosto, isso é um privilégio, um prazer. Fico feliz de ter encontrado minha profissão dos sonhos, sou muito realizada profissionalmente. Como sempre falo: querendo, é possível mudar de profissão na metade da vida. Tratei de arrumar um horário pra nadar diariamente e fazer yoga duas vezes por semana.

Você tem estudado nutrição ultimamente, né?
Estou lendo tudo sobre esse assunto, testando e praticando, além de fazer cursos na área. O Senac tem ótimas opções para quem se interessa e o Hospital Albert Einstein também oferece um curso de pós graduação em nutrição muito bom, que venho considerando fazer.

Tentou adaptar o menu do bistrô Carlota a uma pegada mais saudável. Como foi a resposta dos clientes?
Vou tentando aos poucos, proponho alguns pratos mais leves. Porém, a maioria dos clientes gostam de uma farra, comida “comfort”, diversão e arte. As pessoas não saem de casa para fazer dieta. Dieta elas fazem em casa. Quem procura o Carlota quer uma comida gostosa, muitas vezes calórica. Mas também tenho opções bem saudáveis, como o peixe com nhoque de banana da terra, low carb, sem gordura.

Em frente ao Carlota fica o estúdio Carla Pernambuco, lugar em que você faz eventos e dá aulas. Conte um pouco o que está rolando por lá.
Meu laboratório, minha “open house”, Carlota Next Door. Um grande prazer compartilhar conhecimento e celebrar ocasiões especiais. Tenho me dedicado bastante a criar conteúdo para aulas em grupos pequenos, onde é possível ensinar, aprender e conviver. Nossas aulas têm degustação e são todas harmonizadas com vinhos.

Seu décimo livro, que aborda seus 10 anos de culinária na TV, será publicado em julho. Como é o livro e como foi essa trajetória?
Esse livro é o terceiro de uma série que fiz em parceria com a Editora Nacional. Reunimos o conteúdo que produzi para a TV nessa última década. O centro de tudo foi o projeto Brasil no Prato, que criei especialmente para o canal Bem Simples, gravei 78 episódios com o tema. Não vejo a hora de retomar alguns projetos na rua para o segundo semestre.

Muitos não sabem, mas antes de virar uma renomada chef, você foi atriz e jornalista. Como foi esse processo até encontrar a sua profissão atual?
É uma longa história. Estudei e fiz teatro no início dos anos 1980 em Porto Alegre, onde nasci. Atuei, produzi, divulguei, gravei voz nas trilhas, fiz locução de rádio e jingles e ainda tive uma passagem por uma agência de publicidade. Em 1982 me mudei para Brasília, onde cursei Comunicação. Em 1985, morando no Rio de Janeiro, trabalhei com assessoria de imprensa. Em 1988 me mudei de mala e cuia para a Pauliceia. Quando cheguei aqui fui trabalhar no jornal Folha de S.Paulo, na coluna da Joyce Pascowitch. Era a época áurea do jornalismo, fiz muitos amigos e criei uma rede de contatos com as fontes da coluna e os colegas de trabalho. Na sequência, fui convidada a trabalhar como assessora do publicitário Nizan Guanaes. Fiz a inauguração da agência DM9, trabalhei por dois anos com eles até me mudar para NY.

Quando foi que a gastronomia surgiu na sua vida?
Sempre falo que nunca é tarde para mudar. Nunca pensei que fosse trabalhar com gastronomia até que, em 1991, quando eu tinha 29 anos, me mudei para Nova York. Fui acompanhar meu marido, o fotógrafo Fernando Pernambuco, que tinha recebido uma proposta de emprego por lá. Chegando na cidade, me matriculei numa escola de culinária e também fiz muitos outros cursos avulsos de cozinha étnica. Além disso, estagiei no Vong, do chef Jean-Georges, e trabalhei no restaurante Boom – no Soho, com o chef Geoffrey Murray – e numa companhia de catering – The Cleaver Company, da Mary Cleaver, em Tribeca. Estava determinada a mudar de vida, virar cozinheira. Então, nós começamos a planejar e pesquisar a abertura de um negócio no ramo da alimentação em SP.

Foi aí que surgiu o Carlota?
De volta ao Brasil, em 1994, procuramos uma casa para fazer um pequeno negócio de takeout em Higienópolis, casa que deu origem ao Carlota. Na época, o público estava ávido por novas propostas – chegamos no lugar certo, na hora certa. Nascia um restaurante autoral, bistrô brasileiro do bairro de Higienópolis. Pegamos um sobradinho e o Fernando tratou de fazer uma reforma com cara de loft. Isso foi determinante no estilo do Carlota. Ele me ajudou muito a trazer o público da moda na época, ele fotografava para as grandes revistas de moda, que estavam vivendo seus tempos áureos. E eu trazia a imprensa em peso, isso ajudou muito a bombar o bistrô.

Além de cozinhar é uma ótima gestora. Qual dica pode dar para quem está abrindo seu primeiro restaurante?
Seja moderado sempre. Não exagere, controle seus custos. Não precisa de grandes luxos e ingredientes caros para fazer comida boa. Boas ideias, bom senso.

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