‘É muito tarde para pensar em mais medalhas nos Jogos de 2016’

‘É muito tarde para pensar em mais medalhas nos Jogos de 2016’

Sonia Racy

07 de outubro de 2013 | 01h00

Foto: Rodrigo Zorzi

O bicampeão olímpico fala sobre o desafio de sediar o evento, a falta de investimento, seu começo no esporte, o acidente do irmão e a vida da família que é um clã da vela.

O apelido de Turbina não é à toa. O homem tem cinco medalhas olímpicas (duas de ouro), quatro títulos mundiais, um ouro pan-americano, uma America’s Cup e uma Volvo Ocean Race. Isso para citar apenas as principais conquistas. Aos 53 anos, o paulista Torben Grael se sente realizado pessoalmente e como atleta – “meu pai costumava dizer que, quando Deus vier lhe chamar, você deve estar pronto para dizer ‘obrigado, minha vida foi fantástica’”.

Também pai de dois velejadores que já vêm fazendo justiça à tradição da família (Martine Grael sagrou-se vice-campeã mundial da classe 49erFX na semana passada), ele disse adeus às competições olímpicas pouco antes dos Jogos de Londres. E apesar de ter lutado pela escolha do Rio de Janeiro como sede da Olimpíada de 2016, tornou-se crítico do evento. Culpa da falta de foco da organização. Exemplo a ser seguido? O dos… ingleses, “que saíram de um patamar parecido com o nosso e foram os terceiros colocados no ano passado”. A receita para um esporte mais forte no País Torben tem na ponta da língua e coloca em prática, há 15 anos, via seu Projeto Grael.

Entre uma regata e outra em Ilhabela, o supercampeão falou à coluna sobre os desafios vencidos e perdidos, o drama e a glória do irmão, Lars, o começo da aventura da família no mar e o apelido que marca sua vida desde menino, em Niterói.

Depois de lutar pelo Rio como cidade-sede, dos Jogos de 2016, você aos poucos se tornou crítico do trabalho feito pela organização. O que aconteceu?

Vou falar em relação à vela, que é o meu esporte. Primeiro, acho que não mudou significativamente o apoio à vela. Algumas ações aconteceram, mas, de modo geral, continua muito parecido com o que era na minha época. O universo da vela progrediu muito, e nós não. Outro fato é que estamos sediando os Jogos e agora há um impasse muito grande em relação às instalações da competição.

Você chegou a falar que a Marina da Glória é a raia olímpica mais suja da história. Existe outro lugar melhor no Rio para as provas de vela?

O problema é que foi estabelecido um compromisso de melhorar em 80% a qualidade da Baía de Guanabara e isso não vem sendo cumprido. Outro ponto: não se está fazendo nada em relação às instalações, e elas deveriam ficar prontas dois anos antes da Olimpíada. É praxe, até porque a cidade-sede recebe, antes dos Jogos, dois eventos internacionais – para que as equipes possam conhecer as condições locais. Ou seja, ano que vem as instalações deveriam estar prontas, mas, no ritmo em que se está trabalhando, pode-se garantir que isso é impossível.

O ministro Aldo Rebelo já disse que um dos principais investimentos do governo é no aumento do número de medalhas nos Jogos de 2016. Qual sua postura em relação a isso?

Todos nós queremos mais medalhas… Afinal, quem não quer? Mas está tarde demais para isso agora. Nada vai acontecer nestes pouco mais de dois anos que faltam para os Jogos. O investimento pesado tem de ser feito na base, no esporte escolar, juvenil, e isso não vem acontecendo. Sem esse tipo de trabalho, acho muito difícil mudar o patamar em que se encontra o esporte nacional.

Como você classificaria seu relacionamento com o ministro do Esporte e com o presidente do COB, Carlos Arthur Nuzman?

Conheço pouco o ministro Rebelo. Já o Nuzman eu conheço bastante. Tenho um relacionamento cordial com ele, nada além disso.

O que é necessário acontecer para que o Brasil se torne uma potência olímpica? Esquecendo a Olimpíada?

Isso, pensando além dos Jogos de 2016, no Rio. A gente precisa colocar dinheiro onde é mais importante, onde é mais difícil. Ou seja, na base. Aumentar o número de crianças e adolescentes praticando esportes. Depois, investir na identificação dos jovens que têm potencial, que têm qualidade para se tornar atletas. E, claro, permitir que eles desenvolvam todo esse potencial. Hoje em dia, o Brasil investe muito nos atletas consagrados. Acontece que é muito complicado você sair da iniciação no esporte e chegar a ter resultados para, eventualmente, conseguir apoio financeiro. Esse é o passo mais difícil.

Quais os melhores exemplos a serem seguidos?

Se você olhar os países mais bem-sucedidos no esporte, um dos melhores exemplos é justamente a Inglaterra. Até porque é um case de sucesso recente. Os ingleses saíram de um patamar parecido com o nosso em Jogos Olímpicos e foram os terceiros colocados em 2012 – quando sediaram o evento. É o melhor espelho que a gente poderia ter. O que eles fazem de diferente da gente? A pergunta a ser feita – e respondida – é essa.

Você acabou não indo para os Jogos de Londres. Foi só falta de patrocínio?

Também não fui a Pequim, em 2008. Naquela época, preferi me dedicar à vela oceânica. No caso dos Jogos de 2012, houve dificuldade para fazer uma preparação correta. Apresentamos vários projetos para a Confederação Brasileira de Vela e Motor, mas não conseguimos colocar nenhum deles em prática. Não fico frustrado, pessoalmente, por isso. O que me causa mais desânimo mesmo é ver tantos bons valores brasileiros (gente bastante jovem) que não conseguem apoio para competir em uma Olimpíada.

É difícil ser atleta olímpico?

Para ser atleta olímpico você precisa abrir mão de muita coisa. Abdicar totalmente da vida pessoal, da vida profissional, dos estudos. É bastante difícil… e nem todo mundo consegue fazer isso. Decidir disputar uma Olimpíada significa muito sacrifício.

O que acha de a Classe Star, que tantas alegrias trouxe ao Brasil, correr o risco de não estar na Olimpíada de 2016?

Eu tenho quatro medalhas olímpicas nessa classe, Robert Scheidt tem outras duas. São seis ao todo, é a disciplina mais bem-sucedida do esporte brasileiro ao lado do vôlei. Nesse aspecto, o COB está fazendo um trabalho muito bom, tentando reverter esse fato junto ao COI. A decisão sai em novembro, estamos na torcida.

Tem algum prognóstico dos principais candidatos brasileiros ao pódio na vela em 2016?

Cara, eu prefiro não falar, porque isso colocaria uma pressão danada nos nossos atletas. (risos) A gente sempre teve grandes resultados mundiais, grandes velejadores. Espero que possamos manter essa tradição.

Por falar em tradição, como se explica que a gente tenha tão bons resultados em um esporte que praticamente não recebe incentivo?

Uma parte é fruto de dedicação pessoal dos atletas. Outra parte se deve à boa infraestrutura dos clubes no País. É algo que limita o acesso, mas os que trabalham com a vela fazem um belo trabalho de renovação e difusão do esporte. O terceiro são as excelentes condições climáticas que temos para a vela no nosso litoral. A família Grael é um verdadeiro clã da vela. Você começou com 5 anos, ao lado do seu irmão, Lars, a bordo de um barco do seu avô. Conta um pouco como foi esse início. Sou descendente de dinamarqueses e meu avô, Preben, tinha um barco chamado Aileen. Era da categoria 6m, já extinta, e havia sido usado pela Dinamarca nos Jogos Olímpicos de 1912, em Estocolmo – quando levou a medalha de prata. O engraçado é que meu avô comprou o barco já no Brasil. A gente aprendeu muita coisa com ele, navegando pela Baía de Guanabara. Mais tarde, ele deu um barquinho-escola para cada um de nós, um Pinguim. Foi meu avô quem iniciou a tradição de velejar na família. A parte técnica a gente aprendeu com os meus tios (Axel e Erik Schmidt, campeões mundiais e brasileiros na classe Snipe e que também estiveram em dois Jogos Olímpicos).

O Aileen ainda existe?

Existe e completou um século no ano passado. Houve uma série de comemorações na Suécia, eles queriam que a gente levasse o barco pra lá, para participar de uma regata especial, uma homenagem. Eu acabei indo, mas o barco ficou. Está muito bem conservado e ainda disputa competições de barcos clássicos.

Como é ver a família toda envolvida com a vela? (Além da mulher de Torben, Andrea, os filhos do casal, Martine e Marco, também competem pelo mundo inteiro) Você faz o gênero capitão em casa também?

Não, não (risos). Em casa é bastante descontraído. O problema é que a gente acaba se encontrando pouco, porque tem sempre alguém viajando. Nesse momento mesmo, a Martine e o Marco estão na Europa, disputando regatas.

O quanto te marcou o acidente com o seu irmão (Em 1998, Lars Grael teve a perna direita decepada pela hélice de um iate que invadiu a área da regata)?

Foi um acidente causado por uma série de fatores que não poderiam ter ocorrido, né? Um barco que invade um local de prova… e as pessoas envolvidas ainda não sofreram punição. Nosso maior receio era a saúde do Lars, como ele reagiria. Uma vez superado o obstáculo (da perda da perna), a reação dele acabou surpreendendo a todos, só fez melhorar a pessoa maravilhosa que ele sempre foi, um exemplo para todos nós.

Quais são os seus próximos desafios, Torben?

Tenho competido muito na classe S40 e participado de regatas de Star. Devo também estar no campeonato mundial deste ano (neste sábado, ele participou da Regata Internacional Recife–Fernando de Noronha). Além disso, tenho dedicado mais tempo ao Projeto Grael, fazendo outras contribuições com apoio da Confederação Brasileira de Vela.

Como está o projeto?

A sede fica em Niterói. Atuamos há 15 anos, com cerca de 350 alunos por semestre. A gente promove iniciação à vela, à competição, mas o Projeto Grael também é voltado à cidadania, pois ensinamos profissões relacionadas ao mercado náutico. E temos uma sub-sede em Três Marias, MG. Procuramos dar um pouco a outras pessoas, aos jovens, das oportunidades que tivemos.

O tempo mostrou que o apelido Turbina combina mesmo com você. Gosta dele?

Recebi o apelido ainda garoto, quando disputava a classe Laser. Era uma brincadeira com o meu nome. Foi uma época maravilhosa da minha vida, acho que todo velejador adora a Laser. Ali todo mundo ganha apelido. Acabou virando nome do meu barco. /DANIEL JAPIASSU

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