‘É muito difícil fazer teatro no Brasil sem depender das leis de incentivo’

‘É muito difícil fazer teatro no Brasil sem depender das leis de incentivo’

Sonia Racy

13 de janeiro de 2014 | 01h00

Foto: Iara Morselli/Estadão

Malvino Salvador se despede do horário nobre da Globo e já se prepara para encarar um lutador de MMA na telona. Mas não desdenha da fama de galã: “Quem não gosta? Eu gosto!”.

Na reta final da novela Amor à Vida, Malvino Salvador entrega: seu personagem, Bruno, passará por uma última provação. “Mas acredito que o final será feliz”, sugere. Já nas telonas, o moço se prepara para viver o lutador de MMA José Aldo, especialista em muay thai e jiu-jítsu – seu conterrâneo e ídolo. Os dois nasceram em Manaus, onde a família do ator ainda mora, mas Malvino é dez anos mais velho.

Na preparação para o filme, Malvino contará com ajuda da… namorada, Kyra Gracie, pentacampeã mundial de jiu-jítsu. E diz que sua verdadeira paixão é o boxe. “Pratico todos os dias, de segunda a sábado, há seis anos.”

Entre um ensaio e outro, ainda pretende terminar a faculdade de Contabilidade, que largou no último ano para se tornar modelo (“Faltam umas quatro matérias”) e fazer um curso de paraquedismo.

Questionado sobre a fama de galã, nem titubeia: “Gosto, acho legal.” Mas se engana quem pensa que o ator é só um rosto (e, por que não, um bíceps) bonito. Malvino tem opiniões políticas bem definidas – críticas ao governo Dilma e ao PT: “Eles tentaram mudar o sistema político do Brasil, baseando-se no sistema bolivariano chavista”, declara. E a Lei Rouanet? “O teatro está na mão dos diretores de marketing das empresas.”

Malvino falou à coluna no Barê – bar nos Jardins que inaugura quarta-feira com os sócios, Raphael Einsfeld, Clovis Mello, Luiz Melo e o chef Rodrigo Einsfeld.

A seguir, os melhores trechos da conversa.

Quando você começa a rodar o filme sobre a vida do lutador José Aldo?

Acredito que no primeiro semestre deste ano.

Quais os desafios para interpretar a história desse seu ídolo e também conterrâneo?

É muita responsabilidade. O Zé Aldo é conhecido e tem muitos fãs que querem saber sua história. Por isso, ela precisa ser bem contada. Ter um bom roteiro é essencial e meu maior foco na composição será entender as motivações que moldaram a personalidade do Zé durante sua trajetória, até ele se tornar um campeão.

Já começou a se preparar fisicamente para o filme?

Ainda não. Nesse momento estou focado na novela que está se encerrando. Mas pratico boxe regularmente.

O que espera para seu personagem no fim da novela?

Acho que ele passará por uma última provação. Vai perdoar o Félix, eu acredito. E vai passar por outro drama, que é o perigo de a Paloma (Paolla Oliveira) morrer no parto. Mas acredito que o final será feliz. Vamos ver.

Nessa reta final de Amor à Vida, que balanço faz de seu personagem e da trama?

Foi muito importante para a minha carreira. O Bruno é um personagem cheio de altos e baixos. Perde a família bem no momento em que está começando a vida; aí, no mesmo dia, encontra uma recém-nascida no lixo e a salva. De alguma forma, aquela criança também o salva e traz de volta a perspectiva de família e futuro. Tive uma sinergia muito boa com o Walcyr Carrasco e estou bem satisfeito com o rumo que o Bruno tomou. Essa novela vai ser a mais longa dos últimos 10 anos, são 221 capítulos. É difícil para um autor manter tudo isso, e acho que o Walcyr está conseguindo.

Qual sua opinião sobre as polêmicas que a novela aborda, como a sexualidade de Félix (Mateus Solano) e a reação homofóbica de César (Antonio Fagundes)?

Acho que uma questão é a homofobia e outra é o mau-caratismo. Então, uma coisa não está ligada à outra. O Félix é gay e isso é normal, cada um tem de ser o que acha que tem de ser. O pai o criou daquela maneira, excluindo, mas não atribuo a isso o fato de ele ser mau-caráter. Cada um reage de uma maneira diferente. O Félix já tinha a maldade em si e reagiu dessa forma, é um mau-caráter mesmo. A psicologia pode, de alguma forma, minimizar um pouco as ações dele – reiterando que ele sofreu na infância. Eu não concordo. Acho que mau-caráter nasce mau-caráter.

Que fim você daria ao Félix?

Ah, por mim ele iria para a cadeia. Até para dar exemplo, né? Vide nossos políticos maravilhosos… alguns deles estão indo para a cadeia.

Seria um bom momento para dar esse exemplo…

Tem que haver exemplo nesse País. Todo mundo rouba, mata, faz o que quer, porque ninguém é punido. Tomara que esse seja o começo de uma mudança estrutural no Brasil, porque tem de mudar. Todo o código penal tem de mudar.

Gosta de política, é engajado?

Eu me interesso bastante por política. Gosto de ficar sabendo. Acho que todo mundo é político de alguma forma.

Mas já fez ou faria campanha para algum político?

Não, isso não. Quer dizer, não agora. Até porque trabalho em uma emissora de TV e nem poderia. Futuramente, não sei, só Deus sabe. Mas eu me interesso muito, sim; acho que a gente tem de se engajar.

O que você está achando do governo Dilma?

Não gosto, não. Na verdade, acho muito ruim. Não só o da Dilma, mas qualquer governo do PT. Não concordo com o tipo de política que eles fazem. Estão tentando mudar o sistema político do Brasil, baseando-se no sistema bolivariano chavista, entendeu?

Acha que as manifestações populares de junho do ano passado e a prisão dos mensaleiros são um começo de mudança?

A gente aqui torce para que isso realmente não termine em pizza, mais uma vez.

Você chegou a participar das manifestações?

Não participei, porque estava gravando de segunda a sábado, de manhã à noite. Fiquei três meses sem ver minha filha.

Tem vontade de ter mais filhos?

Futuramente, gostaria, sim, de ter uma penca de filhos. Vamos ver. Quem sabe?

E de se casar?

Aí tem de ter alguém, né? (risos) Acho que tudo acontece na hora certa.

Como lida com a fama de galã?

Eu acho legal. Quem não gosta de fazer sucesso de alguma forma, provocando esse tipo de reação em algumas pessoas? É bacana, é legal. Não vou dizer que não gosto.

Então, enxerga como um feedback do seu trabalho?

Qual é a essência do galã? Ele é um cara que atrai a mulherada porque está fazendo cenas com outras mulheres e, de alguma forma, acaba causando atração – sexual e sensualmente. Isso é mais ou menos o que resume o galã. Estou desempenhando bem o papel. Agora, gosto também de fazer o não-galã. Na minha peça (Mente Mentira, de 2010, texto de Sam Shepard), eu era o oposto do galã e foi muito legal.

Lida bem com a fama?

Acho que tem prós e contras. Na nossa profissão, somos apedrejados ou glorificados. A pior coisa são as fofocas.

As fofocas já te atrapalharam em alguma área da sua vida?

As fofocas atingem um nível que, muitas vezes, passa do aceitável. Muitos colunistas inventam histórias do nada.

Não seria obra do tal ditado “onde há fumaça há fogo”?

Mas, às vezes, não. Não sei onde isso vai parar, porque não há punição. Se houvesse punição, funcionaria assim: se o cara inventou, eu o processaria. Diria: “Então, prove. De onde você tirou isso?”. Se o cidadão não provasse, deveria ser punido. Mas punido para doer o bolso mesmo, porque só se doesse no bolso o cara ia parar de ficar inventando.

E sobre a polêmica das biografias? Acha que deveria haver autorização prévia?

Ah, não. Isso é totalmente ridículo. Todo mundo tem de ter liberdade, dizer o que quer, mas também sabendo que pode ser processado.

Como foi a experiência de produzir uma peça? Gosta de ficar nos bastidores?

O projeto era uma idealização minha. Achei que, produzindo, iria entender como era o processo por trás das câmeras. Tive de ler e estudar as leis de incentivo fiscal, aprendi quais eram os passos a serem dados.

Qual sua opinião sobre as leis de incentivo para o teatro e o cinema brasileiros?

Acho que deveria mudar. O teatro está nas mãos dos diretores de marketing das empresas. Em um primeiro momento, a Lei Rouanet foi muito importante para fomentar o teatro, mas, hoje, fazer teatro é muito caro. Demorei cinco anos para conseguir produzir minha peça. Tudo é caro, cenário, diretor renomado (que hoje não ganha menos de R$ 30 mil), iluminador (se quiser um bom, custa caro). Vai juntando tudo, é muita grana para conceber uma peça. É um absurdo. Queria fazer um teatro sustentável, antigamente existia isso no Brasil. Não sei como é que seria, acho que deveria haver mais discussão acerca disso – porque, hoje, é muito difícil fazer teatro sem depender de lei.

O que acha que pode ajudar a mudar essa situação?

De repente, se alguns atores toparem receber compartilhando os lucros. Aliás, não só os atores, mas unindo todos os profissionais: atores, diretores, iluminadores. E deixar para pagar os custos fixos só para as pessoas que trabalham, de fato, no dia a dia. Talvez essa seja a saída, começar a trabalhar em cooperativa.

Produziria uma peça de novo?

Não! Dá muito trabalho. Foi importante adquirir o conhecimento para, de repente, tomar conta de uma parte da produção, a artística. A parte financeira acho muito trabalhosa e muito chata. E olha que fui contador, hein? Com certeza, eu seria um homem muito infeliz. (risos)

Dá mais prazer trabalhar no projeto social de boxe com os meninos do Morro do Vidigal.

O projeto não é meu, eu só apoio. Começou há 20 anos, no Vidigal, graças ao professor Raff Giglio, que aprendeu boxe em Cuba. Desde então, foram formados muitos campeões de boxe brasileiros – e alguns chegaram à seleção brasileira, inclusive aquele que voltou com a medalha de prata na Olimpíada de Londres, o Esquiva Falcão. Eles perderam o espaço em que treinavam no dia 31 de dezembro de 2012, depois que entrou a UPP no Vidigal. Atualmente, treinam em uma oficina mecânica toda detonada, que precisa ser reconstruída do zero. De lá para cá, ainda não conseguiram a verba de R$ 240 mil para fazer isso.

Você treina boxe até hoje?

Treino. Adoro. É o esporte de que mais gosto.

Tem religião?

Olha, não. Frequentei o espiritismo, também a umbanda. Não sei, sou muito cético em relação a muitas coisas. A religião na qual eu mais acredito é a espírita. /SOFIA PATSCH

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