‘É importante trabalhar na prevenção do abuso infantil’

‘É importante trabalhar na prevenção do abuso infantil’

Sonia Racy

11 de novembro de 2013 | 01h00

Foto: Marina Malheiros/Estadão

No País com a missão de angariar fundos e firmar parcerias para sua ONG Childhood, ela fala sobre a luta contra a exploração de menores e seu carinho pelo Brasil.

Filha de brasileira e alemão, a rainha Silvia, da Suécia, se sente em casa no Brasil. Natural, já que viveu aqui até os 13 anos. No País para temporada de um mês, a nobre se desdobra em uma agenda de compromissos. Maior deles? Buscar parcerias e angariar apoio para o braço brasileiro de sua World Childhood Foundation – ONG que trabalha na prevenção e no combate de abuso sexual infantil.

Segundo dados da Childhood Brasil, de janeiro a abril foram registradas 46.111 denúncias de violações de direitos de crianças e adolescentes – o que representa 35% de aumento em relação ao mesmo período do ano passado. É nesse cenário que ela faz coro à causa: “É importante trabalhar na prevenção”, destacou a rainha, que recebeu a coluna na tarde de sexta-feira, no prédio da Camargo Corrêa. Rosana Camargo de Arruda Botelho, acionista da empresa, é a representante da ONG no Brasil.

Entre os projetos locais está a concretização de uma iniciativa da própria Silvia: a sala de depoimento. “Um lugar que ela possa reconhecer como dela. Tem brinquedos, bonecas… Presente, somente a psicóloga, que faz as perguntas necessárias”, explica. A primeira do Brasil foi instalada no Rio Grande do Sul.

Além do trabalho de filantropia, a rainha aproveitará para visitar seus parentes locais e matar a saudade das frutas brasileiras. Exemplos: “Jabuticaba e manga”. Afável e atenciosa, com um sorriso nos lábios, assegura, antes de terminar a conversa: “Meu coração é brasileiro”.

A seguir, os melhores momentos da entrevista real.

Como a senhora teve a ideia de criar a Childhood?

Foi em 1993, um momento difícil, em que tivemos um caso de pornografia infantil na Suécia. Na época, o caso chocou o país. Entretanto, o assunto era tabu. Ninguém tinha coragem de abordá-lo. Então, quando fui à Unesco, eles me pediram para falar sobre a situação da criança na Suécia, que é bastante boa, mas tem seus problemas. Pensei que, como rainha, poderia chamar a atenção para essas questões.

A senhora sempre teve essa preocupação?

Depois desse caso, senti que deveria falar sobre isso. Naquele tempo tampouco se falava de abuso sexual e pornografia infantil no Brasil.

Qual a essência do trabalho da Childhood?

Chamar a atenção para esse problema. No Brasil e em outros países. Porque os abusos existem em todo lugar e em todas as camadas sociais. Também procuramos ajudar projetos que já existem e necessitam de recursos. Não é fácil, para muitas organizações, conseguir trabalhar nesse setor.

Como a ONG escolhe parcerias e projetos para apoiar?

Atuamos na Suécia, Alemanha, EUA e Brasil. Aqui temos a Childhood Brasil, responsável por escolher os projetos. Recebo as propostas e trabalhamos em cooperação. Este ano, estamos apoiando dez projetos no Brasil e desenvolvendo projetos próprios, de forma contínua. Sempre em parceria com setores empresariais, a Justiça, os setores de turismo e construção civil. Nosso mais novo e importante projeto é a sala de depoimento.

O que é a sala de depoimento?

A situação de uma criança que sofreu abuso é muito difícil. E, às vezes, ela tem de contar essa história muitas vezes, o que é um processo doloroso. Tem de falar para os pais, médicos, policiais, juízes, assistentes sociais… Quando o abuso acontece com um familiar, a dor é ainda maior. Esse trauma é horrível. Essa sala de depoimento é um ambiente feito para a criança. Ela reconhece como dela: tem brinquedos e uma única pessoa – psicóloga – faz as perguntas. Do outro lado da sala – atrás de um vidro, a criança não vê – estão os profissionais que precisam das respostas para dar prosseguimento ao processo.

Tem funcionado?

Muito. Começamos na Suécia. A primeira sala de depoimento no Brasil foi instalada no Rio Grande do Sul. Depois, inaugurei uma no TJ de Recife. O governador, Eduardo Campos, foi muito aberto à ideia. Até o fim do ano serão 100 salas no Brasil. Em São Paulo já são 29.
Abuso de menores é questão interdisciplinar. Envolve assistência social, Justiça, polícia. No Brasil, muitos desses sistemas são frágeis.

Como é o espaço para uma ONG atuar?

É necessário falar sobre o assunto na escola, para trabalhar a prevenção e ajudar a criança em caso de denúncia. É essencial que a criança tenha coragem de denunciar. Porque, em muitos casos, ela é sozinha. A mãe, às vezes, também tem medo de falar, tem medo de que a segurança da família se quebre. Por isso a necessidade de apoio social. Nosso dever é estar junto e ajudar não só as vítimas, mas as pessoas que podem atuar como agentes sociais nesses casos.

Que porcentagem tem coragem de denunciar?

Sabemos que esse número é a ponta do iceberg – há muito mais casos. Mas as denúncias vêm crescendo desde que começamos a trabalhar, o que me deixa feliz. Este ano houve aumento de 35%, comparando com o mesmo período de 2012. Foram 46 mil registros.
A Childhood também tem um projeto que capacita caminhoneiros para serem embaixadores da causa e denunciar.

Como surgiu esse projeto?

A ONG viu o problema e firmou parcerias com as companhias de transporte. Fizeram workshops com caminhoneiros, para que eles se informassem sobre os direitos das crianças. Muitos não pensam que uma menina de 14 anos é uma criança. Por isso temos de falar a respeito. Eles se tornaram embaixadores e denunciam, se preciso.

No Brasil, as adolescentes estão expostas à sexualidade muito cedo. Como fazer um trabalho de prevenção?

A mídia tem seu papel. A criança vê filmes, lê sobre a vida de atores, artistas e, naturalmente, acha que é algo de que deve participar. A mídia deveria estar mais alerta e não fazer tanta propaganda que induza a criança nesse sentido. Porque ela tem o direito de ser criança.

Foi difícil para a senhora captar recursos por aqui?

Não. Todos sabem da gravidade e importância do problema. Aqui temos um grupo de empresários muito ativos, sempre presentes.

O que acha do governo Dilma nessa área?

Hoje foi um dia muito importante, porque o ministro Gilberto Carvalho mostrou preocupação com o problema e disposição para se unir a empresários. O governo faz muitas coisas, mas o Brasil é enorme. Fazer parcerias com as grandes companhias seria um bom caminho.

Como é sua rotina?

Levanto cedo, 4 ou 5 da manhã. Tenho um trabalho de escritório– das 9 às 5, no castelo. Além disso, recebo visitas, chefes de Estado. Pelo menos cinco noites por semana estamos engajados em eventos. Jubileus, congressos… é intenso (risos), mas gosto muito do que faço.

Qual o papel da monarquia na Suécia?

Apolítico. Meu marido representa o país e eu, como esposa, também. Meu primeiro dever e desejo é apoiá-lo. Depois vêm meus próprios interesses – como esses projetos.

A Suécia é um exemplo de país de paridade de gênero. O que acha de termos uma presidente mulher?

Contanto que seja boa e inteligente, é ótimo. Principalmente quando o assunto são mulheres e crianças.

O que a senhora ainda considera brasileiro?

O coração (risos). Passei minha infância aqui, fiz o colégio aqui, tenho muitos primos, mantenho meus laços. Já matei a saudade de jabuticaba e manga (risos).

Como mantém o português?

Com carinho. /SONIA RACY E MARILIA NEUSTEIN

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: