‘É frustrante não receber o carinho do público’, diz Regina Casé, que pretende fazer mais novelas, após estrelar Amor de Mãe em meio à pandemia

‘É frustrante não receber o carinho do público’, diz Regina Casé, que pretende fazer mais novelas, após estrelar Amor de Mãe em meio à pandemia

Direto da Fonte

26 de abril de 2021 | 00h00

Regina Casé. Foto: João Pedro Januário

Regina Casé se frustrou por não ter conseguido curtir o carinho e o contato direto com o público, que tanto ama, com a personagem Dona Lurdes – da recém encerrada novela Amor de Mãe. “Na hora que a Lurdes explodia, aquela hora que todo mundo vem tirar uma selfie, vem te abraçar, não pode acontecer por conta da pandemia. Uma personagem como essa não acontece toda hora na vida de um ator”, disse ela, que não fazia uma novela há 18 anos.

Se ficou um gostinho de quero mais? Regina assume que sim. “Gostaria de continuar a atuar por um tempo. Estava com muita saudade der ser atriz”, disse à repórter Sofia Patsch em conversa por telefone direto de seu sítio no litoral fluminense, local onde está isolada com toda a família há mais de um ano.

Ela conta que a convivência intensa fez os familiares brincarem de diferentes papéis. “É engraçado, mas ninguém mais sabe quem é o que de quem”, brinca. “O Roque (seu filho caçula de 7 anos) é tio do Brás (seu neto de 3 anos), mas eles acham que são irmãos. A Benedita é minha filha, mas eu esqueço e acho que ela é a mãe do Brás, uma amiga”, diverte-se a atriz. E foi nesse clima familiar que ela posou para a foto que ilustra essa matéria, que ela fez para a Reserva Go – linha de calçados da marca.

Sobre essa nova forma de trabalhar, em casa, ela acredita que veio para ficar, mas que o contato físico é necessário. “Além de ter um custo menor, em muitos aspectos é mais sustentável. Espero que a gente ache um equilíbrio entre as duas coisas”. Ela não sabe o que esperar do cenário cultural brasileiro pós pandemia. “Estamos tentando sobreviver a tudo isso e quando a gente começar a catar os caquinhos vamos ver como fica.” Mas acredita na potência de regeneração do setor: “Confio muito na força, na originalidade da cultura brasileira”. Leia, a seguir, os melhores momentos da conversa.

Você teve que interromper as gravações de Amor de Mãe no meio por causa da pandemia, depois de 18 anos sem atuar em novelas. Tem vontade de fazer outra novela?
Foi frustrante não ter tido um beijo, um abraço, um contato com as pessoas na rua. Na hora que a Lurdes explodia, aquela hora que todo mundo vem tirar uma selfie, vem te abraçar, não pode acontecer. Sempre adorei esse contato com o público, com a Lurdes, que é o tipo de personagem que não acontece toda hora na vida, isso ia, com certeza, ser maior ainda.

Então ficou um gostinho de quero mais no ar?
Gostaria de continuar a atuar por um tempo. Estava com muita saudade der ser atriz.

E como enxerga o cenário cultural do Brasil pós-pandemia?
Ainda não consigo enxergar. Estamos tentando sobreviver a tudo isso e quando a gente começar a catar os caquinhos vamos ver como fica. O que confio muito é na força, na originalidade da cultura brasileira, na força dos produtores culturais. A força da nossa cultura é tremenda, que é uma pena um retrocesso tão grande em todos os sentidos.

Fez fotos caseiras para a campanha da Reserva Go. Acha que esse estilo de trabalho, feito em casa, continuará?
Ai, quero que a gente retome o contato físico, que retome as viagens, mas acho que isso não vai acabar mais. Esse trabalho, além de ter um custo menor, em muitos aspectos é mais sustentável. Espero que a gente ache um equilíbrio entre as duas coisas. Que a gente avalie bem quando precisa ir a um local, porque é importante o contato físico, mas que também avalie quando não é necessário e faça desse outro jeito.

Está isolada com sua família no sítio há mais de um ano. Como está encarando a pandemia?
Desde o dia que paramos as gravações de Amor de Mãe, que foi 14 de março do ano passado, vim direto pra cá e estou aqui até hoje, direto. Mesmo quando a novela retomou eu ia e voltava. Estamos todos aqui, meu marido, o Estevão (Ciavatta), a minha filha Benedita, meu filho Roque, meu genro João e meu neto, Brás. Montei tudo para as crianças aqui, mas agora estou achando que preciso voltar a aprender a morar numa cidade.

Já pensou em não voltar a morara na cidade?
Muito. A qualidade de vida, né, todo dia tem mato, mesmo nos dias que trabalho muito, às vezes no finzinho da tarde dou um mergulho no rio, na cachoeira, vou pro meio do mato. Faz uma diferença enorme na vida. Mas por enquanto ainda não posso, meu filho está com sete anos, tem que voltar pra escola, não tem jeito.

E como está a relação familiar de vocês aí isolados?
É engraçado, mas ninguém mais sabe quem é o que de quem. Por exemplo: o Roque é tio do Brás, mas eles acham que são irmãos. A Benedita é minha filha, mas eu esqueço e acho que ela é a mãe do Brás, uma amiga, temos filhos mais ou menos da mesma idade, e assim tem muito mais uma troca entre duas mães do que entre uma mãe e uma filha.

Interessante sua relação com a Benedita.
Volta e meia eu falo: ai, tadinha da Benedita, nem tô dando beijo, nem tô dando colo de mãe pra ela. Meu neto me chama de mãe o tempo todo, porque ele convive com o Roque, que me chama de mãe. Então meu filho me chama de vó, meu neto me chama de mãe, e eu chamo todo mundo pelo nome errado (risos).

Tem uma capela no sítio? Acredita em alguma religião?
Minha formação é católica, fui criada por uma avó muito católica, Mariana, que me ensinou desde pequenininha a rezar e a conversa era direto com Nossa Senhora, ela intercedia junto a Jesus, junto a Deus. Estudei num colégio também Mariano, então a minha maneira de rezar, a minha maneira de me relacionar com o sagrado e com os mistérios é Mariana.

Então é católica?
Poderia dizer que sou católica, sou batizada, crismada e casada. Só que durante a minha vida, com os amigos que adquiri, com as viagens que fiz, com os trabalhos, fui entrando em contato com muita gente. Tenho muitos amigos judeus, rabinos, muitas vezes fui e vou às sinagogas, e tenho um prazer enorme em ouvi-los. A mesma coisa com o Candomblé. Tenho uma ligação profunda com a Bahia, tive a sorte de conhecer Mãe Menininha quando era muito jovem, ela pediu que me levassem lá porque era fã da Tina Pepper (personagem de Regina interpretou na novela Cambalacho, em 1986). Tenho uma irmã que é budista, que mora num templo. O que me move é o relacionamento das pessoas com o sagrado, com o mistério, sem condenar as outras religiões.

Sua história com a maternidade é muito bonita, tem uma filha deficiente auditiva e um filho que adotou aos 59 anos. São duas histórias fortes. Queria começar falando sobre Benedita, como foi o processo de aceitação e descoberta?
Quando você tem o diagnóstico fica apavorada. Queremos o melhor para nossos filhos e já de cara saber que ele vai sofrer com essa perda é muito duro para uma mãe. Mas com o tempo você vai aprendendo a lidar com a situação, e a melhor professora sempre foi ela. Quando eu estava desesperada com uma coisa, quando não sabia como resolver, ela sempre me apresentava uma solução. E durante muito tempo quis que ela expusesse a surdez e ela dizia: “Não, porque se chego na casa de uma amiga, se chego num ambiente de trabalho, se chego numa sala de aula e já sou colocada como surda, a maneira como as pessoas me tratam é horrível. Eu não quero isso. Quero que as pessoas entendam quem eu sou, gostem ou não gostem de mim, pra depois saber”.

E quando ela decidiu falar?
Ela esperou um momento da vida em que se sentiu colocada socialmente, estava casada, com um filho, uma profissão, pra aí ela expor e falar. As pessoas infelizmente ainda colocam a deficiência do outro na frente da pessoa, como se primeiro aquela pessoa é surda, depois vem o resto. Fulano é o quê? Ela é cega, depois vem o resto. E ela não queria isso. Acho que foi muito sábia.

E em relação ao Roque, como foi ser mãe aos 59 anos?
Sabe que tenho pena da gente não ter se encontrado como mãe e filho muito antes. Brinco que não concordo com quase todos os ditados, e um desses é “a natureza é sábia”. Nem sempre. Sou uma mãe muito melhor pro Roque do que fui pra Benedita, porque eu tinha uma ansiedade, um medo de errar, dúvidas sobre o que é certo ou não, o volume de trabalho, a necessidade de prover todas as coisas e trabalhando sem parar. Hoje, acho que tenho uma situação de vida, um equilíbrio emocional muito melhor pra ser mãe dele. Eu só não consigo jogar bola como eu jogava com a Benedita (risos).

Para encerrar. Já tomou a vacina contra a covid-19?
Tomei a primeira dose há dois dias e quero aproveitar pra falar uma coisa. Outro dia estava falando ao telefone com a Luiza Trajano, que é uma mulher que admiro imensamente, e ela me pediu uma força para conscientizar a população a tomar a segunda dose da vacina, parece que tem um número enorme de pessoas que não voltou para tomar a segunda dose, às vezes por ignorância, por não ter uma campanha clara. Então meu recado para os brasileiros é: “Dona Lurdes está pedindo, mandando todos tomarem as duas doses da vacina, só assim sairemos dessa”.

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