‘Drama do museu pode se repetir na área central de SP’, diz perito

‘Drama do museu pode se repetir na área central de SP’, diz perito

Sonia Racy

10 Setembro 2018 | 00h37

ENGENHEIRO FLAVIO FIGUEIREDO. FOTO JORGE HYND

Há trinta anos no ramo, Flavio Figueiredo
analisa os erros 
que levaram à destruição do Museu Nacional
e deixa o aviso: a área central 
de São Paulo tem vários
prédios em estado igualmente precário 
que deveriam ser
desocupados: “São tragédias esperando para acontecer”.

O incêndio do Museu Nacional do Rio resultou de uma soma de descaso, burocracia e desconhecimento técnico. Mesmo que se comprovasse uma origem criminosa para a tragédia, o fato é que nada funcionou no sistema de prevenção antifogo. E se alguém bradar com falta de verbas para isto ou aquilo, o engenheiro paulistano Flávio Figueiredo avisa: com pouco dinheiro se faz uma manutenção diária e permanente. Troca-se uma fiação, conserta-se um teto ou um cano.

“Mas a manutenção e o cuidado com pequenas coisas não integra a cultura dos burocratas do País”, lamenta o engenheiro. “O que prevalece é a mania de preparar grandes reformas para quando estiver tudo caindo em pedaços. É fazer obra nova e não modernizar a que foi inaugurada pelo político rival na gestão anterior.”

Atuando há mais de três décadas na perícia técnica, Figueiredo é também conselheiro do Instituto Brasileiro de Avaliações e Perícias de Engenharia do São Paulo, o Ibape. Nesta entrevista a Gabriel Manzano ele junta o drama do museu carioca com o incêndio – em maio – de um edifício no Largo do Paiçandu, em São Paulo, e adverte: “Há muitos outros prédios em São Paulo em situação parecida, que deveriam ser esvaziados com urgência. Vejo-os como tragédias esperando para acontecer”. A seguir, principais trechos da conversa.

Como um estudioso de segurança em prédios e em perícia técnica, qual seu balanço do incêndio do Museu Nacional?
Além da enorme indignação com as perdas do acervo, sinto a indignação por ver repetidos os mesmos antigos males do País. O verdadeiro motivo daquele incêndio foi o descaso, o desconhecimento técnico, a cultura do ir deixando tudo pra depois. E também o hábito de só se pensar em grandes reformas – nunca na manutenção de pequenas coisas no dia a dia. Mas além disso há muita politização. A um gestor eleito não interessa reformar e melhorar a obra feita por seu rival na gestão anterior. Ele quer outra, grandiosa, com o nome dele, placa de bronze, cortando fita. Somos assim.

O que faltou fazer, concretamente, no museu?
Faltou o que não é feito quase nunca: a análise de risco. Se a fizessem, mesmo sem uma grande verba poderiam adotar uma medida emergencial – trocar a tomada aqui e ali antes do curto circuito. Tem que pôr uma coisa na cabeça: o gestor é o responsável pelo que está sob sua guarda. Se ele não tem meios para proteger algo importante, tem de sair gritando. Não dá pra ficar quieto e achar que o problema desaparece. No caso do museu, se não conseguiram consertar deveriam organizadamente transferir aquele incalculável patrimônio para um lugar seguro. Alguém devia ter gritado: “Esvaziem já essas salas!”

Já se comentou que o incêndio pode ter tido origem criminosa.
Mesmo que seja isso: o que todos vimos foi que o sistema de combate ao fogo estava abandonado e não funcionou… Isso em um museu daqueles, cheio de preciosidades!

Em suma, preservar patrimônio exige conhecimento.
Sim. Não basta que o gestor seja honesto, tem de ter conhecimento técnico. Veja só a ironia: gastaram em torno de R$ 1 bilhão para criar o Museu do Amanhã, no porto do Rio. E ali pertinho deixaram o Museu Nacional queimar. Muitos são honestos, orgulham-se de não gastar, de manter o caixa positivo. Aí o patrimônio se deteriora e o prejuízo pode ser incalculável, em dinheiro e em memória cultural.

A sociedade não tem o hábito de cobrar dos dirigentes a gestão do patrimônio.
Sim, e aqui estou me referindo a cobrar em tudo – prédios, bens, múmias, dinossauros, estátuas, documentos, teatros, estradas, hospitais, áreas turísticas… Mas a manutenção permanente é um conceito que não integra a nossa cultura. Temos burocratas que, por falta de dinheiro, deixam de comprar vacina – e os cidadãos que fiquem desprotegidos.

Divulgou-se nos dias seguintes ao incêndio que o Ministério da Cultura ia dar alguns milhões, o da Educação outros milhões, e o BNDES estava com um empréstimo pronto para uma grande reforma do museu. Como avalia isso?
Que mais valeria terem se informado melhor e a tempo. Como disse, alguém competente deveria ter gritado: “Tirem logo isto daqui”, ou “desliguem a energia, até resolvermos tudo”. Não dá pra esperar o teto cair, o fio desencapar. Se isso fosse feito, o acervo estaria lá hoje, inteiro.

De que tipos de leis ou obrigações o País dispõe para impedir esses malfeitos?
Nossas leis são mal elaboradas, têm muita poesia e burocracia misturada. Submetem às vezes um prédio antigo a regras que só fazem sentido para outros sofisticadíssimos. A lei tem um cipoal de curvas, nada vai a lugar nenhum. Digo isso com experiência pessoal. Tenho participação societária em um bem tombado.

Um exemplo concreto disso?
Pois não. Um dia eu voltava do escritório para casa, pelo Minhocão, e vi uma pessoa tentando pular lá embaixo. Liguei para o 190, contei o caso à polícia e o sujeito pediu um tempinho. Voltou ao telefone dizendo que o Minhocão não fazia parte dos registros. Aí me ocorreu o nome na placa e falei “elevado Costa e Silva”. Beleza, aí conseguimos conversar.

‘DEPOIS DO PAIÇANDU, TEMOS
OUTRAS TRAGÉDIAS
À ESPERA DE 
ACONTECER
NA ÁREA CENTRAL DE SP’

Tivemos em maio, em São Paulo, um incêndio que provocou o desabamento de um prédio no Largo do Paiçandu, com seis mortos. Sabemos que o sr. acompanhou a história. De que forma aquilo se resolveu?
Não tem nada resolvido. O que temos, lamento dizer, são vários outros prédios em situação igualmente precária e indevidamente ocupados na cidade. Neste sábado, 8, passei pela região central, revi prédios sob risco de novo e reafirmei minha impressão: temos ali várias bombas relógios prontas para estourar, tragédias como a do edifício Wilton Paes de Almeida à espera de acontecer.

O que os responsáveis deveriam fazer nesses prédios?
Checar as exigências básicas. Ver o estado das instalações elétricas, instalações de gás, os encanamentos, se há hidrantes e prevenção geral contra incêndios. São coisas que garantem um mínimo de segurança e habitabilidade. Nas oportunidades que tive de fazer visitas a alguns desses locais cheguei a uma conclusão: é preciso esvaziá-los. E logo. É comum, nesses prédios, ver elevadores sem portas ou bujões de gás onde eles não são permitidos.
Não dá pra ficar aguardando reuniões e decisões desta ou daquela comissão que está investigando o acidente.

E por que ninguém faz nada?
Muitos dos responsáveis pelos prédios pensam: “Se eu reclamar com alguém, o movimento de moradia A vai reagir, o movimento de moradia B vai discordar, vira confusão. Então não vou fazer nada.”

O senhor chegou a atuar no caso do Paiçandu?
Fui chamado a opinar. E o que disse foi que tivemos sorte porque o prédio em chamas caiu rapidamente. Se tivesse antes ardido por três ou quatro horas, como ocorreu antes nos edifícios Andraus e Joelma, o fogo passaria para os vizinhos e teríamos uma tragédia muitíssimo maior.

Faria uma comparação das providências tomada no Brasil com as de outros países?
Não vou criticar as exigências brasileiras, se são boas ou são ruins, mas exigências desse tipo no exterior são levadas muito a sério. Lá prevalece a visão de que alguma razão existe para a medida ser imposta. Veja um exemplo. No dia seguinte ao incêndio do museu recebi telefonema de uma parente que mora na Europa e lida com essa área. Ela me perguntou: “Qual foi o sistema que não funcionou para ter um desastre tão grande?” Eu respondi: “Todos!”

No livro Vistorias em Obras Civis, recentemente lançado pelo senhor, aparece o termo automedicação para obras públicas. O que isso significa?
Escrevi sobre automedicação por sugestão de minha mulher, que é farmacêutica. Assim como o sujeito com dor de cabeça vai à farmácia, compra uma aspirina, um calmante, e vai tomando, também vai à loja e compra dois ou três aparelhos elétricos. Coloca um benjamim na tomada e junta ali os três aparelhos. Não imagina que a casa pode pegar fogo por causa disso.

É o que muita gente faz em casa, de fato.
Pois é. E no entanto é simples fazer uma impermeabilização, um reparo no encanamento, trocar um fio com mau contato. Lembro aqui um recente episódio que define bem a nossa cultura. Recentemente, um prefeito avisou que ia fazer – e de fato saiu fazendo – “uma grande operação tapa buraco” na cidade. Quer dizer, uma meia sola, uma quebração de galho. O fato é que você perde dinheiro se faz algo improvisado e tem de refazer mais tarde. E perde dinheiro se não faz nada e tudo se arrebenta. Tem mesmo é que ter conhecimento técnico.

A propósito desse ex10emplo, correu a informação de que a ponte Rio-Niterói está com ferrugem em várias alças e precisaria da manutenção preventiva. Mais tarde isso também pode custar caro, não?
E quem disse que a ponte não pode cair? Alguém já avaliou pra dizer que é seguro passar guiando um carro em cima dela? Mas veja só, acabamos de ver que a cultura italiana é semelhante à brasileira. Aquela ponte em Gênova que caiu há algumas semanas… Precisava de manutenção e não fizeram.

Voltando ao Museu Nacional, o que imagina que vai acontecer? Falam – agora – em milhões de ajuda, em refazer rapidamente o prédio, colocar ali outro grande acervo.
Não tenho bola de cristal para saber. Mas posso questionar sobre o incêndio no Largo do Paiçandu: o que está sendo feito nos outros prédios invadidos da cidade? Nada. Precisa desocupar, corrigir, nem que seja para os moradores voltarem. Eu preferiria estar errado, mas creio que não vão tomar nenhuma medida urgente.