‘Doar significa que um pedaço de você foi junto’, diz Sergio Rial, ex-presidente do Santander

Gabriel Manzano

25 de abril de 2022 | 02h00

SERGIO RIAL, DO SANTANDER. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

O Teatro Santander será palco hoje de um evento especial, a convite de Sergio Rial, chairman do Santander e do Movimento Bem Maior, fundado por Elie Horn. Os convidados vão discutir caminhos para impulsionar a cultura de doações no País, como forma de reduzir barreiras sociais.

Doação, ressalta Rial nesta entrevista à coluna, “é diferente de filantropia ou de caridade. Doar significa que um pedaço de você foi junto”. Participam, entre outros, Luciano Huck, Preto Zezé e Rodrigo Mendes. A seguir, os principais trechos da conversa.

Para orientar essa ação foi feita uma pesquisa, Doação Brasil 2020. O que ela constatou? 

Esse processo de pesquisa, na verdade, lançou os primeiros resultados em 2015. Foram reunidas críticas, opiniões, e temos agora um retrato pra comparar 2015 com 2020. E doação é a melhor palavra, porque filantropia, ou caridade, não representam o ato de doar. Doar significa que um pedaço de você foi junto, através de uma ação pecuniária.

Quantas entrevistas foram feitas? E chegaram a um perfil do doador no País?

Foram mais de 60 mil entrevistados e contactados, e o destaque, o perfil dominante, é a mulher. Ela tem na média 30 a 49 anos, instrução superior, mora mais nas regiões Nordeste ou Sudeste, tem renda superior a 4 salários mínimos e alguma religião.

O que se constatou sobre esse período 2015-2020?

Que a partir de 2015 o porcentual de doadores cai, devido à crise econômica e à pandemia. Em 2015, 77% da população nacional havia feito algum tipo de doação. Em 2020, esse número caiu para 66%. Mas esses números significam que o brasileiro doa. Historicamente, se acreditava que falar de doação era uma coisa ruim, que não se deve ficar propagando um ato à custa de pessoas que precisam de ajuda. Mas há outra versão para isso. Talvez quanto mais se fale de doação mais as pessoas se engajem na causa.

Renato Meirelles, do Instituto Locomotiva, fez um mapeamento das doações na pandemia e observou que 66% das pessoas que doaram são das classes C, D e E. Como você explica isso?

Primeiro, é alguém entender a vulnerabilidade de uma perspectiva tal que as classes com dinheiro não conseguem ter. É a empatia por saber o que é estar vulnerável. E a segunda razão é o reconhecimento da importância do coletivo. Quando você está vulnerável, a interdependência é clara. É uma questão de sobrevivência.

E como deixar isso claro?

Falando sobre como a doação de uns estimula a prática de outros. Desconstruindo alguns conceitos históricos, do tipo “a gente não divulga porque a caridade não deve ser falada, deve ser praticada”. Mas não precisa falar em dinheiro. Divulgar doação não é autopromoção, é reconhecer que existem milhões de pessoas que dependem dos que podem mais.

Em que ponto acha que estamos nesse caminho?

No ponto do reconhecimento de que é importante falar sobre isso. É importante introduzir a discussão da doação, que não é um tema só de CNPJ, é um tema de CPF. Quando alguém diz “ah, mas eu já pago impostos…” cabe dizer que é preciso transcender o aspecto tributário. A doação tem de ser o antídoto à indiferença. O tema dos moradores de rua, em 2020, salta à vista porque é tremendo. Esse é um público-alvo junto ao qual trabalhar uma cultura de doação.

Vocês estão saindo na frente nisso, não?

A gente tem de falar sobre isso. Se esperarmos um país melhor achando que o Estado vai prover, está claro que a solução não vai passar por aí, né? Pra se ter uma ideia, em 2020 o total doado no Brasil foi de R$ 10,3 bilhões. E entre 2015 e 2020 o valor médio anual, doado por pessoa caiu de R$ 240 para R$200. Veja, se fomos capazes de gerar R$ 10 bilhões, o que a gente não pode fazer se formos organizados? É importante a gente abraçar causas que não são de ano, são de décadas, e não desistir. E que cada um passe o seu legado para o herdeiro.

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