Discurso de rei

Discurso de rei

Sonia Racy

18 de outubro de 2013 | 01h10

Foto: Paulo Giandalia/Estadão

Em noite dedicada ao Rei do Futebol, Pelé disse à coluna esperar que “as manifestações populares estejam mais calmas durante a Copa” e que Neymar, agora no Barcelona, “tem tudo para superar Messi”.

O evento de anteontem na casa de Monica e Walter Schalka marcou o reencontro do jogador com o fotógrafo Luiz Paulo Machado depois de mais de 40 anos. É dele a célebre imagem de Pelé, em pleno Maracanã, com um coração no peito – obra do suor e do acaso.

O jantar reuniu sobretudo santistas, mas também recebeu fãs de Pelé de todos os credos. Passado o frenesi, Pedro Sirotsky, gremista dono da Editora Toriba, tomou para si o microfone e contou a saga do collector’s book 1283, fotobiografia do atacante lançada oficialmente neste mesmo dia. Com edição limitada, cada um de seus 1.283 exemplares custa nada menos que R$ 3.500. Exceção feita às 200 cópias com a foto do craque autografada – e preço de R$ 5.500. Todas foram vendidas na hora.

Luis Alvaro, presidente licenciado do Santos, também falou. Depois… o Atleta do Século. Muitas vezes interrompido por aplausos, Pelé fez questão de ressaltar: “Devo tudo o que sou aos meus companheiros, não fiz nada sozinho”.

Pouco antes de se juntar a Luiz Paulo e assinar as cópias de sua foto mais famosa, o Rei concedeu entrevista exclusiva.

Às vésperas dos 73 anos, o que sente ao ver o livro?

Confesso que não esperava por isso. É um presente, porque cada foto ali me traz lembranças muito fortes. Durante toda a minha carreira, sempre me perguntava: “Por que eu?”. Desde o início, quando ainda nem me chamavam de Pelé.

Desde a primeira convocação para a seleção brasileira?

Sempre. Aliás, essa história está no livro e é ótima. Você tem tempo? Em 1957, eu era do sub-17 do Santos, e foi formado um combinado Santos e Vasco. Como boa parte do nosso time principal estava excursionando, acabei sendo chamado para jogar. Fiquei pasmo, perguntei: “Eu? Tem certeza?”. Era um torneio internacional, fomos campeões, eu marquei gol e tudo (Pelé fez seis gols em quatro jogos). Foi a oportunidade perfeita, porque muita gente me viu no Maracanã e no Pacaembu e o técnico da seleção me convocou para jogar a Copa Roca daquele ano.

Como foi reencontrar o fotógrafo Luiz Paulo Machado?

Foram mais de 40 anos, né? A foto é de 1971, quando me despedi da seleção. A emoção vem fácil, sou muito chorão. Mas brinquei, falei para ele dizer a verdade, que só descobriu o coração quando revelou o negativo. Ele deu risada. Foi um reencontro maravilhoso. A foto é uma obra de arte.

Você fez 1.283 gols. Deixou de fazer algum, o 1.284?

É até pecado falar isso (risos). Mas, com certeza, queria ter feito aqueles dois gols que não fiz na Copa de 1970: a tentativa de antes do meio de campo contra a (então) Tchecoslováquia e o chute depois do drible de corpo no goleiro uruguaio Mazurkiewicz. Se bem que, até hoje, mostram mais esses dois lances do que alguns gols que eu fiz. Acho que não posso querer mais do que tive. Não seria justo.

Só faltou um recorde…

Só pode ser coisa de Deus, entende? Como é que se explica que o único recorde que eu não bati pertença ao meu pai, Dondinho? Ele fez cinco gols de cabeça em um único jogo. Eu só fiz três!

Está animado com a seleção do Felipão?

A gente teve o bom senso de parar de testar jogadores. Cada jogo um time… não dá. Com Parreira e Felipão, a gente conquistou um padrão. O time foi formado há pouco tempo, mas já tem consistência. Uma coisa que chama a atenção, engraçada, é que, no meu tempo de jogador, o forte da seleção era o ataque; agora, a maior preocupação é com a defesa. Acho que ainda estão faltando alguns pequenos ajustes, mas já temos um time.

Acredita que Neymar se tornará o melhor do mundo, agora no Barcelona?

Ele tem tudo para superar o Messi e o Cristiano Ronaldo – que são os melhores do mundo hoje.

Pode-se esperar o Pelé comentando a Copa para alguma emissora?

Continuo com a responsabilidade de trabalhar com a presidente Dilma, no esforço conjunto para que dê tudo certo. Espero que os movimentos sociais estejam mais calmos no ano que vem e não atrapalhem a Copa do Mundo…

Você foi bastante criticado na época da Copa das Confederações por pedir que a população se esquecesse dos protestos e só se manifestasse depois da competição.

Aquilo foi um mal-entendido. Acho que os jogadores não tinham nada a ver com a história e foram injustamente vaiados nos estádios. De qualquer forma, acho muito importante uma Copa do Mundo no Brasil. E vou focar no trabalho junto à organização do Mundial, apagando incêndios por aí (risos).

Você sempre usou o futebol para falar de paz. Em 1969, chegou a parar, literalmente, a guerra civil no Zaire, que dizimava o país. Acha que estão faltando mais Pelés no mundo?

O futebol é, com certeza, um veículo que une os povos. Naquela excursão com o Santos, a gente pôde, nem que por um breve momento, mudar a perspectiva das pessoas, a realidade que elas estavam vivendo. Se dependesse de mim, não haveria mais guerras no mundo. Infelizmente, não é tão simples assim. /DANIEL JAPIASSU

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